UOL Notícias Internacional
 

23/07/2004

É mais fácil achar registro militar de 1787 que o de Bush de 1972

The New York Times
Caroline Alexander*

Especial para o NYTimes
Chegou no fim do dia, mas era mais do que eu esperava. Escaneado de um documento original de posse do Escritório de Registros Públicos britânico, o arquivo 29/5 do Almirantado continha o histórico completo de serviço de um homem cuja vida vinha pesquisando há mais de dois anos: William Purcell, carpinteiro, concluiu 25 anos de serviço naval em 31 de dezembro de 1812. O último dos 16 navios nos quais serviu foi o Boscawen. O primeiro, para o qual foi chamado em 27 de agosto de 1787, foi o Bounty.

Os arquivos da Almirantado são uma fonte soberba, apesar de notoriamente difíceis de navegar e conteúdos desiguais. Todavia, durante a pesquisa da história do Bounty, eu continuamente me surpreendia com o fato de tanto material do século 18 e início do século 19 ter sobrevivido.

Assim, quando o Pentágono anunciou que registros chaves de pagamento, que podiam esclarecer um hiato na ficha de serviço do presidente Bush entre 1972 e 1973, foram inadvertidamente destruídos vários anos atrás, me pareceu particularmente incrível; aparentemente é mais fácil reconstruir os 25 anos de carreira de um marinheiro britânico no século 18 do que o serviço na Guarda Nacional de um presidente. Não apenas esta gafe nega ao público americano informação que poderia esclarecer dúvidas sobre o passado do presidente, mas também é uma perda para futuros historiadores.

Os arquivos do Almirantado me ensinaram muito sobre William Purcell, cujos modos vis atormentaram o capitão William Bligh ao longo de toda viagem (apesar de no final ter provado sua lealdade ao capitão no motim que privou Bligh de seu navio).

A partir das descrições contemporâneas, eu imaginava Purcell como sendo um homem mais velho, com um longo histórico naval por trás dele. Agora eu soube que o Bounty foi seu primeiro navio. A nova informação também possibilitou a checagem das chamadas, diários de bordo, registros de pagamento e cartas dos capitães de seus navios posteriores. Eles revelariam no mínimo partes do mundo que Purcell visitou posteriormente, sob quais capitães ele navegou, se seu porto de residência mudou ao longo dos anos.

A mesma coleção de documentos do Almirantado revelou que George Simpson, o contramestre no Bounty, morreu na rede de dormir do navio, e seus bens pessoais foram entregues ao seu pai em Lake District, e que o amotinado perdoado, James Morrison, desembarcou com toda a tripulação em Blenheim. Os registros do Greenwich Hospital, encadernados e reunidas em pilhas cuidadosamente arrumadas, amarrados com uma fita desbotada, incluíam tanto as datas em que o armeiro do Bounty, Joseph Coleman, foi admitido quanto a lista de cada navio no qual ele serviu.

Como qualquer um que já realizou uma pesquisa genealógica amadora sabe, um único dado em um único documento pode ser revelador. Freqüentemente um simples fato fornece não apenas um pedaço de informação, mas também os meios para ligar dois pontos que levam a outras redes de informação.

Fatos completos nos registros de um aspirante de marinha do Bounty, Peter Heywood, por exemplo, se mostraram muito sugestivos. Apresentado perante uma corte marcial, Heywood foi considerado culpado de motim, apesar de ter sido posteriormente perdoado.

Seus registros que sobreviveram revelaram o fato curioso de que os anos em que passou no Taiti como fugitivo foram creditados como anos de serviço exigidos para sua promoção a tenente. Um pouco mais de procura provocada por esta anomalia revelou o fato, pouco conhecido mesmo em sua época, de que Heywood desfrutava da boa fortuna de ser parente de uma das mais altas figuras navais do reino, o almirante lorde Howe.

Os registros dos homens que serviram no Bounty revelam mais do que fatos prosaicos de suas carreiras individuais. Eles acrescentam evidências de uma campanha incansável para reabilitar o jovem Peter Heywood. Cumulativamente, eles contam uma nova história -a verdadeira história, em vez da versão produzida por seus defensores.

Os documentos do Almirantado fazem parte dos arquivos das forças armadas do Escritório de Registros Públicos, que estão pontuados por vários lapsos dolorosos; fichas de soldados da Primeira Guerra Mundial, por exemplo, baixas da blitz de Londres, estão quase que totalmente ausentes. As fichas de serviço perdidas do presidente Bush, segundo um porta-voz do Pentágono, foram vítimas da "deterioração de microfilmes" e uma estratégia fracassada de preservação.

Timing à parte, o desaparecimento da ficha de serviço de Bush é importante por motivos que vão além de mera política. Os registros militares são a base do arquivo histórico de um país. Enterrados entre os documentos perdidos estão as fichas de outros homens, que poderão interessar outros pesquisadores em outra época, onde fatos simples do serviço poderão contribuir para a formação de um quadro histórico mais elaborado que poderá esclarecer histórias criadas pelos políticos da época.

Claramente o Departamento de Defesa necessita melhorar o padrão de sua manutenção de documentos. Talvez documentos futuros devam ser mantidos em papel ofício amarrado com fita: estes parecem durar séculos.

*Caroline Alexander é autora de "The Bounty: The True Story of the Mutiny on the Bounty". Historiadora estranha ausência de documentos que confirmem que o presidente serviu George El Khouri Andolfato

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