UOL Notícias Internacional
 

29/07/2004

Desta vez, a fraude na Flórida será eletrônica

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
Estamos na noite da eleição e os primeiros resultados sugerem apuros para o atual detentor do cargo disputado. Então, misteriosamente, a contagem de votos pára e observadores da campanha do adversário vêem funcionários de uma empresa de urnas eletrônicas, um deles usando um crachá que o identifica como funcionário do tribunal eleitoral, digitando instruções nos computadores com acesso ao programa de tabulação dos votos.

Quando a contagem recomeça, o detentor do cargo salta à frente. O adversário exige uma investigação. Mas não há urnas tradicionais para que se faça uma recontagem, e autoridades eleitorais aliadas ao candidato que está no poder se recusam a divulgar dados que poderiam esclarecer se houve adulteração dos registros eletrônicos.

Não se trata de uma fantasia paranóica. Esse é um episódio real ocorrido em uma recente eleição em Riverside County, na Califórnia, narrado por Andrew Gumbel, do jornal britânico "The Independent".

A longa reportagem de Gumbel, reproduzida pelo jornal "Los Angeles City Beat", deixa os leitores de cabelos em pé, não só porque reforça as preocupações quanto à votação eletrônica, mas também porque demonstra como as autoridades eleitorais podem obstruir as tentativas de investigação de um processo eleitoral suspeito.

Alguns Estados, preocupados com o potencial para abusos com urnas eletrônicas que não deixam nenhum registro impresso, baniram o seu uso nas eleições de novembro. Mas a Flórida, que poderá decidir a corrida presidencial, não está entre esses Estados, e no mês passado autoridades estaduais rejeitaram o pedido de uma auditoria independente sobre a integridade das máquinas.

Um porta-voz do governador Jeb Bush acusou aqueles que defendem a auditoria de tentarem "minar a confiança dos eleitores", e declarou: "O governador tem total confiança no Departamento de Estado e no tribunal eleitoral".

Mas será que a população deve compartilhar dessa confiança? Vejamos o caso da lista de criminosos.

A lei da Flórida nega o direito ao voto a criminosos condenados. Em 2000, o Estado contratou uma firma para retirar os nomes de supostos criminosos da lista de eleitores registrados. Eles não poderiam participar das eleições. Após o pleito, -em que Bush superou Al Gore por apenas 537 votos, num universo de aproximadamente 5 milhões- ficou claro que milhares de pessoas tinham sido erroneamente impedidas de votar.

Considerando que aqueles identificados equivocadamente como criminosos tendiam a ser, de forma desproporcional, negros e democratas, tais erros podem ter conduzido George W. Bush à Casa Branca.

Neste ano, a Flórida contratou novamente uma companhia privada -a Accenture, que recentemente conseguiu um contrato junto ao Departamento de Segurança Nacional no valor de US$ 10 bilhões- para preparar uma lista de criminosos. A exemplo de 2000, os jornalistas pediram cópias das listas. As autoridades eleitorais do Estado se recusaram a atendê-los, mas um juiz acabou ordenando que a lista fosse divulgada.

O jornal "Miami Herald" descobriu rapidamente que 2.100 cidadãos que foram inocentados, fato que lhes restituiu os seus direitos eleitorais, estavam, não obstante, na lista de banidos das eleições. A seguir, o jornal "The Sarasota Herald-Tribune" descobriu que apenas 61 entre mais de 47 mil supostos criminosos eram hispânicos.

Assim, a lista teria erroneamente excluído milhares de eleitores legítimos afro-americanos, e permitido que vários criminosos hispânicos votassem. Todos sabem que na Flórida os eleitores hispânicos tendem a apoiar os republicanos.

Após terem negado a princípio a existência de qualquer problema sistemático, autoridades estaduais declararam que houve um erro involuntário. Eles pediram à Accenture que comparasse uma lista de eleitores registrados com uma outra, de criminosos, e que retirassem quaisquer pessoas cujo nome, data de nascimento e raça fossem os mesmos nas duas listas.

Eles disseram não ter percebido que tal medida não permitiria a identificação daqueles criminosos que se definem como hispânicos, já que esta categoria étnica existe nas listas eleitorais, mas não nos registros criminais estaduais.

Mas funcionários de uma companhia que preparou listas anteriores de criminosos dizem ter advertido repetidamente as autoridades eleitorais do Estado para este problema.

Não sejamos simplórios. Jeb Bush diz que não permitirá um exame independente das urnas eletrônicas porque tem "toda confiança" nas suas autoridades eleitorais escolhidas a dedo. Mas essas autoridades têm um histórico marcado por atitudes descuidadas em outros episódios relativos a eleições, e de alguma forma os seus erros sempre terminam favorecendo os republicanos.

Por que alguém confiaria nos seus veredictos quanto à integridade das urnas eletrônicas, quando um outro erro conveniente poderia garantir uma vitória republicana em uma importantíssima eleição nacional?

E essa não deveria ser apenas uma questão partidária. Pensem só no estrago que uma eleição fraudada causaria na auto-estima dos Estados Unidos, e o efeito de tal episódio no mundo. Em face da reticência oficial, os duvidantes provavelmente não seriam capazes de provar que a contagem fora fraudada -mas se os resultados parecessem suspeitos, a maior parte dos países e muitos norte-americanos acreditariam no pior.

Escreverei em breve sobre o que pode ser feito sobre isso nas poucas semanas restantes, mas aqui está um primeiro passo: se o governador Bush se preocupa tanto com o futuro da nação quanto com o destino político da sua família, ele permitirá que haja uma auditoria independente. Por que o governador Jeb Bush não quer fiscalização nas urnas? Danilo Fonseca

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