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15/08/2004

Região do interior dos EUA simboliza polarização

The New York Times
Monica Davey

Em Milwaukee
Mirna Zavala, uma profissional de saúde de 53 anos, é o tipo de eleitora que pode influenciar a eleição presidencial em Wisconsin. Pergunte quem ela prefere e ela instantaneamente expõe todas suas incertezas sobre o que está acontecendo no Iraque, dúvidas que ela espera que durarão até novembro.

"Honestamente, eu não sei o que fazer", disse Zavala enquanto caminhava perto do Lago Michigan segurando a mão de sua jovem neta. Zavala votou em George W. Bush em 2000 e disse que seus parentes ainda o adoram. Mas nunca está distante de seu pensamento o fato de seu genro ser um soldado, e assim sua incerteza continua crescendo.

"Agora, quando olho para a situação, eu acho que Bush enganou o povo sobre o Iraque, e me sinto triste por todas as famílias, por todos aqueles soldados que tiveram que morrer", disse ela. "Mas também não sei o que Kerry faria a respeito", se referindo ao senador John Kerry, o candidato democrata à presidência. Zavala parou, e então finalmente disse: "Eu acho que só posso esperar para ver o que acontecerá".

Aí reside uma complicação central para as campanhas, enquanto lutam por um Estado que deu a Al Gore apenas um apoio ligeiramente maior do que para Bush quatro anos atrás. Dos bairros de classe operária em Racine, no sudeste, até as colinas cobertas de pinheiros e samambaias próximas do Lago Superior, os eleitores falam de fábricas que foram fechadas, escolas carentes de dinheiro e planos de saúde fora do alcance.

Mas muitos parecem concentrados no papel dos Estados Unidos no Iraque, e a questão divide o Estado. Em junho, a Pesquisa Badger, conduzida pelo Centro de Pesquisa da Universidade de Wisconsin para os jornais "The Milwaukee Journal Sentinel" e "The Capital Times", revelou que 26% dos entrevistados consideram como um sucesso total ou quase total a forma como o governo está lidando com o Iraque, enquanto 44% consideram um sucesso "apenas parcial" e 27% consideram um fracasso total ou quase total.

E diferente de muitos outros temas políticos, onde os partidos podem controlar os termos do debate, o conflito no Iraque está sempre mudando, e provavelmente continuará assim até a eleição e além.

"Isto é o que torna esta questão tão difícil para ambos os lados: muito depende de eventos que ainda não aconteceram", disse G. Donald Ferree Jr., diretor associado de pesquisa de opinião pública do Centro de Pesquisa da Universidade de Wisconsin. "E cada lado está preso no mesmo problema."

O número de baixas daqui, disseram oficiais militares, é proporcionalmente igual ao de outros Estados, e como em toda parte, a guerra afetou Wisconsin de formas profundamente pessoais.

Em julho, Rhinelander, uma pequena cidade de Northwoods, em um Estado composto em grande parte por cidades pequenas, enterrou o sargento Stephen Martin, um reservista do Exército e policial que patrulhava a comunidade de bicicleta. Em abril, as pessoas daqui assistiram uma família suburbana de Milwaukee enfrentar um dilema difícil em público: após uma irmã, Michelle M. Witmer, uma especialista de 20 anos da Guarda Nacional, ter sido morta, as duas outras alistadas na Guarda tiveram que escolher entre voltar ou não para o Iraque. (Eles optaram por não.)

Mais de 70 outros moradores de Wisconsin voltaram para casa feridos, 19 foram mortos e muitos outros descobriram que seu serviço foi prorrogado.

O governador James E. Doyle, um democrata e diretor da campanha de Kerry aqui, disse que sente que a fé no governo Bush está cedendo. "Nós queremos acreditar que os jovens homens e mulheres que morreram, nossos filhos e filhas de Wisconsin, o fizeram por um propósito digno", disse Doyle, "assim eu acho que as pessoas em Wisconsin querem dar ao presidente o beneficio da dúvida na questão da guerra".

"Mas eu acho que há dúvidas significativas que estão crescendo, dúvidas entre as pessoas sobre se isto realmente valeu a pena e, novamente, a visão é mais ou menos esta: qual foi seu propósito, ele nos deixou mais seguros indo ao Iraque, será que valeu a pena a terrível perda que sofremos?"

Rick Graber, o presidente do diretório estadual republicano, rebateu dizendo que ele ouve elogios a Bush em questões como segurança e guerra. "A maioria das pessoas neste Estado acredita que estamos em um mundo mais seguro sem Saddam Hussein e acredita que o presidente Bush tem agido bem", disse Graber.

Há quatro anos, Gore venceu em Wisconsin por tão poucos votos que todos os políticos daqui lembram do número final: 5.708.

Tal diferença minúscula -dois décimos de um ponto percentual- garantiu a atenção das campanhas enquanto ambos os lados buscam os 10 votos eleitorais do Estado. Propagandas políticas já tomam as emissoras de televisão, dezenas de milhares de voluntários de cada campanha estão ocupados dando telefonemas, e ambos os candidatos, com escritórios e equipes remuneradas aqui, continuam voltando.

Na maior parte das vezes os democratas se saem bem nas duas maiores cidades do Estado, Madison e Milwaukee, onde há muitos liberais e algumas das maiores concentrações do Estado de eleitores hispânicos e negros. Os republicanos tendem a se sair bem nos subúrbios ricos de Milwaukee.

Ambos os lados estão se voltando para as cidades pequenas que se espalham pela divisa oeste do Estado, ao longo das margens do Mississippi, onde Gore se saiu bem em 2000, mas onde os republicanos agora esperam conquistar os eleitores rurais. E ambos os lados estão lutando no Vale do Rio Fox -uma trecho no leste do Estado que está crescendo rapidamente e que inclui Green Bay e Appleton- e em locais como Racine County, um dos condados que, como o Estado em um todo, se dividiram igualmente quatro anos atrás.

Mas de certa forma, a luta está por toda parte. Como dizem os agentes políticos, um único voto mudado em cada distrito em 2000 poderia ter mudado o resultado aqui.

Assim, em uma manhã no centro de Milwaukee, os jovens membros da Liga dos Eleitores Preservacionistas -um dos vários grupos independentes atraindo a atenção dos eleitores de Wisconsin em prol das causas e candidatos- realizaram uma manifestação a favor de Kerry em uma esquina. Os voluntários então marcharam de porta em porta para conversar sobre o que consideram a nota "F" de Bush em meio ambiente em um Estado conhecido por seus lagos, ribeirões e fazendas; a intenção deles é visitar três vezes 150 mil lares de Wisconsin antes da eleição.

Enquanto isso, uma mulher de Milwaukee passa, segundo ela, quase 40 horas por semana trabalhando como voluntária para a campanha de Bush. O site oficial da campanha de Bush exibe a mulher, Kari Rae (ela não usa seu nome completo para evitar telefonemas indesejados), como a voluntária "Nº 1" em todo o país, por ter, segundo ele, recrutado 227 voluntários, alistado 5 amigos, contatado 294.488 pessoas para se registrarem para votar, telefonado para 89 programas de rádio e escrito 21.288 cartas para editores de notícias.

"Eu estou comprometida com este presidente", disse Kari Rae, 52 anos.

Nenhum candidato presidencial republicano venceu em Wisconsin desde Ronald Reagan em 1984, mas isto pode representar menos do que em outros lugares. As políticas partidárias são complicadas aqui. Desde os dias de Robert M. LaFollette, o governador republicano deste Estado e líder do movimento progressista há um século, os eleitores de Wisconsin costumam se definir como independentes: eles alegremente dividem chapas e raramente adotam um partido político em particular apenas por lealdade.

Apesar dos dois senadores do Estado serem democratas, os membros do Estado na Câmara estão divididos igualmente entre os partidos, e os republicanos dominam ambas as casas do Legislativo em Madison. Por ora, a maioria das pesquisas no Estado mostram Bush e Kerry praticamente empatados.

Além da situação no Iraque, um tema crítico para ambos os partidos é a percepção da economia pelos eleitores. Entre janeiro de 2001 e janeiro de 2004, Wisconsin, um Estado com forte base manufatureira, perdeu 79 mil vagas de trabalho em fábricas. Então veio a surpreendente notícia em junho dos estatísticos do trabalho do Estado: diferente de outros Estados indefinidos com base manufatureira, Wisconsin começou a ver um crescimento de novos empregos.

Os republicanos apontaram para as 20.900 novas vagas no setor desde janeiro como evidência de uma tendência crucial e otimista para novembro.

"A economia está se saindo melhor", disse Tony V. Nestoras, um programador de computador de 40 anos dos subúrbios de Milwaukee. "E Bush merece pelo menos algum crédito por isso. Quem sabe onde estaríamos se Gore tivesse vencido."

Mas alguns trabalhadores questionaram a qualidade dos novos empregos. "Nós estamos falando de trabalhos de baixa remuneração e sem benefícios", disse Susan Conhartoski, 32 anos, de South Milwaukee, cujo marido, John, está desempregado há um ano.

David E. Azarian, o proprietário da Main Street General Store em Racine por 25 anos, disse que suas vendas estão caindo pelo terceiro ano consecutivo. "Diga o que quiser, mas eu digo que a economia está péssima", disse Azarian, 60 anos.

Os democratas esperam que a escolha do senador John Edwards como companheiro de chapa de Kerry ajude a chapa. Nas eleições primárias em Wisconsin, Edwards fez forte campanha e apresentou uma forte votação em segundo lugar. "Edwards ajuda", disse Jon Di Piazza, um eleitor indeciso de Middleton. "Ele se saiu bem aqui."

Enquanto isso, Ralph Nader continua sendo uma incógnita para os democratas. Nader conquistou 94 mil votos -cerca de 4%- em 2000, e provavelmente não terá problemas para entrar na cédula como independente: apenas 2 mil assinaturas são necessárias até o prazo de 7 de setembro.

O senador Russell D. Feingold, um democrata considerado por alguns como sendo um na longa linhagem de políticos independentes de Wisconsin, também enfrenta uma disputa neste ano, potencialmente complicando a corrida presidencial.

Quatro republicanos estão disputando a chance de tentar tomar o lugar de Feingold, e alguns líderes republicanos dizem que esperam transformar em tema seu voto solitário no Senado contra a ampla legislação antiterrorismo conhecida como Lei Patriota.

Ainda assim, os eleitores continuam se voltando para o Iraque. Em Appleton, ao lado do Rio Fox no lado leste do Estado, as opiniões sobre a guerra estão extremamente divididas.

Comendo em um café no centro, Angie Schiesl, uma cabeleireira, disse não se importar com a descoberta de que a inteligência utilizada para justificar a guerra contra o Iraque foi falha.

"Algo tinha que ser feito com Saddam Hussein", disse Schiesl, 41 anos, que disse que votou em Bush em 2000 e o fará de novo. "As armas de destruição em massa não importam."

A um quarteirão dali, Brad Lindert, 21 anos, disse que a guerra provavelmente é o tema mais importante na eleição para ele.

"Eu ainda não consigo entender o que estamos fazendo lá", disse Lindert, que votará em Kerry. "Eu não sei o que Kerry fará a respeito. Eu não sei o que alguém pode fazer a respeito. Mas a esta altura, eu não gosto do que Bush está fazendo." Gore venceu por apenas 5.708 votos em 2000 em Wisconsin George El Khouri Andolfato

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