UOL Notícias Internacional
 

23/07/2004

Política antiterror de Bush só pode ser uma piada sem graça

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes

Em Washington
A capital americana mergulhou de cabeça na sátira. Há essa bizarra investigação sobre Sandy "Mãos-Leves", que é como o respeitável ex-conselheiro de segurança nacional dos democratas agora é conhecido. Sandy Berger deu uma de Fawn Hall, aquela antiga secretária de Oliver North no caso Irã-contras, ao surrupiar material da Biblioteca Nacional sob seu impermeável.

E, quando se pensava que a política externa de Bush não poderia ser mais ridícula, eis que a situação fica ainda mais gritante, já que o relatório da comissão do 11 de setembro, revelado nessa quinta-feira (22/07), elevou a doutrina Bush ao nível de um quadro humorístico do impagável Ali G.

Acho que o mais brilhante profeta da atual administração Bush, em relação a essa lamaceira que fizeram no Oriente Médio, é Sacha Baron Cohen. Esse hilário humorista britânico é quem vive o personagem Ali G, que é uma espécie de gangsta rapper pegando celebridades meio desprevenidas (quase como se fosse o "repórter vesgo" do primeiro mundo...).

Domingo que vem, a HBO americana vai exibir a entrevista de Ali G com Pat Buchanan, em que o humorista vai querer saber do famoso colunista e apresentador porque não foram encontradas "BLTs" no Iraque. Buchanan entra no jogo de Ali G, mas não fica muito claro se ele realmente leva aquilo a sério e se acredita mesmo que existiam BLTs no arsenal de Saddam. (Cohen mais tarde especulou, no jornal londrino "The Times", que Buchanan pode ter pensado que a sigla de araque era o codinome para mísseis "Balísticos de Longa Trajetória".)

Ano passado, Ali G perguntou a James Baker, secretário de Estado do Bush Primeiro, se era conveniente para o Iraque e o Irã terem nomes tão parecidos. "Será que não há um grande perigo", elaborou o rapper fajuto, "se alguém passar uma mensagem para os pilotos de caças, dizendo `Bombardeiem o Ira...' ,e o cara não escutar direito e atacar o país errado"?

"Não há perigo", foi a resposta de Baker. Mas agora a piada faz muito sentido. Pois não é que, ao que parece, os Estados Unidos bombardearam o "Ira..." errado?

O presidente Bush agora diz que está investigando as ligações entre a al-Qaeda e o Irã, e se o Irã ajudou os seqüestradores do 11 de setembro. Ooops. Então nessa história de Eixo do Mal, o Eixo estava certo e o "do Mal" estava errado?

É como naquela velha piada de Emily Litella, personagem da grande humorista, já falecida, Gilda Radner -"Então qual é o grande problema em confundir Porto Rico com um bife?". Só que os Estados Unidos não podem simplesmente responder "Deixa pra lá!" como nos velhos humorísticos, já que 900 soldados americanos já morreram, nessa brincadeira sem graça.

O governo Bush não tem uma boa inteligência, então foi por isso que decidiu invadir o "Ira..." que estava mais fraco. A guerra se baseou em análises fajutas sobre armas de destruição em massa e em cenários hipotéticos alardeados pelo "neo-conservador" e cãozinho Chihuahua Ahmad Chalabi.

Em relação ao chamado Eixo do Mal, Bush deveria ter se preocupado com o teor da ameaça apresentada por cada um dos integrantes: a Coréia do Norte, que efetivamente tem armas nucleares; o Irã, que quase já chegou às nucleares; e o Iraque, que apenas queria ter as tais armas.

Agora as forças americanas se encontram tão esgotadas que o Pentágono está retirando tropas da Coréia do Sul com destino ao Iraque. E, devido à grande desenvoltura da Guarda Nacional no Iraque, os Estados Unidos dizem que não têm contingente suficiente para vigiar prisioneiros, combater incêndios ou policiar as ruas.

Além de atingir a CIA e o FBI, e indicar cerca de dez oportunidades perdidas para desembaraçar a trama do 11 de setembro -nos anos Bush e na era Clinton- o relatório recém-divulgado tem provas de que o Irã pode ter ajudado até 10 dos seqüestradores a passarem pelo país, saídos dos campos de treinamento de Osama bin Laden no Afeganistão.

"De uma maneira crua e direta, o que o novo relatório do 11 de setembro deixa claro é que, depois de já quase três anos em plena guerra contra o terror, os Estados Unidos ainda nem chegaram perto de ter uma compreensão verdadeira sobre o inimigo", segundo disseram Michael Isikoff e Michael Hersh à revista "Newsweek".

"E Washington parece ser menos capaz de impor qualquer mudança ao governo de Teerã, principalmente depois de Bush ter desalojado uma das maiores ameaças ao regime dos mullahs, Saddam Hussein, para agora se encontrar um tanto imobilizado no Iraque. É como um oficial da inteligência disse antes da guerra recente: 'Os iranianos estão se divertindo com essa nossa prioridade em relação ao Iraque.'"

Assim como a invasão do Iraque foi um "presente de Natal" para Osama, como disse um funcionário da CIA que escreveu um livro sob o codinome de "Anônimo", por ter ouriçado o mundo muçulmano e alterado o foco dos Estados Unidos, a invasão também pode também ter sido um presente para o Irã.

Militares americanos de alta patente acreditam que agentes iranianos têm apoiado rebeldes iraquianos para poder moldar o regime de Teerã como uma espécie de governo-satélite fundamentalista xiita.

Embora o relatório de 11 de setembro não tenha encontrado nenhuma relação de colaboração entre o Iraque e a al-Qaeda, encontrou um elo entre o Irã e a al-Qaeda -embora não haja provas de que os governantes iranianos estavam informados previamente sobre os ataques de 11 de setembro.

O relatório conclui que "a relação da al-Qaeda com o Irã e seu aliado, o grupo militante Hezbollah, era muito mais profunda e duradoura que os laços dos terroristas do 11 de setembro com o Iraque", de acordo com o jornal "The Washington Post".

Bush prometeu lidar energicamente com qualquer país que abrigasse terroristas ou que tivesse conexões com a trama do 11 de setembro. Mas como nossos militares tão exaustos pela invasão do Iraque, cadê forças para combater o "Ira..."? O presidente agora diz que a maior ameaça é o Irã; ou seja: atacamos o "Ira..." errado Marcelo Godoy

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