UOL Notícias Internacional
 

13/08/2004

Bush quer cobrar imposto só sobre os salários

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
Uma nova propaganda de campanha de Bush insiste no tema "sociedade de posse" e termina com a seguinte declaração do presidente: "Eu entendo que se você possui algo, então tem um interesse vital no futuro dos Estados Unidos".

Posso ser ingênuo, mas eu achava que todos os norte-americanos tivessem um interesse vital no futuro do país, não importando quantos bens possuíssem (será que deveríamos retroceder àqueles tempos em que os Estados, argumentado que apenas os homens suficientemente abastados eram dignos de confiança, impunham qualificações de posse para permitir que os indivíduos votassem?).

Ainda que Bush esteja falando sobre o futuro econômico, será que os trabalhadores não possuem tanto interesse quanto os proprietários no sucesso econômico do país?

Mas há um imperativo político por trás desse tema da "sociedade de posse": a necessidade de fornecer uma fachada populista a políticas que são, na realidade, altamente elitistas.

É claro que os cortes fiscais de Bush favoreceram intensamente os indivíduos extremamente ricos. Mas elas também beneficiam, mais especificamente, os rendimentos financeiros, em detrimento dos salários.

No ano passado Daniel Altman observou aqui em The New York Times que, caso fossem integralmente adotadas, as propostas de Bush "poderiam eliminar quase todos os impostos sobre os lucros oriundos de investimentos financeiros e sobre a riqueza para quase todos os norte-americanos".

Bush ainda não conseguiu tudo o que deseja, mas ele avançou bastante rumo a um sistema no qual somente a renda oriunda do trabalho será alvo de impostos.

O problema político com uma política que favorece os lucros com investimentos em detrimento dos salários é o fato de a grande maioria dos norte-americanos obter os seus rendimentos primariamente de salários, e a quase totalidade das rendas com investimentos se destinar a uma pequena elite.

Como, então, tal política pode ser defendida perante o eleitorado?

Com a promessa de que todo mundo é capaz de fazer parte dessa elite.

Neste momento, a posse de ações e títulos está altamente concentrada. Os conservadores gostam de lembrar que a maioria das famílias norte-americanas possui atualmente ações, mas tal estatística é enganosa, já que a maioria desses "investidores" tem participação muito reduzida no mercado.

O Departamento de Orçamento Congressual calcula que mais da metade dos lucros corporativos é embolsado por 1% dos contribuintes, os mais ricos, enquanto que apenas 8% do montante total ficam com os 60% menos favorecidos economicamente.

Se a "sociedade de posse" tem algum significado, ela pode ser interpretada como uma maior distribuição das rendas oriundas de investimentos --uma meta louvável, caso seja possível atingi-la.

Mas será que Bush tem uma fórmula para nos conduzir rumo a essa meta?

Há um trecho no blog da sua campanha sobre a sociedade de posse, mas não há muitos detalhes. Grande parte do espaço é dedicado a novos tipos de cadernetas de poupança protegidas de impostos.

As pessoas que pesquisaram tais planos de investimentos sabem, no entanto, que eles proporcionariam maior proteção contra impostos para os ricos, mas que seriam irrelevantes para a maioria das famílias, que já tem acesso aos investimentos 401(k) (um tipo de plano de aposentadoria).

A capacidade dessas famílias para investir mais é limitada não só pelos impostos, mas pelo fato de elas não ganharem o suficiente para poupar mais.

A única proposta significativa é uma ruptura com o passado: uma nova proposta para a privatização parcial do Social Security (previdência social dos Estados Unidos), que direcionaria os impostos de renda para as contas correntes pessoais.

Bush defendeu essa proposta na campanha de 2000, mas nunca a colocou em prática. E há um motivo para que essa idéia não tenha chegado a lugar algum: Ela não faz sentido.

O Social Security é, basicamente, um sistema no qual cada geração paga a aposentadoria da geração anterior. Se os impostos de renda dos trabalhadores mais jovens forem direcionados para contas correntes privadas, haverá um enorme buraco financeiro: quem pagará os benefícios dos norte-americanos mais velhos, que passaram a sua vida trabalhista financiando o atual sistema? A menos que haja uma forma de tapar esse buraco multitrilionário, a privatização é apenas um slogan vazio, e não uma proposta realista.

Em 2001, a comissão escolhida por Bush para lidar com o Social Security foi incapaz de chegar a um acordo quanto a um plano para a criação de contas privadas porque não havia forma de solucionar os problemas de matemática financeira envolvidos.

Inabalável, neste ano o comitê da campanha de Bush insistiu novamente em dizer que a privatização criará um "sistema de Social Security permanentemente fortalecido, sem modificar os benefícios para aqueles que estão aposentados ou próximos de se aposentar, e sem elevar os impostos de renda dos trabalhadores". Em outras palavras, dois menos um igual a quatro.

Quatro anos atrás, o "plano" de Bush para o Social Security foi aceito sem críticas pela imprensa, fosse porque os repórteres não compreenderam a aritmética envolvida, ou pelo fato de assumirem que após a eleição ele apresentaria um plano que realmente funcionasse. Será que a mesma coisa tornará a acontecer? Vamos torcer para que não.

Conforme disse Bush: "Me enganaram uma vez. Que vergonha! Não serei enganado novamente". Propostas do presidente só beneficiam as elites norte-americanas Danilo Fonseca

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