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09/05/2003

Força do euro prejudica vendas de empresas européias

The New York Times
Mark Landler


FRANKFURT, Alemanha - Três anos atrás, os europeus estavam preocupados com a aparentemente interminável desvalorização do euro. Atualmente, a moeda está valendo mais que o dólar americano, se aproximando de níveis que não atingia desde seu lançamento em janeiro de 1999.

Assim, os europeus estão comemorando? Dificilmente.

A valorização do euro provocou uma nova onda de preocupação entre empresários, economistas e políticos, que temem que uma moeda forte possa provocar tantos problemas quanto uma fraca. E apesar dos problemas serem diferentes, em um momento de fraco crescimento econômico na Europa, eles podem ser não menos preocupantes.

"É uma ameaça real", disse Thomas Mayer, economista-chefe europeu do Deutsche Bank. "Para os exportadores da Europa, é como ser um corredor, constantemente correndo ladeira acima e contra o vento".

Na quinta-feira, o Banco Central Europeu resistiu à intensa pressão para redução das taxas de juros para compensar a valorização do euro. O presidente do banco, Wim Duisenberg, disse em uma coletiva de imprensa que "ainda não há nada excessivo" na valorização da moeda. Ela imediatamente saltou novamente nos mercados europeus, atingindo US$ 1,15, uma nova máxima em quatro anos. Posteriormente em Nova York, o euro fechou a US$ 1,1493, em comparação com US$ 1,1369 no final da quarta-feira.

Duisenberg disse que o banco central quer ver se a valorização do euro tem fôlego antes de afrouxar sua política. "Nós precisamos saber mais", disse ele, se ela "continuará, se esgotará aos poucos, ou reverterá".

Com o euro valorizando 4% em relação ao dólar nas duas últimas semanas, e quase 30% desde janeiro de 2001, empresas como Volkswagen, Swatch, Allied Domecq e Henkel já estão dizendo que a moeda já prejudicou suas vendas, tanto por meio da simples conversão das vendas baseadas em dólar para euro, quanto ao tornar seus produtos mais caros para os consumidores americanos.

"Eu não consigo me lembrar da moeda ter alguma vez tido tamanho efeito material nos resultados", disse Nikolaus Schweickart, o presidente da Altana, um laboratório alemão que conta com 26% de suas vendas nos Estados Unidos. "O dólar fraco teve o efeito de cortar nosso avanço pela metade".

A Altana divulgou um aumento de 10% nas vendas no primeiro trimestre. Se o câmbio tivesse permanecido estável, o aumento teria sido de 20%. A ênfase de Schweickart no dólar fraco ressalta o principal motivo da valorização do euro não ser vista como motivo de comemoração por aqui.

Sejam quais forem os benefícios políticos de uma moeda forte -especialmente uma que começou sua caminhada com o pé errado- as pessoas daqui sabem que a valorização do euro no momento não reflete uma força européia, mas sim a fraqueza americana.

Com o inchaço dos déficits orçamentário e de conta corrente, os Estados Unidos no momento são um local menos atrativo para os investidores colocarem seu dinheiro, e outros países, como o Japão, também não parecem melhores. Assim a Europa, devido à sua estabilidade e finanças públicas relativamente austeras, tem atraído grande parte do capital global.

"As economias fracas da Europa não deveriam atrair tamanho investimento", disse Michael Heise, economista-chefe da Allianz. "Mas os investidores esperam um longo período de déficits nos Estados Unidos. Isto é preocupante".

Para Heise, a rápida valorização do euro o obrigou a reescrever uma apresentação que fez nesta semana a seus chefes na Allianz, a poderosa empresa de seguros da Alemanha, sobre como devem alocar ativos.

A Allianz também está revendo suas projeções para o valor do euro. Originalmente, a empresa previu paridade com o dólar no final deste ano e uma valorização de 10% a 15% em 2004. Mas para surpresa de Heise e de outros economistas, o dólar não recebeu impulso com o fim da guerra no Iraque, e a esperada valorização gradual do euro foi ao invés disso uma disparada.

O Commerzbank, que também fez uma revisão de sua previsão, agora espera que o euro se estabilize na faixa de US$ 1,12 em agosto. Alguns especialistas argumentam que o euro estava valorizando antes mesmo do inchaço dos déficits em Washington.

Niall C. Ferguson, professor de história das finanças da Universidade de Nova York, disse que houve uma mudança acentuada no mercado mundial de títulos na direção de títulos denominados em euro. De 1995 até 1999, disse ele, 53% de todos os títulos corporativos e soberanos eram emitidos em dólares, e apenas 20% em moedas dos 12 países europeus que agora usam o euro.

Mas nos quatro anos que se seguiram desde a adoção da moeda comum, disse Ferguson, 44% dos novos títulos mundiais passaram a ser emitidos em euros, quase igualando aos 48% emitidos em dólares.

"Eu não estou plenamente convencido de que o euro é o herdeiro do dólar", disse ele. "Mas há evidência de que os investidores estão trocando dólares por euros. Eu estou absolutamente certo de que parte disto é uma reação ao déficit".

O problema é que a fraqueza a longo prazo do dólar -esperada pela maioria dos economistas- provavelmente causará mais dores aos países que exportam aos Estados Unidos do que para os próprios americanos.

É verdade, uma viagem de verão para a Toscana será mais cara para os turistas americanos, enquanto férias em Las Vegas serão mais baratas para os europeus. Mas isto será mais do que compensado pela pressão de preços sobre as exportações, que têm sido uma rara fonte de impulso econômico em países como a Alemanha.

A Goldman Sachs estima que uma valorização de 10% do euro em relação ao dólar cortará em média 4% dos lucros das empresas européias. Tal mudança na taxa de câmbio por um período de dois anos cortaria 1,1 ponto percentual do crescimento econômico de um país no primeiro ano e 0,2 ponto percentual no segundo.

Para a Alemanha, já resignada com um crescimento de apenas 1% em 2003, isto seria um duro golpe.

A Volkswagen disse que sua renda líquida despencou 68% no primeiro trimestre devido ao envelhecimento de seus produtos e sua exposição às flutuações da moeda. A taxa de câmbio sozinha cortou 400 milhões de euros (US$ 456 milhões) de seus lucros pré-impostos, enquanto as vendas nos Estados Unidos caíram 3,9%.

Mayer notou que empresas como a Volkswagen suportaram um período anterior de dólar fraco, de 1985 a 1995. Elas emergiram sem gordura e em forma, o que as permitiu colherem enormes benefícios quando o euro posteriormente se desvalorizou. Agora, algumas destas empresas estão chiando de novo, e procurando desculpas.

"Estão procurando bodes expiatórios", disse Mayer.

De fato, alguns executivos europeus minimizaram o efeito do euro. A grife masculina alemã Hugo Boss informou uma queda de 5% em suas vendas no primeiro trimestre; se não fosse pela valorização do euro, ela disse, as vendas teriam se mantido inalteradas. Mas o presidente da Hugo Boss, Bruno E. Saelzer, disse não acreditar que perdeu clientes americanos devido ao euro. Isto se deve em parte à Hugo Boss produzir parte de suas roupas masculinas para o mercado americano em Cleveland, Ohio, o que significa que seus custos não aumentaram.

"Nós não mudaríamos nossos preços devido a mudanças na taxa de câmbio", disse Saelzer. Com uma risada nervosa, ele acrescentou: "Se algum dia o euro valer US$ 3, então eu terei que repensar minha estratégia".

Os economistas notam que um euro mais forte dá aos europeus maior poder de compra, o que poderia estimular o consumo interno há muito dormente. Isto seria vital para reestimular as economias alemã e francesa.

Um subproduto da valorização do euro tem sido o fim abrupto das queixas das pessoas daqui de que com a introdução das cédulas e moedas de euro, em janeiro de 2002, foram inflacionados os preços nos cafés, restaurantes e cabeleireiros.

Talvez o efeito menos previsível de um euro robusto esteja na União Monetária Européia como uma experiência política. Os eurocéticos na Grã-Bretanha têm usado a força da moeda como outro motivo para adiar a entrada do país na união, dizendo que ela ameaçará a competitividade da indústria britânica. A libra britânica não se valorizou em relação ao dólar neste ano.

Na Suécia, que realizará um plebiscito para adoção do euro em setembro, uma recente pesquisa apontou que 50% das pessoas são contra a adoção, enquanto apenas 34% são a favor. O primeiro-ministro sueco, Goran Persson, está recrutando líderes empresariais na esperança de reverter a opinião pública.

Antigos observadores apontam que o debate em torno do euro é, na sua essência, político ao invés de econômico.

"Os suecos costumavam dizer: 'Moeda muito fraca -nós não gostamos de moedas muito fracas'", disse Daniel Gros, diretor do Centro de Estudos Políticos Europeus, um grupo de pesquisa em Bruxelas, Bélgica. "Agora eles dizem: 'Moeda muito forte -nós não gostamos de moedas muito fortes".


Tradução: George El Khouri Andolfato Câmbio

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