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29/07/2004

Kerry precisa descer do muro se quiser vencer

The New York Times
William Safire

Colunista do NYTimes

Em Boston
Políticos excessivamente cautelosos acham que a melhor defesa é não atacar. Para evitar ofender alguns eleitores, John Kerry investiu com convicção em ambos os lados de três questões sociais.

1 - Ele diz que é contra a pena de morte -exceto para terroristas

Para uma minoria com princípios que acredita que o governo nunca deve tirar uma vida humana, esta indecisão de Kerry é indefensável. Não faz sentido defender que a sociedade não tem o direito de executar um estuprador-assassino cujo DNA provou a culpa, um assassino serial confesso ou um ditador genocida, mas se o motivo do assassino é aterrorizar, então cabe a execução.

É possível adotar uma posição honesta contra a pena de morte, como fez o ex-governador democrata de Nova York, Mario Cuomo, apesar do custo político, mas assim que você começa a se equivocar -criando exceções com base no grau de hediondez ou de temor público- você mina sua posição moral.

2 - Defende direito ao aborto, mas diz que a vida começa na concepção

Há muito tempo John Kerry se identificou com o direito da mulher de optar pelo aborto, mas recentemente revelou a um simpatizante que acredita que "a vida começa na concepção".

As pessoas que são resolutamente pró-escolha acreditam que a vida começa no nascimento, e que uma mulher tem o direito de abortar o que está ocorrendo em seu próprio corpo a qualquer momento durante uma gravidez. As pessoas que são resolutamente pró-vida acreditam que a vida começa na concepção e que abortar um embrião ou feto é semelhante a assassinato.

Apesar de os dois lados discordarem sobre quando a vida começa, eles concordam no que estão discutindo. Você pode ser pró-escolha sem nenhuma restrição ao aborto, ou pró-vida com restrições absolutas, ou -como a maioria dos americanos- confortável o suficiente com a atual lei que desencoraja o aborto em estágio avançado da gravidez. Mas a maioria considera difícil a lógica de ser ambos os extremos ao mesmo tempo.

Isto tem relevância para o debate atual sobre o financiamento federal de pesquisa de células-tronco. Se você acredita que a vida começa na concepção, você tem uma base racional para argumentar que os dólares dos contribuintes não devem ser usados para aumentar o apoio privado a pesquisa médica que extrai células-tronco até mesmo de um minúsculo blastócito já destinado à destruição.

Kerry está transformando em tema de campanha nesta convenção seu desejo de adicionar recursos federais a esta pesquisa legal. Esta é a visão para conquistar votos (e também a minha), mas ele não correrá o risco de repudiar sua crença contraditória de que "a vida começa na concepção" para não parecer indeciso, equivocado ou anti-pró-vida. E assim ele continua em cima do muro.

3 - Ele é contra o casamento gay, mas rejeita lei que o proíba

Os analistas de pesquisa mostram que este drible é popular. Mas a Suprema Corte poderá declarar a Lei de Defesa do Casamento federal, sancionada por Clinton, como inconstitucional. Se não o fizerem, os juízes da Suprema Corte provavelmente decidirão que os casamentos legais em um Estado não podem ser ilegais em outro. Para derrubar tal decisão seria necessária uma emenda à Constituição, e a maioria para a realização disto não existe.

Esta posição de Kerry em cima do muro funciona; ele pode dizer que é contra o casamento de mesmo sexo (agradando a maioria) ao mesmo tempo em que se opõe a fazer o que é necessário para impedi-lo (o que também rende bons pontos nas pesquisas). Bush, ao contrário, se opõe veementemente a isto e está disposto a testar sua oposição em disputas no Congresso e nos legislativos estudais.

Que padrão desponta nestas três questões? Que diferença ela mostra na qualidade de liderança dos dois candidatos?

Na pena de morte, Bush é a favor e Kerry está em cima do muro. No aborto, Bush é contra e Kerry está em cima do muro. No casamento de mesmo sexo, Bush é demonstravelmente contra enquanto Kerry é retoricamente contra, mas espertamente encontrou um ponto de descanso político que lhe permite ficar em cima do muro.

Mas eu concordo com Bush na pena de morte, prefiro que a Suprema Corte decida sobre o aborto e discordo dele sobre a emenda contra casamento do mesmo sexo. Mas em todos os casos, este presidente assume uma posição e deixa clara qual ela é. Bush não está tentando ser, na frase bíblica, todas as coisas para todos os homens.

Por sua vez, esta mania de ficar em cima do muro de Kerry é preocupante em alguém que aspira uma liderança fidedigna. Eu não vou assistir amanhã a seu discurso de aceitação da indicação para ouvir histórias de guerra, apelo de massa clintoniano ou um repentino aumento de eloqüência. Descer do muro é o que ajudaria. Ele não diz o que pensa sobre pena de morte, aborto e união gay George El Khouri Andolfato

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