UOL Notícias Internacional
 

30/07/2004

Kerry rebate críticas de Bush e contra-ataca

The New York Times
Adam Nagourney

Em Boston
John Forbes Kerry se apresentou perante a Convenção Nacional Democrata na noite desta quinta-feira (29/07), prometendo "devolver a confiança e a credibilidade à Casa Branca" enquanto ele acusava o presidente Bush de enganar o país para levá-lo à guerra e promover políticas que ele descreveu como uma ameaça ao meio ambiente, à economia e à Constituição.

Kerry prometeu tomar conta de "uma nação em guerra". Ele citou seu serviço na Guerra do Vietnã há 35 anos ao prometer proteger os americanos do terror no século 21.

"Eu defendi este país na minha juventude, e o defenderei como presidente", disse Kerry, segundo um [texto antecipado] de seus comentários. "Não se enganem: eu nunca hesitarei em usar a força quando for necessária. Qualquer ataque será respondido com resposta rápida e certa", disse Kerry.

Além de reforçar suas próprias credenciais como presidente de tempos de guerra, Kerry usou este discurso na [terça-feira] -diante de provavelmente o maior público que já enfrentou- para fazer uma forte crítica aos 40 meses de Bush no governo, chegando até mesmo a repetir o ataque usado por Bush contra Bill Clinton, quando Bush concorreu à presidência em 2000.

"Nós dispomos da capacidade de mudar o mundo novamente: mas apenas se nos mantivermos fiéis aos nossos ideais -e isto começa dizendo a verdade ao povo americano", disse Kerry. "Esta é a minha primeira promessa para vocês nesta noite. Como presidente, eu restaurarei a confiança e a credibilidade à Casa Branca."

Expandindo o tema, Kerry disse segundo o texto: "Eu serei um comandante-em-chefe que nunca lhes enganará para ir à guerra. Eu terei um vice-presidente que nunca realizará reuniões secretas com poluidores para mudar nossas leis ambientais. Eu terei um secretário de Defesa que escutará o melhor conselho de nossos líderes militares. E nomearei um secretário de Justiça que realmente defenda a Constituição dos Estados Unidos."

Para qualquer um que assistiu aos procedimentos nesta última noite da 44ª convenção democrata, não ficou dúvida sobre qual será a tarefa urgente e complicada diante de Kerry: convencer a nação de que tem a força para igualar as credenciais de Bush como presidente de tempos de guerra e de que ela deve mudar de presidente em meio a uma guerra.

Enquanto Kerry se preparava para aceitar a indicação de seu partido, ele se via diante de pesquisas que mostravam ele e Bush empatados, mas com sinais de que os americanos, apesar de descontentes com Bush, não estão preparados para entregar a Casa Branca para um homem a quem Bush tem buscado reduzir a um liberal sem princípios.

O discurso encerrou uma das mais pacíficas e unidas convenções democratas em 50 anos, e deu início ao que será um mês extraordinariamente agitado de mobilização política antes da Convenção Nacional Republicana, em Nova York. Também marcou um momento notável para Kerry, cujas esperanças de conquistar a indicação tinham sido descartadas até mesmo por muitos de seus amigos no início das eleições primárias democratas, no último inverno.

Kerry partirá de Boston na sexta-feira (30) para uma viagem de ônibus de duas semanas pelo país, que o levará de "um mar brilhante a um mar brilhante", como colocou sua secretária de imprensa, Stephanie Cutter. Bush, sem perder tempo, iniciará sua própria viagem de campanha ao Meio-Oeste na sexta-feira, e assessores disseram que ele usará a viagem para anunciar propostas para ajudar o país a se ajustar às pressões econômicas do novo século.

Kerry, que disse na véspera da convenção que não queria que o encontro de uma semana se dissolvesse em um fórum de ataques a Bush, mal mencionou Bush nominalmente em seu longo discurso da noite de quinta-feira.

Mas em cada sentença, ele estabeleceu as diferenças entre os dois nas questões, ao mesmo tempo buscando se prevenir de ataques contra ele por parte da Casa Branca, e usando a oportunidade desta convenção ter sido realizada primeiro para estabelecer o tema da campanha. No processo, Kerry fez uso das palavras do vice-presidente Dick Cheney, de Ron Reagan, o filho do presidente falecido, e até mesmo do próprio Bush.

"Eu quero dizer estas próximas palavras diretamente ao presidente George W. Bush: nas próximas semanas, vamos ser otimistas, não apenas oponentes", disse Kerry. "Vamos promover a união na família americana, não uma divisão furiosa. Vamos honrar a diversidade desta nação; vamos respeitar um ao outro; e nunca vamos fazer mau uso do documento mais precioso da história americana, a Constituição dos Estados Unidos."

Ele acrescentou: "O caminho elevado pode ser mais árduo, mas leva a um lugar melhor. E é por isso que republicanos e democratas devem tornar esta eleição uma disputa de grandes idéias, não ataques mesquinhos".

Kerry utilizou comentários feitos por Ron Reagan no funeral de seu pai, confrontando diretamente o que ele sugeriu ser uma tentativa de Bush de traçar diferenças entre o senador e o presidente em valores e religião.

"Nesta campanha, nós damos às boas-vindas às pessoas religiosas: a América não é 'nós e eles', disse ele. "Eu penso no que Ron Reagan disse sobre seu pai poucas semanas atrás, e quero dizer isto a vocês nesta noite: eu não escondo minha própria fé na minha manga."

"Mas a fé me deu valores e esperança para viver, do Vietnã até hoje, de domingo a domingo", disse ele. "Eu não quero alegar que Deus está do nosso lado."

Ele até mesmo citou uma das frases favoritas de Cheney na campanha de 2000 para estabelecer um contraste com Bush. "A América pode fazer melhor", disse ele. "Assim, nesta noite, dizemos que a ajuda está a caminho."

Kerry se cercou no palco de símbolos de poderio militar e lembretes de seu próprio serviço na guerra. Havia um vídeo com imagem granulada mostrando ele, de arma na mão, nos campos do Vietnã. Ele foi apresentado por Max Cleland, um ex-senador da Geórgia que perdeu três membros quando serviu no Vietnã. O país conheceu 14 companheiros dele -membros do "bando de irmãos" de Kerry- que o acompanharam enquanto ele comandava lanchas em meio ao fogo intenso do Delta do Mekong.

"Nós precisamos de forças armadas fortes e precisamos de fortes alianças", disse Kerry, quando chegou sua vez de falar. "E então, com confiança e determinação, nós seremos capazes de dizer aos terroristas: vocês perderão e nós venceremos. O futuro não pertence ao medo; ele pertence à liberdade."

Kerry não foi o único a desafiar à condução da guerra por Bush.

O general aposentado Wesley Clark citou Woodrow Wilson, Franklin D. Roosevelt e Harry Truman para retratar o Partido Democrata como entidade política repleta de história e sucesso militar.

"Este salão e este partido estão repletos de veteranos que serviram sob esta bandeira -nossa bandeira", disse Clark. "Nós içamos e demos o toque de alvorada a esta bandeira. Nós saldamos esta bandeira. Nós lutamos por esta bandeira. E nós vimos homens e mulheres corajosos serem enterrados sob esta bandeira. Esta bandeira é nossa. E ninguém a tirará de nós."

Clark implorou para que sua platéia apoiasse Kerry. "América", disse ele. "Ouça este soldado." O senador Joseph Biden, de Delaware, seguindo os próprios comentários de Kerry sobre política externa, disse: "Que nenhum inimigo confunda nossa decência básica como falta de resolução. Nós americanos lutaremos com cada fibra do nosso ser para proteger nosso país e nosso povo. Quando John Kerry for o comandante-em-chefe, ele não hesitará em empregar o poder sem paralelo de nossas forças armadas contra qualquer nação ou grupo que venha a nos fazer mal -sem pedir a permissão de ninguém".

Apesar da política externa ter dominado grande parte do discurso de Kerry, este não foi o único tema de seu discurso, e refletiu o cálculo dos conselheiros de Kerry de que ele precisava pelo menos neutralizar a questão do terror, para deslocar o debate eleitoral para questões onde os democratas poderão se sair melhor.

Kerry se apresentou como um candidato da "classe média, que merece um campeão, e daqueles que estão lutando para se juntar a ela". Enquanto se esforçava para dizer que tinha uma visão otimista do futuro -novamente, respondendo à tentativa de Bush de retratá-lo como melancólico e pessimista- ele falou sobre um país que estava sofrendo devido às políticas de Bush.

"Nós somos uma nação em guerra -uma guerra global ao terror contra um inimigo diferente de qualquer outro que conhecemos antes", disse ele. "E aqui em casa, os salários estão diminuindo, os custos do atendimento de saúde estão subindo, e nossa grande classe média está encolhendo. As pessoas estão trabalhando nos fins de semana, estão trabalhando em dois empregos, três empregos, e ainda assim não estão conseguindo progredir."

"Nós podemos fazer melhor e faremos", disse ele. "Nós somos os otimistas."

Novamente, Kerry usou seu discurso para fazer uso das linhas de ataque que a Casa Branca tem usado contra ele, como retratá-lo como inconsistente.

"Agora, eu sei que há aqueles que me criticam por ver as complexidades -e eu vejo- porque algumas questões não são tão simples", disse ele. "Dizer que há armas de destruição em massa no Iraque não faz com que isto seja verdade. Dizer que é possível travar uma guerra sem gastar muito não faz com seja verdade. E proclamar a conclusão da missão certamente não faz com que ela termine."

Utilizando uma linha de ataque empregada por Clark quando os dois estavam disputando a indicação democrata, Kerry desafiou a Casa Branca a tentar retratar suas críticas à guerra como não patrióticas.

"Esta noite, nós temos uma importante mensagem para aqueles que questionam o patriotismo dos americanos que oferecem uma melhor direção para nosso país", disse ele. "Antes de se enrolarem na bandeira e taparem seus olhos e ouvidos para a verdade, eles devem se lembrar do que a América realmente se trata."

"Estão vendo aquela bandeira lá em cima?" ele continuou, acrescentando: "Eu lutei sob aquela bandeira, como fizeram muitos de vocês aqui e por todo o nosso país. Aquela bandeira tremulava bem atrás da minha cabeça na plataforma de artilharia. Ela foi baleada e rasgada, mas nunca deixou de tremular ao vento. Ela cobriu os caixões dos homens com quem servi e amigos com quem cresci. Para nós, esta bandeira é o símbolo mais poderoso de quem somos e do que acreditamos".

E atacou a Casa Branca por deturpar suas posições sobre os impostos.

"E me permitam dizer o que não faremos: nós não aumentaremos os impostos sobre a classe média", disse ele. "Vocês ouviram muitas acusações falsas sobre isto nos últimos meses. Então me permitam dizer claramente o que farei como presidente. Eu reverterei os cortes de impostos para os indivíduos mais ricos, que ganham mais de US$ 200 mil por ano, para podermos investir na geração de empregos, no atendimento de saúde e na educação."

Kerry tentou ao longo desta campanha rebater os ataques lançados pela Casa Branca contra ele empregando os mesmos termos, e o fez novamente na quinta-feira ao desmerecer a tentativa de Bush de traçar distinções de valores entre os dois partidos.

"Por quatro anos, nós ouvimos muita conversa sobre valores", disse ele. "Mas os valores falados sem ações que os acompanhem são apenas slogans. Os valores não são apenas palavras. Eles são aquilo pelo que vivemos. Eles se tratam das causas que defendemos e das pessoas pelas quais lutamos. E é hora daqueles que falam sobre valores familiares começarem a valorizar as famílias."

"Nós damos valor aos empregos que pagam mais a vocês, e não menos do que ganhavam antes. Nós damos valor a empregos onde, quando você trabalha os cinco dias da semana, você consegue pagar suas contas, sustentar seus filhos e melhorar sua qualidade de vida. Nós damos valor a uma América onde a classe média não é espremida, mas se sai bem", disse ele.

Kerry voltou repetidas vezes aos temas de política externa e força -em particular, como Bush conduziu a guerra contra o terrorismo e as relações com outros países.

"Como presidente, eu farei perguntas difíceis e exigirei evidências concretas", disse Kerry. "Eu reformarei imediatamente o sistema de inteligência -de forma que a política seja guiada por fatos, e os fatos nunca sejam distorcidos pela política. E como presidente, eu devolverei a este país uma tradição honrada pelo tempo: os Estados Unidos nunca vão à guerra porque queremos, nós apenas vamos à guerra porque precisamos."

Ele acrescentou: "Nós precisamos tornar novamente a América um farol no mundo. Nós precisamos ser admirados e não apenas temidos".

Entre os demais oradores que tiveram um momento na tribuna na noite de quinta-feira, Cleland recebeu uma recepção particularmente calorosa. Para muitos democratas, ele se tornou um ponto de união política tanto quanto a eleição presidencial de 2000, após ele ter sido derrotado em uma disputa na qual os republicanos questionaram seu patriotismo devido ao seu voto.

"A Bíblia me diz que não há amor maior do que um homem dar sua vida pela de seus amigos", disse Cleland. "Os companheiros de barco de John Kerry -homens com os quais me sinto honrado em dividir o palco- são um testemunho vivo de sua liderança, sua coragem sob fogo e sua disposição de arriscar sua vida pelos seus irmãos americanos. Não há ato maior de patriotismo do que isto."

Antes de Kerry aparecer, sua filhas subiram ao palco para compartilhar histórias sobre seu pai. Vanessa Kerry, 27 anos, disse que viajou com seu pai em campanha em dezembro, quando suas perspectivas de conquistar a indicação democrata eram questionadas. "Eu viajei com meu pai quase todos os dias de um mês frio e longo", disse ela. "E eu juro que não houve nenhum momento em que ele duvidou de sua capacidade de vencer. Nenhuma semana em que desistiu da luta."

Alexandra Kerry disse que seu pai é um herói para seu país e também para sua família, e recontou como ele mergulhou na água para salvar o hamster da família que estava se afogando. "Para toda garotinha seu pai é um herói", disse ela. "Levou algum tempo para me acostumar com o fato de que meu é um de verdade."

Kerry falou para uma convenção onde os delegados pareciam absolutamente confiantes de que o homem que estavam assistindo, na quinta-feira, estará sentado no Escritório Oval em janeiro, removendo Bush de lá. "É ele quem não tem chance", disse Kelly Jacobs, uma delegada de Hernando, Mississippi, sobre o presidente.

E Arrington Dixon, um delegado de Washington, D.C., disse sobre Kerry: "Eu sei que ele conseguirá. As coisas não podem continuar como estão". Democrata encerra a convenção dando respostas a ataques George El Khouri Andolfato

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