UOL Notícias Internacional
 

05/11/2002

Extinção dos dinossauros pode ter sido causada por chuva de meteoritos

The New York Times
William J. Broad
The New York Times

Por mais de uma década, a maioria dos cientistas acreditou que a extinção dos dinossauros foi causada por um único evento: a queda de imenso corpo do espaço exterior, com uma força explosiva de cem milhões de bombas de hidrogênio, provocando tempestades de fogo e cobrindo a Terra com uma densa nuvem de poeira que bloqueou a luz do Sol e fez com que as temperaturas despencassem em todo o mundo.

A teoria ganhou ampla aceitação em 1991, após a descoberta de uma cratera enterrada na ponta da Península de Yucatán. A cratera gigantesca tinha 177 quilômetros de borda a borda, e sua idade foi calculada em 65 milhões de anos, o mesmo período da morte dos dinossauros.

Só que, agora, cientistas trabalhando na Ucrânia descobriram que uma cratera conhecida, apesar de menor, de cerca de 24 quilômetros de largura, foi datada erroneamente e possui na verdade 65 milhões de anos, tornando o impacto que a criou uma possível contribuição para o fim dos dinossauros.

Da mesma forma, uma equipe britânica descobriu recentemente uma cratera no fundo do Mar do Norte da mesma época e com cerca de 19 quilômetros de extensão em uma série de anéis concêntricos.

As descobertas estão dando novo apoio à idéia de que objetos matadores do espaço exterior podem ter chegado em pares ou até em chuvas, o que pode explicar o motivo das extinções vistas no registro fóssil serem desalinhadas, com espécies cambaleando antes que um golpe final as eliminasse.

"Está tão claro", disse a dra. Gerta Keller, uma geóloga e paleontóloga de Princeton, que estuda as ligações entre os bombardeios cósmicos e as transformações na vida. "Tem se acumulado nos últimos anos uma quantidade imensa de novos dados que apontam na direção de impactos múltiplos".

Mas Keller acrescentou que muitos estudiosos apostaram suas reputações na idéia de um desastre único que acabou com os dinossauros, e portanto estão relutantes em considerar as novas evidências. "Idéias antigas são difíceis de morrer", disse ela.

Sua própria pesquisa, acrescentou Keller, sugere a realidade de múltiplos impactos e lança dúvidas sobre o impacto de Yucatán, cuja cratera é conhecida como Chicxulub, ser o evento que selou o destino dos dinossauros. Ao invés disso, principal matador "ainda precisa ser encontrado".

A idéia de que um intruso gigante do espaço exterior matou os dinossauros foi proposta em 1980 por Luis W. Alvarez; seu filho, Walter Alvarez; e seus colegas da Universidade da Califórnia. A princípio ela foi recebida com grande ceticismo, mas com o tempo ela se tornou a crença padrão.

Em seu livro de 1997, "T-Rex e a cratera da destruição", Walter Alvarez, um geólogo, disse que considerou a possibilidade de múltiplos impactos até 1991, quando a descoberta da imensa cratera de Yucatán parecia por si só solucionar o mistério.

Kelley e Gurov apresentaram suas descobertas da Ucrânia na edição de agosto da revista Meteoritics & Planetary Science. Em tempo geológico, os impactos violentos na Ucrânia e em Yucatán, eles notam, sugerem ao invés de provar "que combinados eles provocaram a extinção em massa" no final do período Cretáceo, e levantam a possibilidade de outros impactos mortais.

Conhecida como Boltysh, a cratera recém datada fica no leste da Ucrânia, na bacia do Rio Tyasmin, um afluente do Dnieper. Apesar de ter apenas 24 quilômetros de extensão, a cratera enterrada, cuja presença foi revelada por uma massa misturada profunda de rochas partidas e derretidas, está cercada por um anel de escombros rochosos que se estende por muitas centenas de quilômetros quadrados, evocando um cataclisma chamejante. Os dois cientistas disseram em seu relatório que este tipo de impacto, se ocorresse hoje, devastaria um país densamente povoado.

Ao longo dos anos, os cientistas analisaram amostras rochosas da cratera Boltysh e encontraram idades que variavam de 88 milhões a 105 milhões de anos.

A nova datação da cratera feita por Kelly e Gurov empregou um método altamente preciso que mede cuidadosamente a razão de dois isótopos do elemento argônio, um gás sem cor e inodoro que compõe cerca de 1% da atmosfera da Terra. A datação argônio-argônio funciona porque os isótopos decaem em taxas diferentes. Medindo a razão, é possível estimar há quanto tempo a amostra derreteu prendendo o argônio da atmosfera.

Kelley e Gurov relataram que sete amostras de rocha derretida das profundezas da cratera Boltysh apresentaram a idade média de 65,2 milhões de anos, com uma precisão de mais ou menos 600 mil anos.

Em comparação, Chicxulub foi datada como tendo 65,5 milhões de anos, com variação de mais ou menos 600 mil anos. Dada a incerteza da datação, os dois impactos que produziram as crateras podem ter ocorrido simultaneamente ou terem ocorrido com uma distância de milhares de anos.

Sob o Mar do Norte, dois geólogos de petróleo britânicos encontraram outra cratera, enterrada sob centenas de metros de lodo, que pode ter contribuído para o caos. Escrevendo na edição de 1º de agosto da revista Nature, Simon A. Stewart e Philip J. Allen disseram que foram capazes de datar a estrutura de 19 quilômetros como sendo de 60 milhões a 65 milhões de anos atrás. Eles a batizaram de Silverpit, segundo um canal submarino próximo.

Os especialistas disseram que as novas descobertas podem responder a uma antiga crítica à teoria do impacto único. Os críticos, especialmente os paleontólogos especializados nas taxas de extinção dos dinossauros, notaram há muito tempo que o registro fóssil do final do período Cretáceo mostra um lento declínio de muitas formas de vida ao invés de uma vasta extinção súbita. Isto parecia inconsistente com a catástrofe cósmica.

Mas agora, os emergentes laços de família entre as crateras Boltysh, Silverpit e Chicxulub sugerem que uma série de impactos pode ter provocado ou contribuído para este lento declínio.

Keller e seus colegas encontraram sinais de outros intrusos do espaço exterior que atingiram a Terra em momentos ligeiramente diferentes há 65 milhões de anos, o que fortalece a idéia gradualista.

Trabalhando no nordeste do México, eles descobriram que esferas de vidro de rocha derretida, que antes achavam terem sido lançadas pelo impacto em Chicxulub, mais provavelmente foram resultado de pelo menos dois desastres diferentes, distantes cerca de 300 mil anos. Eles recentemente apresentaram suas descobertas em um estudo para a Sociedade Geológica da América.

Além disso, disse Keller, a evidência sugere que o mais antigo dos dois cataclismas formou a cratera Chicxulub, o que torna tal impacto cedo demais para ser o responsável pelo golpe fatal para a extinção dos dinossauros.

Tradução: George El Khouri Andolfato Ciência

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h49

    0,50
    3,163
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h54

    0,51
    65.432,76
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host