UOL Notícias Internacional
 

04/08/2004

TVs dos EUA fazem cobertura favorável a Bush

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
Uma mensagem aos meus colegas jornalistas: examinem os sites que monitoram a mídia como campaigndesk.org, mediamatters.org e dailyhowler.com. É bom nos enxergarmos como os outros nos enxergam.

Achei que o conceito veiculado pelo "The Daily Howler" de um "script de mídia" -uma pauta que dita a cobertura, e que freqüentemente não respeita suficientemente as evidências- é especialmente útil para entender os noticiários das redes de televisão a cabo.

Por exemplo, no verão passado, quando o crescimento econômico atingiu, por um período muito breve, um ritmo galopante, esses noticiários decidiram que a economia vivia um surto de prosperidade. Mas o galope logo diminuiu para um trote e, a seguir, uma caminhada.

Mas a julgar pelas mensagens que recebi recentemente após escrever sobre a desaceleração da economia, o script jamais foi mudado; vários leitores zangados insistiram que os meus números destoavam de tudo o que tinham visto na televisão.

Se você realmente desejar ver os scripts dos noticiários dessas redes em ação, dê uma espiada na cobertura da convenção democrata.

As redes de televisão comerciais abertas cobriram apenas uma hora da convenção a cada noite. Veremos se os republicanos recebem o mesmo tratamento. A C-Span, por outro lado, fez uma cobertura ampla e não opinativa.

Mas muita gente viu a convenção pelos canais de notícias a cabo -e o que eles viram foi modelado por um script que descreveu os democratas como um grupo furioso contrário a Bush e que desdenha dos militares.

Se isso soa como um script escrito pelos republicanos, é este exatamente o caso. Conforme deixa claro o filme "Outfoxed", a Fox News é, para todos os fins práticos, uma agência de propaganda do Partido Republicano.

Uma pesquisa, atualmente famosa, revelou que os telespectadores da Fox têm maior probabilidade do que aqueles que se informam por outros canais de acreditar que as provas de ligações entre Saddam Hussein e a Al Qaeda foram encontradas, que armas de destruição em massa foram localizadas e que a maioria dos países apoiou a guerra contra o Iraque.

A CNN costumava ser diferente, mas a Campaign Desk, que é administrada pela Columbia Journalism Review, concluiu, após rever a cobertura da convenção, que a CNN "adotou as mais baratas imitações das políticas e estratégias mais dúbias da Fox".

Segundos após o discurso de John Kerry, a CNN deu a Ed Gillespie, dirigente do Partido Republicano, a oportunidade de criticar o candidato. Será que Terry McAuliffe terá a mesma oportunidade logo após o discurso do presidente Bush?

Os comentaristas se empenharam bastante em eliminar as cenas que não se encaixavam no script. Alguns simplesmente enxergaram aquilo que queriam.

Na Fox, Michael Barone garantiu que os membros da convenção aplaudiram quando Kerry criticou Bush, mas que se calaram quando o candidato defendeu o poderio militar norte-americano. Dêem uma olhada nos videoclipes da Media Matters; houve intenso aplauso quando Kerry falou sobre uma nação forte.

Uma outra técnica, generalizada tanto na Fox quanto na CNN, foi ecoar as alegações republicanas de que haveria uma "extrema dissimulação" -a afirmação de que aquilo que os telespectadores viam não representaria a face real do partido. (Aparentemente, todos aqueles almirantes, generais e veteranos condecorados seriam embusteiros).

Provavelmente será mais fácil fazer alegações semelhantes em Nova York, onde os republicanos deverão exibir um grupo de discursadores moderados e favoráveis ao direito da mulher de decidir quanto à questão do aborto, e manterão Tom DeLay e Rick Santorum amarrados.

Mas em Boston foi necessária criatividade para pintar os delegados como elementos estranhos à plataforma democrata. Por exemplo, Bill Schneider da CNN alegou que, segundo uma pesquisa New York Times/CBS, 75% dos delegados seriam favoráveis ao "aborto segundo a demanda" -uma alegação que exagerou a revelação real feita pela pesquisa, segundo a qual 75% dos delegados se opõe a limitações mais rígidas do que as que estão em vigência.

Mas o poder real do script reside no fato de ele poder modificar retroativamente a história daquilo que ocorreu.

Na noite de quinta-feira, o discurso de Kerry foi um sucesso palpável. Um grupo de acompanhamento, organizado por Frank Luntz, diretor de pesquisas republicano, achou a fala do candidato democrata interessante e persuasiva. Até mesmo os comentaristas pró-Bush admitiram, a princípio, que o discurso foi um sucesso.

Mas um alerta terrorista já está apagando as lembranças da semana passada. Embora atualmente exista uma longa história de alertas terroristas decretados em momentos notáveis pela conveniência política, e apesar de Tom Ridge ter dado um caráter político ao anunciar o alerta, utilizando a ocasião para elogiar "a liderança do presidente na guerra contra o terrorismo", este último código laranja pode estar baseado em informações reais.

A despeito disso, o fato confere aos suspeitos de sempre um espaço para respirarem; tão logo a calma retorne, não se surpreendam se alguns daqueles mesmos comentaristas começarem a descrever o discurso pífio que aguardavam (e pelo qual torciam), deixando de lado àquele que na verdade assistiram.

Por sorte, nesta era da Internet é possível contornar esses filtros. No c-span.org é possível obter transcrições e vídeos de todos os discursos. Peço a todos que assistam a Kerry e aos outros por conta própria, e que façam a sua própria avaliação. Redes privilegiam republicanos e omitem pontos fortes democratas Danilo Fonseca

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