UOL Notícias Internacional
 

29/07/2004

Aceitação da candidatura será desafio para Kerry

The New York Times
David M. Halbfinger

Em Boston
A última vez que John Kerry proferiu um discurso de tamanha importância, tinha 27 anos e estava testemunhando contra a guerra do Vietnã. Ele procurou a ajuda do redator de discursos de Robert F. Kennedy e ficou acordado a noite inteira burilando o texto. E foi um arraso.

Na noite desta quinta-feira (29/07), Kerry vai voltar a chamar a atenção da nação, quando aceitar a nomeação de seu partido à presidência. Ele passou duas semanas escrevendo e reescrevendo seu discurso, em uma letra que poucos conseguem decifrar, e procurou ajuda de dois dos mais famosos redatores de discursos de John F. Kennedy -Theodore C. Sorensen e Richard N. Goodwin. Mesmo assim, contou mais fortemente com seu principal assessor, Robert Shrum, autor da oratória mais celebrada do senador Edward M. Kennedy.

Sua tarefa na quinta-feira será muito maior do que o desafio que enfrentou quando se dirigiu ao Comitê de Relações Exteriores do Senado, em 1971. Aqueles que o assessoraram desta vez concordam que este será o discurso da sua vida.

Naquela época, ele precisava apenas defender um lado da questão, possivelmente a que mais dividiu a política americana, depois da morte de dezenas de milhares de soldados em uma guerra que já tinha começado a parecer invencível.

Hoje, dizem seus assessores, Kerry precisa persuadir eleitores ainda indecisos de que será um comandante mais eficaz e um líder mais confiável do que o atual, que está travando uma campanha contra o terrorismo e uma guerra no Iraque. Kerry precisa não só encontrar uma forma de entusiasmar dezenas de membros do partido no salão de convenções, mas também chegar aos lares e conectar-se com os telespectadores, transmitindo-lhes uma noção mais clara de quem é. Entretanto, Kerry é um político historicamente pouco amado pela base de seu partido e pouco hábil em se conectar com o público.

"É uma meta muito alta, e ele entende isso", disse um assessor. "Ele precisa mostrar às pessoas seu sentido de propósito, que ele compreende que defender a nação é a principal prioridade do presidente. É importante mostrar como você faria isso, baseado em quem você é como pessoa, em seus valores."

Segundo seus assessores, Kerry vai falar mais sobre si mesmo do que fez em discursos anteriores. Discursará sobre sua educação, seus pais e sua infância, inclusive sua experiência como filho de diplomata em Berlin no pós-guerra. A idéia não é tanto revelar sobre si, mas sim ilustrar seus valores duradouros: serviço público, patriotismo, liberdade e oportunidades iguais.

"Ele sempre reluta em falar de si mesmo", disse outro assessor. "Mas incluirá algo sobre sua experiência e valores, o que é importante para explicar sua postura diante do cargo: essa é minha vida, foi assim que aprendi, farei o serviço da seguinte forma."

Os assessores de Kerry falaram apenas sob condição de anonimato e em termos muito gerais. Eles disseram que o candidato tinha trabalhado de forma muito similar à que adotou na seleção ultra-secreta de seu vice: procurando ajuda de todas as direções, mas controlando o processo.

"Este é um esforço altamente pessoal, mais do que qualquer discurso que tenha feito", disse um amigo de longa data. "Ele explicou isso de antemão e deixou claro para todos que seria o principal autor."

O candidato começou a se preparar há várias semanas, escrevendo em papel rascunho e procurando inspiração nas cartas de seu pai a sua mãe e em seus próprios escritos. Seus assessores de viagem incluem Josh Gottheimer, que escreve discursos, e o secretário de imprensa David Wade.

No entanto, ele também pediu sugestões a Goodwin, que viajou com ele no início do mês, e a Sorensen -que teria criado as inversões inesquecíveis do discurso de John F. Kennedy, que diziam "Não perguntem".

Os assessores dizem que Kerry vai pintar um retrato amplo de sua agenda política: seus projetos para a criação de empregos, para ampliação do acesso à segurança médica, para tirar a nação da dependência do petróleo e suspender os cortes de impostos aos ricos.

"Não acho que essa seja uma hora para surpresas", disse um assessor. "Esta é a hora de fazer o básico apenas. Quantas pessoas prestaram atenção até agora?"

Em seu discurso de 50 a 55 minutos, Kerry vai dedicar mais tempo para discutir a segurança nacional, disseram os assessores. Kerry não vai evitar os contrastes com o presidente Bush, mas seu discurso será majoritariamente positivo no tom, disseram os assessores. Ele não vai mencionar o nome de Bush em um contexto negativo.

Independentemente de quão bem escrito estiver seu discurso, seu sucesso dependerá da oratória de Kerry, muitas vezes criticada. "Se você quer ser otimista, tem que soar otimista", disse uma pessoa que o ajudou na redação do discurso. "Se você quer mostrar que é um forte líder, tem que dar a impressão de ter a força de suas crenças e a determinação de liderar."

Na história das nomeações, houve suficientes discursos pouco memoráveis e alguns fracassos colossais -como o discurso "Venha, venha, EUA" de George McGovern, em 1972. Ele leu o discurso às 2h da manhã, quando a maior parte dos eleitores estava dormindo. Outro foi o de Walter F. Mondale, em 1984, no qual advertiu que tanto ele quanto Ronald Reagan iam aumentar os impostos. "Ele não vai dizer isso, mas eu acabo de fazê-lo."

"Infelizmente, os que ficam na memória são os desastres", observou Adam Walinsky, que era redator de discursos de Robert Kennedy e ajudou Kerry em seu testemunho de 1971.

A coreografia no palco também pode estabelecer o tom do discurso. Até tarde da quarta-feira, não estava claro como Kerry ia entrar no salão de convenções. Alguns assessores, aparentemente, sugeriram que o candidato entrasse pelo meio da multidão de delegados na platéia, para dar-lhe uma chance de tocar e sentir seus ouvintes.

"As palavras já estão prontas", disse um assessor. "A verdadeira questão será em que estado emocional estará, e se combinará com a cadência e a sensação do público. O que a pessoa está sentindo nos cinco minutos antes do discurso é mais importante do que qualquer outra coisa." Candidato, que não se comunica bem, fará o discurso de sua vida Deborah Weinberg

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