UOL Notícias Internacional
 

28/07/2004

Kerry tem de provar ser capaz de proteger o país

The New York Times
Roger Cohen

Em Boston
John Kerry conhece uma verdade simples sobre essa eleição: se não for capaz de convencer os norte-americanos de que é capaz de garantir a segurança dos cidadãos, as suas chances de vencer em um país transformado pelos ataques de 11 de setembro de 2001 diminuirão bastante.

A política externa, que não chegou a ser um grande assunto na eleição de 2000, se tornou um tópico importante, não sendo mais um aspecto remoto da retórica do pós-Guerra Fria, mas uma questão de vida ou morte. Kerry tem respondido a esse desafio tentando mostrar que os democratas são tão determinados quanto os republicanos, porém mais inteligentes, consistentes e equilibrados.

"Força e sabedoria não são valores opostos", disse o ex-presidente Bill Clinton na noite de abertura da Convenção Nacional Democrata, acrescentando que os Estados Unidos não podem "possivelmente matar, prender ou ocupar" todos os seus inimigos. A escolha que ele procurou delinear é simples. É uma escolha entre a mão firme de Kerry, que participou de combates no Vietnã, e o aventureirismo do presidente George W. Bush, que se manteve distante da guerra.

Uma política externa dura não é uma proposta fácil de ser vendida pelos democratas. Desde o Vietnã eles procuram freqüentemente articular uma posição unificada ou tentam ignorar a questão em favor de temas domésticos -"É a economia, idiota"- (anedota sobre o tema que dominou a bem sucedida campanha presidencial de 1992, quando Clinton derrotou Bush pai).

Mas Kerry, filho de um diplomata e um homem com duas décadas de serviços no Senado dedicados às relações internacionais, está lidando com um mundo que provou o quanto, e o quão intimamente, é capaz de ferir os Estados Unidos. Com um número crescente de norte-americanos preocupados com a imagem internacional do país, ele tem a oportunidade de conquistar pontos eleitorais decisivos ao tranqüilizá-los.

Ao mesmo tempo, como democrata de Massachusetts, ele não pode se dar ao luxo de se expor às acusações republicanas de que padece de uma hesitação liberal. Tais acusações já abundam, alimentadas pela mudança de posição de Kerry quanto à questão do Iraque desde o seu voto em 2002 autorizando o presidente Bush a usar a força.

"Ele já defendeu todas as posições quanto à política externa. A favor da guerra no Iraque. Contra o conflito. Favorável aos combates em certas circunstâncias", acusa Max Boot, especialista conservador em políticas externas. "Ele era um idealista quanto à questão da Bósnia e de Kosovo. Agora, parece mais um estudante de realpolitik".

Certamente, a plataforma de Kerry, a primeira articulação democrata de política externa norte-americana no mundo pós 11 de setembro, procura projetar força. Ele disse que vai "vencer a guerra global contra o terrorismo", aumentar o tamanho das forças armadas em 40 mil soldados, melhorar os serviços de inteligência, fortalecer as forças especiais, preservar a opção de atacar primeiro se os Estados Unidos se depararem com uma ameaça imediata e manter o rumo seguido no Iraque.

"Como presidente, não vou esperar por um sinal verde do exterior quando a nossa segurança estiver em risco", disse Kerry neste ano, embora deixasse claro que adotaria uma definição de risco imediato bem mais rigorosa que a utilizada por Bush.

Essas promessas -com a sua recusa em rejeitar inteiramente a doutrina de Bush de preempção, a posição favorável a soluções militares e ao fortalecimento das forças armadas, além do seu compromisso sem prazos com a campanha no Iraque- dificilmente agradarão aliados insatisfeitos como a França e a Alemanha, ou a ala antiguerra do partido de Kerry.

Não importa. A prioridade é tirar o atual presidente da Casa Branca e a história sugere que isso só pode ser feito politicamente a partir do centro. "Há algumas expectativas inflacionadas na Europa", diz Philip Gordon, especialista em política externa da Brookings Institution. "A política externa norte-americana sob Kerry não mudaria muito dramaticamente".

Ainda assim assessores do candidato democrata acreditam que mesmo uma simples mudança de tom, com alteração limitada na substância, teria um efeito dramático sobre a posição internacional dos Estados Unidos. Atualmente essa posição é precária devido àquilo que os outros países enxergam como arrogância, desonestidade e inépcia na preparação e na conduta da guerra no Iraque.

"O resto do mundo vai respirar aliviado com uma administração Kerry, que preferirá ouvir a atacar os outros", diz James P. Rubin, porta-voz do Departamento de Estado nos anos Clinton. "Ele não concordará em tudo com os europeus, mas a Otan será um primeiro e não um último recurso".

É claro que nada, nem mesmo boas intenções, é mais vulnerável aos eventos concretos do que uma plataforma de política externa. Bush chegou à presidência desprezando a noção de construção de nações; agora ele é um defensor da criação de nações democráticas em toda uma região, o Oriente Médio.

Um segundo e grande ataque terrorista contra os Estados Unidos poderia empurrar um governo Kerry rumo a direções igualmente inesperadas. Ele provavelmente sentiria a necessidade de responder rapidamente com força avassaladora. Mas será que aliados vacilantes o acompanhariam?

Por enquanto, no entanto, a estratégia de Kerry parece clara. Ele escolheu fazer o seu discurso de nomeação como candidato democrata segundo o slogan, "Mais fortes em casa, respeitados no mundo". A segunda cláusula reflete a convicção de que o presidente Bush destruiu a autoridade moral dos Estados Unidos por meio de uma mistura truculenta de excesso de confiança, descuido, ameaças e incompetência, fazendo com que o país atingisse o seu maior nível de impopularidade em décadas em todo o globo. "Perdemos a boa vontade do mundo", disse Kerry no ano passado.

Há sinais de que atualmente mais norte-americanos concordam com esse ponto de vista. O apoio à guerra no Iraque, onde mais de 900 norte-americanos morreram, decresceu abruptamente. E a nítida liderança de Bush nas questões de segurança nacional também despencou.

A última pesquisa New York Times/CBS News revela uma população norte-americana tomada por um profundo ceticismo pós-Iraque quanto à guerra, com 59% dos eleitores e 72% dos democratas afirmando que os Estados Unidos não deveriam atacar um outro país, a menos que fossem atacados primeiro.

"A população norte-americana sente-se cada vez mais desconfortável com o fato de não ser amada no mundo", diz Ivo Daalder, que foi membro do governo Clinton.

Na convenção, um discursador após o outro procurou vender a idéia de que só Kerry é capaz de resgatar a autoridade e as alianças dos Estados Unidos e, dessa maneira, lutar mais eficientemente contra o terror.

"Sozinhos não podemos conter o terrorismo. Precisamos isolar os terroristas -e não isolar os Estados Unidos", diz William Perry, ex-secretário de Defesa. O ex-presidente Jimmy Carter argumentou que a credibilidade norte-americana foi "abalada". E acrescentou: "Não podemos liderar se os nossos líderes lideram mal".

Tais declarações provocaram aplausos prolongados, o que demonstra como hoje em dia a política externa provoca reações intensas.

Mas é evidente que os Estados Unidos de Bush estão longe do isolamento total. O país conta com o apoio do Reino Unido e do Japão. E vencer uma guerra global contra o terrorismo é uma tarefa tão vasta, complexa e ambiciosa que parece destinada a frustrar qualquer presidente.

Mesmo assim, Kerry está convencido de que pode fazer melhor do que o governo Bush por meio de uma mistura de força e compromisso. Ele promete abrir "uma nova era de alianças". E, segundo os seus assessores, acredita que as relações com a Alemanha, a França e a Espanha, entre outros países, foi intensamente prejudicada.

Por instinto e formação Kerry não gosta de pontes quebradas. Criado parcialmente na Europa, falando francês e alemão, ele é um internacionalista que tende a buscar coalizões por acreditar que estas preservam e aumentam mais o poder norte-americano.

Bush, ao contrário, pouco fez para estreitar os laços com os aliados no início da sua presidência e deu a impressão a grande parte do mundo de que as suas viagens favoritas são ao Texas.

"Kerry jamais diria 'Vocês estão conosco ou contra nós', porque sabe que isso seria uma colocação excessivamente simplista, por mais que agradasse certos norte-americanos, e que no final funcionaria como um tiro no pé", diz Richard Holbrooke, assessor de Kerry.

Holbrooke se referia à declaração de Bush após os ataques de 11 de setembro de que todas as nações se deparavam com uma escolha: "Ou vocês estão conosco ou contra nós na luta contra o terrorismo".

Ao invés de um sistema baseado em lealdade e punição, Kerry espera estimular a cooperação, mesmo quando haja diferenças. Os seus assessores acreditam que por meio de certos gestos, incluindo a vontade de ouvir os aliados, a sensibilidade para com a questão do aquecimento global, a preocupação com ao status dos prisioneiros da Baía de Guantánamo, ou um maior compromisso em solucionar as diferenças entre israelenses e palestinos, Kerry poderia assinalar um novo começo.

A sua própria presença na Casa Branca, insistem eles, varreria a confiança perdida que é o legado dos argumentos utilizados por Bush -e que se comprovou serem falsos- para fazer a guerra no Iraque.

Mas o conceito de uma panacéia, ou de algo próximo a isso, parece exagerado. Um governo Kerry enfrentaria muita insatisfação vinculada a diferentes percepções de perigo por parte da Europa e dos Estados Unidos e ao fato de os norte-americanos possuírem a supremacia militar, política e econômica.

"Kerry está vivendo em um mundo de sonhos se acha que pode tornar os Estados Unidos populares", diz Boot. "No governo Clinton os franceses já estavam dizendo que os Estados Unidos eram uma hiperpotência". Seu desafio é obter confiança de eleitores no tema da segurança Danilo Fonseca

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