UOL Notícias Internacional
 

28/07/2004

Democratas tentam apresentar Kerry aos EUA

The New York Times
Robin Toner e Todd S. Purdum

Em Boston
Com um rugido de seu velho leão liberal e um grito de guerra de uma de suas jovens esperanças, o Partido Democrata apresentou John Kerry, nesta terça-feira (27/07) à noite, como um herdeiro digno dos patriotas do passado, pronto e preparado para unir a nação amargamente dividida pelas políticas do governo Bush.

"Nas profundezas da Depressão, Franklin Roosevelt inspirou o país quando disse: 'A única coisa que temos a temer é o próprio medo'. Hoje, dizemos que a única coisa que temos a temer são mais quatro anos de George Bush", disse o senador Edward M. Kennedy, ao receber os delegados em sua cidade.

A paixão de Kennedy pode ter tocado os eleitores Democratas mais fervorosos e frustrados, cansados de quatro anos fora do poder. Já Barack Obama, candidato ao Senado por Illinois, buscou o centro, usando algumas das frases mais antigas da história americana para prometer um novo tipo de política sob o comando de Kerry.

"Somos um único povo, todos nós, prometendo obediência às estrelas e listras, todos defendendo os Estados Unidos da América. No final, eleição é isso. Participamos de uma política de cinismo, ou de uma política de esperança? John Kerry nos conclama a ter esperança", disse Obama, cujo pai é do Quênia e a mãe do Kansas, em discurso preparado.

Foi uma noite em que o partido não só prestou tributo ao seu legado de defensor da previdência social e de direitos civis, mas também mostrou sua impressionante união e disciplina diante do desafio de vencer Bush no outono. Aspirantes a candidatos, Howard Dean e Dick Gephardt entraram para as fileiras de Kerry. Os delegados aprovaram a plataforma do partido sem a menor sugestão de controvérsia.

Dean, que se apresentava como representante da "ala democrática do Partido Democrata", apareceu na terça-feira à noite e também usou declarações prontas: "Sou Howard Dean e estou votando em John Kerry". Ele agradeceu aqueles que apoiaram uma campanha de insurgência, mas acrescentou: "A candidatura não era para mim. Era para nós. Era para dar nova vida ao partido, nova energia à democracia e dar esperança novamente para a maior nação da Terra."

Mas Dean, ainda carregando seu espírito combativo, advertiu: "Não vamos ter medo de defender aquilo em que acreditamos. Não vamos deixar aqueles que discordam de nós gritarem mais alto, sob uma falsa bandeira de patriotismo".

Em um trecho que lembrou seu grito em Iowa, na noite anterior ao seu fracasso nas primárias, ele prometeu: "Não vamos desistir de nenhum eleitor e de nenhum Estado."

A mulher de Kerry, a extrovertida Teresa Heinz Kerry, uniu-se ao esforço de se apresentar e ao seu marido a um público que ainda mal os conhece e fez declarações preparadas para a ocasião: "Nos EUA, os verdadeiros patriotas são aqueles que têm a coragem de falar a verdade ao poder. A verdade que precisamos dizer agora é que os EUA têm responsabilidades, e é hora de aceitá-las novamente."

Heinz Kerry ressaltou o fato de ser imigrante ao abrir seu discurso com uma sadação que proferiu em cada uma das cinco línguas em que é fluente -inclusive a portuguesa. Ela cumprimentou "a família portuguesa e brasileira" em seu português de Moçambique, país africano de colonização portuguesa onde nasceu.

Ron Reagan, cujo pai Republicano morreu depois de uma década lutando contra Alzheimer, disse que as pesquisas com células-tronco restringidas por Bush oferecem promessas de curas para doenças devastadoras. E exortou: "No dia 2 de novembro, eu peço a você, por favor, vote na pesquisa de células-tronco". Kerry apóia essa pesquisa.

Sem cobertura ao vivo pelas redes de televisão, os eventos de terça-feira pareciam um assunto de família em relação às dificuldades do partido no passado, a temporada tumultuada de primárias e sua tradição de inclusão remendada.

Peter, Paul e Mary -mais velhos, mais grisalhos e, no caso de Mary Travers, usando uma bengala- pediram que o público cantasse com eles o antigo hino de Bob Dylan, que pergunta: "Quantas mortes serão necessárias até que saibamos que pessoas demais morreram?"

Houve um tributo a Fannie Lou Hamer, líder de direitos civis do Mississipi que, em 1964, forçou os Democratas a enfrentarem as conseqüências de anos de poder dos brancos sobre os negros no partido no Sul. O hino nacional foi cantado na língua tradicional Tohono O'Odham dos índios do Arizona.

Esta é a oitava convenção democrata em que Kennedy discursa. Ele começou na de 1972, em Miami. Ela marcou uma verdadeira reunião do clã, com 90 membros reunidos no salão da convenção e sua família política mais ampla, de democratas tradicionais, aplaudindo.

"Servi muitos anos no Senado e vi muitas eleições", disse Kennedy. "Mas nenhuma foi mais urgente e importante do que esta. Nunca antes vi um contraste tão profundo ou conseqüências tão profundas quanto agora, na escolha que faremos para presidente em 2004. Grande parte do progresso que fizemos antes foi perdida. Grande parte da boa vontade que os EUA tiveram do mundo foi perdida. Mas somos uma nação esperançosa e nossos valores e nosso otimismo ainda estão brilhando. Esses mesmos valores e otimismo levaram nossos antepassados a cruzarem um oceano e os sustentaram por muitos invernos brutais. Isso inspirou patriotas, de John Adams a John Kennedy a John Kerry, e sua forte crença de que os melhores dias dos EUA estão à sua frente."

O tema oficial da noite era "uma vida de força e serviço", parte do esforço de definir e apresentar o candidato Democrata, ainda desconhecido para muitos americanos, a três meses do dia da eleição. Um Democrata após o outro se levantou para elogiar Kerry como soldado heróico no Vietnã, um advogado e senador sério.

"Quando nossa geração foi chamada a servir no Vietnã, ele respondeu ao chamado. Ele arriscou sua vida para salvar a vida de outros e levou seu pequeno grupo de irmãos à segurança. Ele não falava de patriotismo; ele o vivia", disse o senador Tom Daschle, de Dakota do Sul, líder Democrata no Senado.

A convenção também ouviu Ron Reagan fazer uma defesa politicamente carregada pela flexibilização das restrições à pesquisa com células-tronco, impostas e defendidas por Bush. Kerry é a favor da flexibilização. A questão tornou-se prioritária na família Reagan, nos últimos anos. Enquanto o ex-presidente lutava contra Alzheimer, Nancy Reagan começou a falar em defesa da pesquisa.

Reagan admitiu, na terça-feira à noite, que muitos conservadores sociais se opõem à pesquisa, porque envolve a destruição de embriões humanos. Mas, acrescentou: "A teologia de poucos não deve deter a saúde e bem estar de muitos. E como podemos afirmar a vida, se abandonamos aqueles cuja própria vida está em risco?"

Ele concluiu que a escolha em novembro não é simplesmente entre dois candidatos e dois partidos, mas "entre o futuro e o passado, entre a razão e a ignorância, entre a verdadeira compaixão e a mera ideologia."

Em uma demonstração de disciplina do partido, os Democratas unanimemente aprovaram sua plataforma, na terça-feira. Esse processo muitas vezes expôs divisões e falhas no partido, mas neste ano serviu, em grande parte, para ressaltar como está concentrado em derrotar Bush.

Apesar de os ativistas do partido terem sido duramente opostos à guerra com o Iraque, a plataforma reflete a posição de Kerry. Ela diz que "não podemos fracassar com a paz" na região e "precisamos fazer o duro trabalho de envolver os principais poderes políticos mundiais nessa missão."

A plataforma descreve a política externa de Bush como "perigosamente ineficaz", afirma que o governo poderia fazer mais para proteger a nação do terrorismo e pede nova ênfase na formação de alianças.

Sobre a economia, a plataforma repete a proposta de Kerry de suspender os cortes de impostos de Bush para pessoas com renda superior a US$ 200.000 (em torno de R$ 600.000) ao ano e usar o dinheiro para expandir a cobertura médica e manter reduzidos os custos das franquias. Meta do 2º dia da convenção foi tornar o candidato mais conhecido Deborah Weinberg

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