UOL Notícias Internacional
 

30/07/2004

Kerry tenta convencer EUA de que é líder forte

The New York Times
Todd S. Purdum

Em Boston
Por meses, John Kerry e seus partidários tentaram dizer aos eleitores que o candidato é forte o suficiente para manter a nação segura e atencioso o suficiente para torná-la confortável durante sua presidência. Na noite desta quinta-feira (29/07), seu objetivo era mostrar à maior audiência da sua vida que ambas as afirmativas eram verdadeiras, e fez o seu melhor.

Em seu discurso, que usou variações da palavra força 17 vezes, Kerry se apresentou não só como plausível, mas também como um comandante muito preferível ao presidente Bush. Segundo ele, seu serviço em combate deixou-o com uma compreensão das tradições americanas irmãs de força e auto-controle.

"Nesses dias de perigo, há uma forma certa e uma forma errada de ser forte", disse Kerry em seu discurso. "Força é mais do que palavras duras. Depois de décadas de experiência em segurança nacional, sei o alcance de nosso poder e conheço a força de nossos ideais."

As pesquisas mostram Bush vulnerável, mas ainda considerado forte diante do terrorismo e menos propenso a equívocos. Diante disso, Kerry citou o primeiro presidente Bush, que disse em sua convenção, em 1988, que "tudo se resume ao homem atrás da mesa". Kerry declarou: "No fim, não são apenas políticas e programas que importam; o presidente que se senta à mesa deve ser guiado por princípios."

O ferrão da mensagem de Kerry era claro: Ele -não o segundo George Bush- é esse homem. A ferroada foi reforçada com sua interpretação da promessa do presidente, há quatro anos, de "manter a honra e a dignidade" do cargo, prometendo "restaurar a confiança e a credibilidade na Casa Branca."

Mas Kerry tinha outra tarefa a cumprir antes de fechar o show em Boston: ele precisava assegurar aos eleitores em torno do país que se preocupa com eles e suas questões. Então, prometeu: "Valorizamos uma sociedade em que a classe média não está sendo esmagada, mas melhorando."

E apesar de Kerry gostar de dizer que tem uma parte dele que "gosta de controlar um pouco", ele fez o contrário e relaxou um pouco, falando de sua família, sua fé e seus amigos do Vietnã em termos excepcionalmente pessoais para ele.

Ele descreveu seu pai como piloto da Segunda Guerra Mundial, que lhe deu sua primeira luva de beisebol e bicicleta e "viveu as responsabilidades e sacrifícios da maior geração". Disse que sua mãe era escoteira que ficava até tarde para ajudá-lo com o dever de casa, sentava ao lado da sua cama quando estava doente e ensinou-lhe "a ver árvores como as catedrais da natureza".

"Meus pais ensinaram-me a servir. Quando eu estava na escola, John Kennedy chamou minha geração a servir. Era o começo de uma grande jornada -uma época de marchar pelos direitos civis, para lutar pelos direitos do meio-ambiente, das mulheres e pela paz. Acreditávamos que podíamos mudar o mundo. E sabem o quê? Nós mudamos."

Várias vezes, Kerry dirigiu-se para além dos delegados que lotaram o Fleet Center -e o aplaudiram no final dessa convenção fortemente produzida. Ele falou aos milhões de telespectadores e eleitores que ainda não se decidiram. Pesquisas recentes da Annenberg Election Survey concluíram que quase metade de todos os eleitores "persuadíveis" -os indecisos ou dispostos a reconsiderar- até agora não têm uma opinião nem favorável nem desfavorável de Kerry.

"O povo americano quer saber qual a sua visão para o país, se está pronto para liderar, se está preparado", disse um colega de Kerry, o deputado Marty Meehan, de Massachusetts. "E quer saber que tipo de presidente ele será."

A resposta de Kerry foi: como os melhores deles. Ele repetiu frases ou conquistas de Democratas populares do passado, de Franklin D. Roosevelt a John F. Kennedy e Bill Clinton. Ele ecoou Roosevelt, declarando: "O futuro não pertence ao medo, pertence à liberdade".

Ele repetiu a promessa de Kennedy de 1960, quando disse: "Podemos fazer melhor, e faremos." Ele fez lembrar Jimmy Carter e sua promessa de nunca mentir, ao declarar: "Está em nosso alcance mudar o mundo novamente, mas somente se formos verdadeiros a nossos ideais -e isso começa por dizer a verdade ao povo americano."

Ele se lembrou da bandeira no barco da marinha no Delta do Mekong e da bandeira "que cobria os caixões de homens" com quem serviu e de amigos com quem cresceu, em um sinal de que não ia tolerar o tipo de ataques Republicanos que ajudaram a afundar o último candidato Democrata de Massachusetts, o ex-governador Michael S. Dukakis. Ele repetiu a afirmativa de seu rival de outrora, o general Wesley K. Clark, de que "a bandeira não pertence a um presidente."

Ele até roubou uma frase do jovem Ron Reagan sobre a fé de seu pai, afirmando: "Não exponho minha fé na manga, mas ela me deu valores e esperança com os quais viver, do Vietnã até hoje, de domingo a domingo. Não quero alegar que Deus está do nosso lado. Como nos disse Abraham Lincoln, quero orar humildemente que estejamos do lado de Deus."

O discurso, escrito à mão e aprimorado com a ajuda dos antigos redatores de Kennedy, era cheio das inversões oratórias que ficaram famosas com um deles, Theodore C. Sorensen. "É hora de nós, que falamos sobre valores da família, começarmos a valorizar as famílias", foi uma das pontadas não tão veladas aos Republicanos.

Mas mesmo antes de Kerry falar, Republicanos proeminentes, desde o ex-prefeito Rudolph W. Giuliani, de Nova York, ao ex-governador William Weld de Massachusetts estavam aqui para oferecer suas opiniões divergentes, retratando-o como "um grande mestre internacional na arte de mudar de assunto", como disse Weld.

Giuliani ridicularizou os votos de Kerry no Senado, primeiro autorizando o uso de força no Iraque e depois se opondo às apropriações para a ocupação, dizendo: "O que precisamos é de um líder forte, de princípios, que defenda o que é necessário quando isso é popular ou não, e esse é o presidente George Bush."

O ano inteiro, os assessores de Kerry afirmaram que Bush nunca será capaz de fazer de Kerry um Dukakis, a quem o Bush pai pintou como liberal fraco e inseguro, despreparado para ser comandante das tropas. Apesar de uma enchente de anúncios de televisão dos Republicanos, o otimismo dos assessores de Kerry se provou verdadeiro.

Mas Kerry, depois de uma longa carreira no Senado na qual deixou uma série de votos às vezes contraditórios, é mais vulnerável a acusações de inconsistência. Então, ele procurou se mostrar como um cético determinado, que "vai fazer perguntas e exigir evidências" e garantir que a "política seja guiada pelos fatos e que os fatos não sejam destorcidos pela política."

Kerry concluiu com outra farpa, escondida em um discurso otimista. Ele ecoou a famosa afirmativa de Robert F. Kennedy, de que sonhava com coisas e se perguntava, "por que não?". Ele disse: "Agora é nossa vez de perguntar: e se?" os médicos puderem encontrar curas para doenças e o país encontrar "um presidente que acredita na ciência" e um "líder que é tão bom quanto o sonho americano- de forma que a inveja e o ódio nunca roubem novamente a esperança e o futuro de algum americano"?

Kerry terá uma resposta no dia 2 de novembro. Discurso final da convenção enfatiza papel de comandante militar Deborah Weinberg

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