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28/10/2002

Lula chega à presidência no Brasil

The New York Times
Larry Rother
The New York Times
No Rio de Janeiro (Brasil)

O Brasil consolidou uma virada para a esquerda neste domingo ao eleger para a presidência Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores -- um ex-metalúrgico, líder sindical e prisioneiro político que jamais ocupou um cargo executivo. A vantagem de votos de Lula é a maior de toda a história brasileira.

Com 95% dos votos apurados na noite de domingo (27), Lula liderava facilmente com 61,5% dos votos contra 38,5% de seu adversário José Serra, candidato pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) que governou esta nação de 175 milhões ao longo dos últimos oito anos. Os 51 milhões de votos de Lula, que superou as marcas do presidente Bush e de Al Gore em 2000, lhe garantem um respaldo incontestável para comandar o mais populoso país latino-americano.

"É uma verdadeira virada, uma mudança histórica de rumos que revela o quanto este país deseja a mudança", firmou Candido Mendes, um respeitado cientista político local e autor de "Lula: uma opção mais do que um voto". "Lula venceu em todas as regiões do país e em todas as classes sociais".

A enfática vitória de Lula provavelmente também surtirá efeitos no exterior e fortalecerá a esquerda em toda a América Latina, além de assustar os mercados internacionais. O Partido dos Trabalhadores tem sido um crítico consistente dos Estados Unidos e de seus valores, e prometeu reduzir aquilo que julga ser uma "subserviência" política e econômica do país a interesses estrangeiros.

Antes mesmo do início da votação, o líder cubano Fidel Castro cumprimentou Lula pela vitória, ao dizer a repórteres em Havana que "somos amigos e eu admiro sua perseverança". O presidente venezuelano Hugo Chavez disse que ele e Lula poderiam unir-se em um "eixo do bem" latino-americano. A Casa Branca não demonstrou o mesmo entusiasmo: o porta-voz da presidência Ari Fleischer afirmou na noite de domingo que o presidente Bush "espera trabalhar de modo produtivo com o Brasil".

Lula estava confiante quando saiu para votar na manhã de domingo. "Este é o momento mais feliz da minha vida", disse ele antes de votar em São Bernardo do Campo, cidade industrial dos arredores de São Paulo na qual iniciou sua carreira política há mais de 25 anos. "Quero dedicar esta eleição ao povo sofrido do nosso querido Brasil".

A disposição dos brasileiros para eleger um presidente da classe trabalhadora pela primeira vez em sua história tornou-se clara já no primeiro turno, realizado no dia 6 de outubro, quando Lula por pouco não conquistou a maioria absoluta para evitar um confronto final contra Serra.

Porém a "onda vermelha" que de acordo com alguns analistas políticos tomaria conta do Brasil no domingo não se concretizou, pois seus apoiadores não tiveram o mesmo bom desempenho. Embora o Partido dos Trabalhadores tenha conquistado um grande número de cadeiras no Congresso no primeiro turno, seus candidatos aos governos estaduais não se saíram bem nas disputas do segundo turno. Como resultado, os cinco principais governos entre os 27 estados brasileiros serão controlados por outros partidos.

Ainda assim, a esmagadora vitória de Lula o torna o primeiro presidente de esquerda em mais de 40 anos e o primeiro a chegar ao cargo pelo voto direto.

Nas outras vezes em que disputou a presidência, Lula jamais conquistou algo além de um quarto dos votos no primeiro turno. Nas eleições do passado, o programa de seu partido era considerado excessivamente radical, e o tom raivoso e vingativo de seus discursos alarmava os eleitores. Mas após uma derrota esmagadora em 1998, ele passou a moderar a plataforma petista e sua própria imagem, em um processo do qual nasceu o "Lula Light", conforme a denominação criada pela imprensa brasileira.

A partir de então o Partido dos Trabalhadores abandonou sua defesa de uma "ruptura" com o modelo da economia de livre mercado e da suspensão do pagamento da dívida externa. O próprio Lula aparou sua barba desigual, empenhou-se em parecer menos irascível e começou a vestir terno e gravata, embora mantivesse na lapela uma estrela vermelha, o símbolo de seu partido.

Com o crescimento estagnado e uma desvalorização que já supera 25% do valor moeda nacional em relação dólar, além do crescimento do desemprego, os ataques de Lula contra as políticas do atual governo desta vez alcançaram maior popularidade do que no passado. Ele ainda prometeu criar 10 milhões de empregos durante seus quatro anos de governo e reduzir as taxa de juros. O atual índice de 21% figura entre os mais elevados do mundo.

"Chegou a hora de dar uma chance ao Lula, pois ficou claro que o atual modelo não funciona", afirmou Carolina Figueiredo, uma professora primária, após a votação. "Lula trabalhou muito e de forma honesta nestes 22 anos, e ele e o Partido dos Trabalhadores amadureceram o bastante para que eu resolvesse colocar o destino do país em suas mãos".

Mas quando Lula assumir seu cargo no dia 1º de janeiro, o Brasil provavelmente viverá, além da mudança política, uma mudança de estilos. Em contraponto direto ao presidente Fernando Henrique Cardoso, um ex-professor de sociologia que fala cinco línguas, Lula abandonou a escola antes que concluísse a quinta série e ocasionalmente é traído pela língua portuguesa, além de orgulhar-se por ser um homem do povo.

Seu sobrenome -- "Silva" -- é muito comum no país, e há vinte anos, na primeira campanha eleitoral do presidente eleito, um dos lemas de sua campanha era: "um brasileiro como você". Na campanha deste ano foi adotada uma linha semelhante, e a elite nacional foi acusada por ser egoísta e incompetente; o candidato argumentava que era chegada a hora em que as vozes dos brasileiros comuns se fariam ouvir.

"Quero que minha vitória simbolize que ninguém é inferior a ninguém", afirmou Lula em discurso proferido na quarta-feira. "Um torneiro mecânico pode ser mais competente na política do que diversos cientistas políticos".

Lula, que completou 57 anos no domingo, nasceu no árido estado nordestino de Pernambuco, um dos mais pobres do Brasil. Seu pai e sua mãe eram camponeses, mas aos sete anos de idade Lula foi levado pela mãe para o estado industrial de São Paulo, onde seu pai se mudara anteriormente na esperança de levar boa sorte à família e trabalhava como estivador.

Mas em São Paulo a família não se livrou da pobreza: como recordou Lula ao final de um debate televisivo ocorrido na noite de sexta-feira, ele morou em um barraco por um certo período, "e não é nada agradável morar ali". Aos 12 anos, ele começou a trabalhar por tempo integral, inicialmente como "office boy" e depois em uma usina metalúrgica, aonde perdeu parte do dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho.

Em 1975, Lula tornou-se presidente do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo. No final da década de 70, comandou uma série de greves que o transformou em figura nacional e o levaram à prisão pelo regime militar de direita que à época comandava o país. Libertado em 1980 após uma campanha mundial em que foi classificado como "o Lech Walesa brasileiro", Lula fundou meses depois o Partido dos Trabalhadores ao lado de um grupo de intelectuais, líderes sindicais, clérigos da Teologia da Libertação e ambientalistas. Enquanto esquerdistas de países vizinhos como Colômbia e Peru aderiam a movimentos guerrilheiros, o Partido dos Trabalhadores cultivou a paciência e aprendeu com os erros, obtendo resultados eleitorais cada vez melhores.

"Esta é uma grande vitória da democracia e do nosso povo", afirmou no domingo o principal auxiliar político de Lula, o ex-guerrilheiro e hoje deputado José Dirceu. "Mas é também uma grande vitória do Partido dos Trabalhadores".


Tradução: André Medina Carone
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