UOL Notícias Internacional
 

10/08/2004

Notícias de emprego são manipuladas nos EUA

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
Quando o decepcionante relatório do emprego foi divulgado na última sexta-feira (6/8), corretores em Chicago começaram a entoar: "Kerry, Kerry". Mas apologistas das políticas econômicas do presidente Bush estão manipulando freneticamente as más notícias. Aqui está um guia para suas técnicas.

Primeiro, eles falam sobre os recentes aumentos no número de empregos, não o fato de que o emprego em folha de pagamento ainda está bem abaixo do seu pico anterior, e ainda mais baixo do que qualquer coisa que alguém poderia chamar de pleno emprego.

Como o crescimento do emprego finalmente se tornou positivo, alguns economistas (que provavelmente sabem mais que isto) alegam que a prosperidade voltou -e alguns partidários do governo até mesmo alegam que temos a melhor economia em 20 anos.

Mas o crescimento do emprego, por si só, não fala nada de prosperidade: o crescimento pode ser maior em um ano ruim do que em um ano bom, se o ano ruim vier após um ano terrível enquanto o ano bom vier após outro ano bom.

Eu tracei um gráfico do crescimento do emprego nos anos 30; houve um rápido crescimento do emprego não-rural (8,1%) em 1934, um ano de desemprego em massa e miséria disseminada -mas aquele ano foi ligeiramente menos terrível do que 1933.

Assim, nós voltamos à prosperidade? Não: empregos estão mais difíceis de ser encontrados, segundo qualquer medida, do que em qualquer ponto durante o segundo mandato de Bill Clinton. A situação do emprego pode ter melhorado ligeiramente no ano passado, mas ainda não está boa.

Segundo, os apologistas fornecem números sem contexto. O presidente Bush se gaba sobre 1,5 milhão de novos empregos ao longo dos últimos 11 meses. Mas isso mal deu para acompanhar o crescimento populacional, e é pior do que qualquer intervalo de 11 meses durante os anos Clinton.

Terceiro, eles escolhem a dedo quaisquer bons números que puderem encontrar.

A notícia chocante de que a economia adicionou apenas 32 mil novas vagas de trabalho em julho vem dos dados das folhas de pagamento. Os especialistas dizem o que Alan Greenspan disse em fevereiro: "Tudo o que olhamos sugere que os dados das folhas de pagamento são os que vocês devem seguir".

Outra medida do emprego, a partir da pesquisa doméstica, flutua erraticamente; por exemplo, ela caiu em 265 mil em fevereiro, um resultado no qual ninguém acreditou. Mas como o número doméstico de julho foi bom, repentinamente as autoridades do governo passaram a dizer aos repórteres para olharem para tal número, e não para o mais confiável dado das folhas de pagamento.

A propósito, a longo prazo, todos os dados disponíveis contam a mesma história: a situação do emprego deteriorou drasticamente entre o início de 2001 e o verão de 2003 e, na melhor das hipóteses, melhorou modestamente de lá para cá.

Quarto, os apologistas tentam transferir culpas. As autoridades geralmente alegam, falsamente, que a recessão de 2001 começou durante o governo Clinton, ou pelo menos foi em parte culpa dele.

Mas mesmo se você atribuir a Clinton a recessão de oito meses que começou em março de 2001 -uma proposição muito duvidosa- a perda de emprego durante a recessão não foi excepcionalmente severa. O motivo para o quadro do emprego parecer tão ruim agora é a fraqueza sem precedente do crescimento do emprego na recuperação subseqüente.

Nem é plausível continuar atribuindo a fraca performance da economia ao terrorismo, três anos depois de 11 de setembro.

Tenha em mente que no Relatório Econômico do Presidente de 2002, os próprios economistas do governo previram uma recuperação plena até 2004, com o emprego em folha de pagamento crescendo para 138 milhões, 7 milhões a mais do que o número de fato.

Finalmente, muitos apologistas retomaram o velho recurso: a alegação de que o presidente não controla a economia. Mas isso não é o que o governo disse quando vendeu suas políticas tributárias.

O corte de impostos do ano passado foi batizado oficialmente de Lei de Reconciliação do Alívio de Impostos e Emprego e Crescimento de 2003 -e os economistas do governo forneceram uma animada projeção do crescimento do emprego que ocorreria após a aprovação do projeto de lei. Tal projeção provou ser, nem seria preciso dizer, extremamente otimista.

O que acabamos de ver é o maior teste da economia de filtração que já vimos. Por duas vezes, em 2001 e 2003, o governo insistiu que um corte de impostos altamente voltado para os ricos era exatamente o que a economia necessitava. As autoridades rejeitaram os apelos para dar o alívio às famílias de renda média e mais baixa, que mais provavelmente gastariam o dinheiro, e para os governos estaduais e municipais carentes de recursos.

Dados os resultados atuais -déficits imensos, mas crescimento mínimo do emprego- você não gostaria que o governo tivesse escutado aquele conselho?

Ah, e em uma nota não-política: mesmo antes do relatório melancólico de sexta-feira sobre o emprego, eu não entendia a ansiedade de Greenspan em começar a elevar as taxas de juros. Agora é que eu não entendo mesmo sua política. Partidários de Bush tentam esconder o seu fiasco na economia George El Khouri Andolfato

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