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20/05/2004

Hip-hop dribla gravadoras e vende CDs no comércio da periferia

The New York Times
David Gonzalez
Algumas bandas ambiciosas de hip-hop, dance e rock acham que encontraram uma alternativa para vender seus discos fora das grandes lojas ou da Internet: o bar da esquina e o barbeiro do bairro.

Em alguns bairros, a Internet não se equipara ao alcance da eterna bodega, aonde gerações vão todos os dias comprar de tudo, desde cigarros até sabonetes baratos e doces caseiros. Antes das carinhas amarelinhas surgirem nas salas de bate-papo, os filósofos da esquina já estão comentando as novidades musicais na frente do bar. E o som nos barbeiros, onde um público cativo de jovens estabelece novas tendências, anos antes do resto da cidade, não é mais apenas o clicar das tesouras.

É por isso que, melhor do que competir pela atenção com milhares de outros CDs nas prateleiras ou arriscar ser duplicado ilegalmente por fãs cansados de pagar US$ 15 (aproximadamente R$ 45) ou mais por músicas novas, os membros dessas bandas -alguns dos quais já estiveram em grandes gravadoras- também decidiram colocar seu trabalho mais recente ao lado dos cortes e penteados. E, marcando seu rompimento com as antigas práticas comerciais, estão cobrando US$ 6 (cerca de R$ 18) por disco: menos do que um pacote de cigarros em Nova York e apenas um pouco mais do que o preço das cópias piratas que dizimaram as vendas.

Executivos da Urban Box Office, empresa de entretenimento por trás do plano de distribuição, assinaram um acordo com a associação de bodegas da cidade que expandirá sua rede das atuais 200 lojas para 3.200 até o verão. A idéia faz parte de um plano maior de distribuição, disse Adam Kidron, diretor executivo da Urban Box Office. Em vez de lamentar a redução do número de lojas de discos, Kidron quer que o produto fique literalmente na cara do consumidor.

"Coloque a música na frente das pessoas", disse ele. "Elas devem comprar discos como compram revistas, em toda parte. Vamos colocar a música na comunidade, em vez de gastar uma fortuna atraindo a comunidade aos poucos lugares que têm música."

Enquanto alguns dizem que os enormes contratos de gravação e lojas de discos estão sofrendo morte lenta, essas instituições de bairro oferecem canais diretos para os consumidores urbanos jovens, a faixa mais almejada pela indústria.

"É um conceito empresarial brilhante. Você não tem que passar pelos sistemas burocráticos bizantinos das gravadoras, que tendem a ser dirigidas por brancos idosos, que estão cinco anos atrás de ritmos urbanos relevantes", disse Burt P. Flickinger III, analista da indústria do Strategic Resource Group.

Talvez, entretanto, você tenha que procurar atrás das caixas de mangas e bananas, ou de tênis Nike suspeitamente baratos, para encontrar uma pequena prateleira com os seis títulos à venda atualmente em algumas bodegas. Os proprietários entrevistados nesta semana venderam em média três discos por dia, sendo os mais populares "Damelo", de Mosa, e "Mi Bandera", de Nemesis Yankee.

Urban Box Office, uma das ponto.com de entretenimento que surgiram em Manhattan nos anos 90, fechou suas portas em 2000. Kidron, fundador da empresa, disse que resolveu salvar seu negócio. Ele continua explorando a Internet para gerar discussões sobre novos lançamentos, alistando patrocinadores comerciais a pagarem aos artistas por músicas baixadas gratuitamente por ouvintes.

Entretanto, ele conhece por experiência própria os limites da Web. Executivos da empresa disseram que conseguiram vender os discos a US$ 6 principalmente por que não dão adiantamentos aos artistas e requerem que eles arquem com os custos de gravação. A tecnologia digital permitiu que muitas pessoas gravem por um preço bem menor do que antes. Os executivos também disseram que, ao começar com a gravação quase finalizada, é mais fácil julgar o apelo de um disco e minimizar seus riscos. Eles pagam aos artistas de US$ 1,50 a US$ 2,50 por cada disco vendido (entre R$ 4,50 e R$ 7,50).

Quando a Urban Box Office estava procurando formas de distribuir sua música, os executivos começaram a procurar as bodegas locais e outras lojas que atendiam jovens. Com base em pouco mais do que instinto, contrataram inicialmente 26 lojas, no ano passado.

Apesar da Box Office oferecer propaganda para as lojas nos jornais em língua espanhola e nas rádios, seus proprietários ficaram um pouco desconfiados com o preço dos discos. Vários acharam que eram discos piratas como os vendidos por camelôs.

"A maior parte das lojas são pequenos empreendimentos familiares. Quando você procura esses comerciantes, eles olham para você como se estivesse tentando aliciá-los. Eles me disseram: 'Não podemos vender CDs piratas, porque se os guardas vierem, seremos presos'", disse Ray Acosta, que participou na formação da rede de lojas.

O que ajudou a persuadi-los -além de convencê-los que os discos eram legítimos- foi o fato de não terem que pagar adiantado pelos discos, vendidos em sistema de consignação.

A música foi popular demais na bodega de Valentin Ruiz, no bairro de Bushwick, no Brooklyn. Ele teve que colocar os discos na prateleira mais alta, para deter os clientes mão-leve. Dentro da loja, cujas paredes são adornadas com cartazes de Sammy Sosa e mulheres de biquíni, ele falou de sua estréia na venda de discos: "certa noite, vieram umas pessoas comprar cerveja para uma festa", disse ele. "Quando viram os CDs, compraram a música também. Saíram com tudo que precisavam para a festa."

Algumas vezes, a festa vem à loja, quando a empresa quer despertar o interesse do público e traz músicos ou mulheres para distribuir amostras grátis. Liz Acevedo, cujas irmãs compraram muitos dos discos, disse que o grupo de mulheres Gemz recentemente visitou a bodega em seu bairro de Sunset Park.

"Elas estavam cantando. Estavam na frente da venda e eu conversei com elas. Algumas estavam com vergonha, mas eu não", disse ela, apontando para a calçada onde estiveram.

Enquanto isso, no salão de Tony Corona, as pessoas acompanhavam o ritmo da música "Tabaco y Ron" de Reyno. Em geral, isso é bom para venda de discos, mas dificulta o serviço do barbeiro.

Ele vende todo seu estoque de discos em uma semana e planeja vender discos em outra loja que vai abrir na Burnside Avenue, perto do seu salão na Jerome Avenue.

"Todo mundo ouve a mesma coisa nas rádios", disse ele. "Mas as pessoas querem ouvir coisas novas."

Um rapaz que esperava para cortar o cabelo se balançava na cadeira, enquanto outro cliente se levantou, foi até a prateleira de discos e comprou dois.

"Sou DJ e gostei do ritmo e do coro. O ritmo é excitante e gostei do arranjo. Vai ser bom para a boate. Vai fazer todo mundo dançar", disse ele, dizendo se chamar DJ Xclusive. Bandas de NY levam seus lançamentos ao público em botecos, barbearias e bodegas Deborah Weinberg

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