UOL Notícias Internacional
 

05/08/2004

Kerry dribla limitações da lei eleitoral americana

The New York Times
Jim Rutenberg

Lee's Summit, Montana
Nas semanas após a Convenção Democrata, os assistentes da campanha do senador John Kerry ficaram preocupados porque, a partir de então, o candidato poderá gastar no máximo seus US$ 75 milhões (cerca de R$ 225 milhões) de financiamento público até o dia da eleição (2 de novembro). O presidente Bush, que fará a convenção apenas no fim de agosto, poderá investir mais no período.

Eles até flertaram com a idéia de adiar a nomeação para que pudessem continuar angariando fundos e gastando milhões de dólares em propaganda durante o mês de agosto.

Entretanto, o mês entrou com dezenas de anúncios para Kerry. Para o eleitor, a campanha do senador prosseguiu sem parar. E o comitê não gastou um centavo para isso.

Os novos anúncios, introduzidos nesta semana, não foram patrocinados pelo comitê, mas por um recém formado braço do Partido Democrata, que está investindo US$ 6,5 milhões (em torno de R$ 19,5 milhões) em propaganda em 20 Estados nesta semana, e o Media Fund, que está fazendo uma campanha de US$ 2,5 milhões (aproximadamente R$ 7,5 milhões) em cinco Estados indecisos. As propagandas da campanha e do partido são de muitas formas similares, enfatizando palavras como vencer, força e alianças.

Pela segunda vez nessa temporada, grupos de fora, que não têm permissão de coordenar-se com o comitê de Kerry, estão vindo ao socorro da campanha, em uma hora crucial da corrida contra o presidente Bush -a mais cara até hoje.

Os anúncios começaram justo quando Kerry ia parar de anunciar e Bush aumentava sua carga, lembrando a nação do apuro que passou, os perigos que tem à frente e declarando que está "respondendo ao desafio".

Grupos liberais como Media Fund e Moveon.org, que anteriormente apresentou as propagandas que o Media Fund está usando agora, fizeram grandes campanhas de propaganda depois que Kerry efetivamente abocanhou a nomeação Democrata, em março.

Eles gastaram milhões de dólares em anúncios altamente críticos de Bush em Estados-chave, em uma época em que Kerry estava quebrado demais para fazer sua própria propaganda -e enfrentando uma enxurrada de propagandas de ataque de Bush.

Agora, o Partido Democrata, o Media Fund e outros estão fazendo a mesma coisa, porque a campanha de Kerry decidiu diminuir o ritmo das propagandas em agosto para manter a paridade financeira com Bush nos últimos dois meses de campanha.

A decisão foi forçada pela peculiaridade do sistema de financiamento de campanha política. Os candidatos recebem US$ 75 milhões para as eleições gerais, mas só podem gastar esse montante e nada mais entre a aceitação da nomeação pelo partido e o dia da eleição, 2 de novembro.

Bush terá a mesma restrição, mas ele só aceitará a nomeação do seu partido, o Republicano, no dia 2 de setembro. Ou seja, terá um mês a menos no qual gastar o dinheiro -e mais um mês para gastar livremente.

Na maior parte dos Estados, os anúncios do Partido Democrata vão ao ar em número quase igual aos de Bush. Aqui em Lee's Summit, que faz parte do mercado de televisão de Kansas City, os eleitores, no curso de uma semana, verão os anúncios do partido 11 vezes e os de Bush 10 vezes, de acordo com os dados fornecidos pelo Media Fund.

Em alguns mercados da Flórida, Nevada, Novo México, Pensilvânia e Ohio, as propagandas do partido e do Media Fund juntas estão passando duas vezes mais do que as de Bush, como no caso da Filadélfia.

Matthew Dowd, principal estrategista de campanha de Bush, disse que seu comitê sempre imaginou que grupos de fora fossem fazer propaganda para Kerry. "Desde 3 de março que dizemos que Kerry e grupos externos provavelmente gastarão mais do que nós", disse Dowd, referindo-se ao dia em que sua campanha começou a fazer propaganda.

Apesar de os assessores de Kerry não gostarem de admitir, a maior parte dos analistas concorda que o candidato não poderia parar sua propaganda e economizar dinheiro para mais tarde sem correr grande risco, a não ser que soubesse que grupos amigáveis estariam prontos para cobrir a falta.

No passado, essa posição não teria sido invejável. Grupos externos, em geral, foram tão problemáticos quanto prestativos em campanhas presidenciais, freqüentemente tocando em temas que os comitês preferiam evitar.

Ex-assessores do deputado Dick Gephardt sustentam que ele foi punido pelos eleitores que não gostaram da negatividade em anúncios contra Howard Dean em Iowa, no ano passado, patrocinados por um grupo de partidários chamado Americanos por Empregos, Saúde e Valores Progressistas.

Desta vez, entretanto, os anúncios de fora encaixaram-se quase perfeitamente com as mensagens de campanha de Kerry -atendo-se em grande parte às questões de saúde, emprego e a guerra no Iraque. Isso gerou ocasionais acusações de conspiração pelos Republicanos.

Democratas e analistas disseram que o nível extraordinário de união do partido contra Bush levou os grupos externos a acompanharem a linha de Kerry, ou ao menos tentarem, sem falar diretamente com seus assessores.

O Comitê Nacional Democrata tem permissão para gastar apenas US$ 16,2 milhões (em torno de R$ 48,6 milhões) na campanha de Kerry. Mas pode gastar quanto quiser por meio do comitê de Ellen Moran -que inclui ex-assessores de Gephardt e do senador John Edwards, da Carolina do Norte- desde que trabalhe independentemente dos agentes de campanha do partido.

Moran, diretora do novo braço do Partido Democrata formado para fazer propaganda em nome de Kerry, disse que não precisa estar em contato com Kerry para transmitir sua mensagem.

"Só porque somos independentes não quer dizer que não estamos informados", disse Moran em entrevistas. "Nossas decisões são informadas pelos noticiários, conduzindo nossas próprias pesquisas e recebendo conselhos de uma equipe de veteranos de campanhas, que realmente sabem o que estão fazendo."

Os veteranos de campanha de Moran e os que estão trabalhando com Kerry parecem estar usando o mesmo roteiro, como evidenciado pela recorrência de palavras-chave como alianças e força na propaganda do partido e no mais recente anúncio de Kerry sobre as ameaças terroristas.

Moran, porém, disse que usou as palavras do próprio Kerry. Segundo ela, ficou evidente a escolha de quais partes do seu discurso de aceitação deveria usar em seu primeiro anúncio: Kerry fez de suas credenciais de segurança o ponto central da convenção.

O Media Fund negou várias vezes ter-se coordenado com agentes de campanha de Kerry ou do partido.

"A verdade é que não precisamos do comitê ou do DNC para saber o que está movendo os eleitores", disse Jim Jordan, porta-voz do Media Fund e ex-gerente de campanha de Kerry. Ele disse que o grupo decidira aumentar sua propaganda agora porque o "Media Fund sempre viu como sua missão fornecer cobertura de televisão e propaganda, quando outros Democratas ficam em silêncio."

Os assessores de Kerry admitem que se viram em difícil situação neste mês, mas negam ter baseado suas decisões no que esperavam de grupos de fora. "O cálculo do nosso lado era, independentemente do que os outros estivessem fazendo, tentaríamos estar presentes de forma significativa no final", disse Tad Devine, assessor de Kerry.

Sobre a ajuda dos grupos externos, Devine disse: "Evitei discussões públicas ou privadas sobre o que outras pessoas estão fazendo; há leis muito sérias envolvidas."

Moran disse que tinha chegado até a parar de sair com colegas do partido ou do comitê. "Estou em uma trincheira", disse ela. "É uma existência solitária, mas é onde estamos neste momento." Enquando o candidato economiza, seus aliados pagam anúncios Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host