UOL Notícias Internacional
 

04/08/2004

Segurança nacional vira jogo entre os partidos

The New York Times
Todd S. Purdum

Em Washington
Em uma eleição que envolve questões de guerra e paz, de perigo e segurança, tudo na política às vezes parece girar em torno da segurança, hoje em dia. E toda segurança tem um tom inconfundível de política, independente da realidade ou da urgência de qualquer ameaça anunciada.

"Não queremos fazer política no Departamento de Segurança Interna", disse o secretário Tom Ridge, na última segunda-feira (02/07), negando as sugestões de que essa última advertência de ameaça teve motivação política.

Mas no domingo, Ridge, ex-congressista Republicano e governador da Pensilvânia, fez política assim mesmo, quando declarou que a base de inteligência por trás do alerta era "resultado da liderança do presidente na guerra ao terrorismo."

É claro, talvez John Kerry não compartilhe dessa opinião, mas é difícil para ele dizer tal coisa. A maior coisa que os Democratas têm a temer nesta campanha é o próprio poder do medo.

As pesquisas mostram que a forma que Bush está lidando com o terrorismo continua sendo sua única clara vantagem sobre Kerry, em uma disputa muito acirrada. O presidente não seria humano, nem o político sagaz que se provou ser, se não fizesse tudo que pudesse para lembrar ao público desse ponto forte -e reforçá-lo.

É por isso que Bush escolheu fazer a Convenção Nacional Republicana neste mês em Madison Square Garden, a uma pequena distância de metrô do desastre do World Trade Center.

Por isso ele lançou uma nova propaganda de campanha, na terça-feira, com imagens dos bombeiros e a bandeira, proclamando: "Os últimos anos testaram os EUA de muitas formas, mas juntos estamos respondendo ao desafio: lutando contra o terrorismo e trabalhando para fazer crescer nossa economia."

Entretanto, Bush também precisa esforçar-se para não ser acusado de usar o terrorismo para fazer política. Houve boatos de que grande parte dos recém descobertos dados de inteligência que provocaram o último alerta era de anos atrás. Isso levou até algumas autoridades policiais a se perguntarem por que Ridge tinha elevado o nível de alerta neste momento.

"Minha opinião é que a Casa Branca terá muita confiança do público em questões envolvendo potenciais ataques terroristas. Só os mais desconfiados veriam a possibilidade de qualquer motivação política. Até agora, houve cautela. Acontece de (Bush) ser um candidato à reeleição, mas primeiro e acima de tudo é o presidente dos EUA, cumprindo esse papel em tempos perigosos, em um mundo perigoso. Que vergonha alguém questionar isso", disse Don Sipple, consultor político Republicano.

O desafio político para Kerry está claro. Na semana passada, quando queria mostrar suas qualificações para dirigir as forças armadas, ele trouxe um batalhão de veteranos, marechais e generais à Convenção Democrata para o elogiarem. Depois, falou apaixonadamente sobre seu próprio serviço em combate no Vietnã.

Na segunda-feira, Bush fez lembrar a Kerry e a qualquer outro que estivesse atento que ele já está no comando, quando entrou no Jardim de Rosas da Casa Branca com a gravidade que apenas o presidente pode entender -ladeado pelos secretários de Estado, de defesa, de segurança interna e o advogado geral- para anunciar a criação de uma nova diretoria nacional de inteligência e comentar sobre o último alerta terrorista.

"Essas últimas 48 horas mostraram que o presidente no cargo realmente pode ditar a agenda de uma campanha presidencial, e todos os esforços de Kerry na estrada podem ser descarrilados por uma manhã de conferência com a imprensa em Washington. Esse é o problema de competir contra um presidente em exercício. É duro. Eu sei", disse Scott Reed, que administrou a campanha fracassada do Republicano Bob Dole contra Bill Clinton, em 1996.

As pesquisas mostram que, apesar do combate ao terrorismo ser o ponto em que Bush é considerado mais firme do que Kerry, ele perdeu terreno considerável nos últimos meses, e a Convenção Democrata diminuiu essa diferença ainda mais.

Em uma pesquisa da CBS News conduzida no final de semana, a maioria dos americanos, 51%, disseram que aprovavam a forma como Bush estava lidando com a campanha contra o terrorismo, enquanto 43% desaprovaram. Em março, 60% aprovavam e 32% desaprovavam. Quando questionados em quem confiariam mais para lidar com o terrorismo, os eleitores escolheram Bush mas por uma margem pequena o suficiente para cair no erro de amostragem.

Bush está plenamente consciente do preço que pagaria se tivesse informações sobre um possível ataque e não as compartilhasse. O relatório exaustivo da comissão de 11 de setembro detalhou a longa trilha de pistas perdidas e erros que poderiam ter prevenido o plano dos seqüestradores. Então, os assessores do presidente deixam claro que estão dispostos a sofrer os questionamentos de seus motivos ao fazerem seu trabalho e insistem que a política não faz parte disso.

"Nós não estaríamos contatando autoridades municipais se não houvesse algo real", disse Bush na segunda-feira. Entre Democratas, apenas o ex-governador de Vermont, Howard Dean, chegou a falar abertamente que acredita que o governo está "manipulando a divulgação de informações para afetar a campanha do presidente."

Até mesmo essas observações não foram mais duras do que os comentários que alguns Republicanos fizeram do presidente Clinton, há seis anos, quando ele enviou mísseis contra postos da Al Qaeda, em retaliação pela explosão das embaixadas americanas na África Ocidental, dias após confessar seu caso com Mônica Lewinsky.

Daniel R. Coats, que era senador Republicano de Indiana e hoje é embaixador de Bush na Alemanha, resumiu sua sensação na época.

"O perigo aqui", disse Coats, "é que quando o presidente perde sua credibilidade diante do Congresso, como esse presidente fez com meses de mentiras, fraudes e manipulações, isso gera dúvidas sobre tudo o que faz e tudo o que diz -e talvez sobre tudo aquilo que não faz e não diz. Simplesmente espero e oro que essa decisão tenha-se baseado em julgamento sólido e tenha sido tomada pelas razões corretas e não porque isso era necessário para salvar o cargo do presidente." Uso político de alerta contra o terrorismo abala a credibilidade Deborah Weinberg

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