UOL Notícias Internacional
 

16/08/2004

Eleitores hostilizam Nader com medo de Bush

The New York Times
Mireya Navarro

Em Los Angeles
Há quatro anos Robin Taylor estava entre as milhares de pessoas que aclamavam Ralph Nader no "supercomício" do candidato em Long Beach, quando faltavam apenas alguns dias para a eleição presidencial. O apresentador de televisão Phil Donahue discursou, o músico Jackson Browne cantou e Taylor usava um button que dizia simplesmente "Ralph".

"O evento me entusiasmou", conta ela. "Havia esperança de uma alternativa política. Todos respeitavam o espaço obtido por Nader".

Mas aqueles eram outros tempos.

Neste ano o Partido Verde virou as costas a Nader, as celebridades não são mais encontradas nos eventos da sua campanha e Michael Moore, o documentarista que antigamente era conhecido como um apoiador entusiasmado de Nader, ficou de joelhos em um recente programa de televisão, suplicando a Nader que desistisse de sua candidatura.

Neste mês, Nader não conseguiu assinaturas suficientes para ter direito a participar da eleição na Califórnia, e Taylor, 39, professora de jardim de infância em Los Angeles, diz saber por que. Como integrante do grupo de voluntários para a coleta de assinaturas em shopping centers e festivais de rua, ela diz ter sido xingada, ameaçada e chamada de "ingênua" e de "estúpida" por democratas que a culparam por arruinar as chances de Al Gore vencer a eleição presidencial de 2000 - e por aquilo que eles vêem como as guerras, reduções de impostos e outras ações nefastas resultantes da vitória de Bush.

Até mesmo os cabos eleitorais pagos desistiram após alguns dias porque "estavam sendo xingados e não ganhavam dinheiro", diz Forrest Hill, coordenador da campanha de Nader no norte da Califórnia.

"Me perguntaram se eu não me sentia culpada pelas vidas perdidas no Iraque", conta Taylor.

A resposta foi não, mas ela e outros seguidores de Nader dizem que neste ano eleitoral está mais difícil do que nunca sair às ruas e fazer propaganda para o candidato com orgulho. Os adversários chamam Nader - que é considerado por seus correligionários como o único que não está ligado aos interesses das corporações e tido como defensor dos consumidores, crianças e trabalhadores norte-americanos - de "idiota", "egomaníaco" e "sabotador". Os apoiadores de Nader dizem que deixaram de ser convidados para casamentos e bar-mitzvás da família por terem posição contrária à guerra.

"O meu irmão diz que só me vê porque os meus sobrinhos sentem a minha falta. Ele diz que eu não deveria dar aulas para as crianças do sistema público de ensino", diz Taylor.

Muita gente, como Taylor e o marido, Jeff Lyons, 47, designer gráfico da indústria musical, não abrem mão de sua posição política e ainda usam buttons do seu candidato como se fossem medalhas de honra. Alguns apoiadores de Nader atribuem a atmosfera política venenosa às iniciativas organizadas e amplamente divulgadas do Partido Democrata no sentido de esmagar a campanha de Nader.

Mas vários correligionários de Nader em todo o país ficaram em silêncio. Jim Musselman, presidente e fundador da Appleseed Recording, em West Chester, Pensilvânia, uma gravadora independente que trabalha com músicas políticas e folclóricas, diz que após a última eleição passou a evitar qualquer discussão política e que muda educadamente de assunto para não dar a ninguém a impressão de descarregar a fúria contra ele. Em 2000 ele ajudou a recrutar celebridades para a participação em alguns comícios e shows para a arrecadação de verbas para a campanha de Nader, mas após a vitória de Bush, alguns artistas não quiseram mais trabalhar com a sua gravadora.

Mas Musselman, cuja companhia divulgou a versão de "We Shall Overcome" de Bruce Springsteen, disse que o seu plano de ficar à margem do processo político foi suspenso há pouco tempo, quando soube das iniciativas dos democratas para manter o nome de Nader fora das urnas na Pensilvânia. Na semana passada ele mandou uma mensagem via e-mail para 200 personalidades da indústria musical, alertando-as para aquilo que considera um assédio antidemocrático.

"Decidi que haviam ultrapassado o limite", afirma. "Se podemos escolher um entre sete tipos diferentes de coca-cola no supermercado, por que ficamos restritos a duas opções para presidente?".

Embora esteja novamente animado, Musselman ainda está muito longe de colocar um adesivo de Nader no pára-choque do seu carro.

"Há muita indignação equivocada neste momento", diz Musselman. "É como se estivéssemos passando por uma espécie de McCarthyismo liberal".

Os eleitores de Nader garantem que vários dos seus críticos são pessoas que concordam com os princípios defendidos pelo candidato, e que até votariam nele há alguns anos, mas que agora estão dispostos a sacrificar seu idealismo para ajudar a derrotar Bush.

"Essas pessoas me aconselham a ser realista, dizem que agora não é o momento de optar por Nader", diz Bill Neal, 36, professor de ensino médio em San Fernando Valley e cabo-eleitoral de Nader. "Sabe de uma coisa? Tal momento jamais chegará, a menos que optemos agora".

Um dos que desertaram da campanha de Nader, Jason Salzman, publicitário de Denver que tenta converter colegas "naderitas" em eleitores de John Kerry apenas nesta eleição por meio da propaganda no seu web site, www.repentantnadervoter.com, diz que a sua opção política mudou no primeiro dia que bombas norte-americanas caíram sobre o Iraque. Sentindo-se culpado, ele colou no carro um adesivo com os dizeres, "Eleitor de Nader Arrependido".

Segundo Salzman é inegável que, caso Nader não tivesse disputado as eleições, Bush poderia ter sido derrotado em 2000. Ele discorda veementemente dos correligionários de Nader que argumentam que o candidato atrai os votos daqueles eleitores que não votariam em ninguém, ao invés de tirar votos dos democratas.

"A nossa posição é que ele não deveria disputar a eleição", afirma. "Não vale a pena correr tal risco".

Nader tem se apresentado como um candidato alternativo que pede uma retirada rápida do Iraque e que se concentra em questões que segundo ele são ignoradas pelos outros candidatos, tais como a necessidade de aumentos salariais para os trabalhadores de tempo integral. Ele quer neste ano ampliar o número de Estados nos quais poderá participar das eleições. Em 2000, Nader conseguiu concorrer nas urnas de 42 Estados e no Distrito de Colúmbia.

Mas os seus simpatizantes de todo o país reclamam de um ataque cerrado por parte do Partido Democrata, que inclui tentativas de impugnar a sua candidatura em certos Estados.

"Trata-se de um ataque sem precedentes", diz Carl Mayer, advogado e assessor da campanha de Nader em Princeton, Nova Jersey. "As reclamações e queixas dos democratas devido à forma como, segundo eles, Ralph causou a derrota de Gore em 2000 são incessantes".

Em uma manifestação contrária a Bush em Santa Monica na última quinta-feira, alguns democratas confrontaram correligionários de Nader, afirmando que estes estão fazendo o jogo dos republicanos, muitos dos quais estão financiando a campanha do candidato independente.

Os ataques, combinados à ameaça de uma eleição tão apertada quanto a de 2000, estão gerando conseqüências. Até mesmo Gret Bates, editor de Maine que escreveu o recém-divulgado manifesto, "Ralph's Revolt: The Case for Joining Nader's Rebellion" ("A Revolta de Nader: Argumentos para a Participação na Rebelião de Nader"), diz que votar segundo a consciência em Estados disputados, que podem determinar se Kerry ganhará ou não, passou a ser uma decisão difícil.

"Moro em um Estado onde a eleição será muito disputada e, portanto, tenho um pouco mais de responsabilidade", afirma.

As similaridades entre republicanos e democratas estão entre os motivos pelos quais os correligionários de Nader dizem que neste ano vão militar a despeito de todos os revezes. Eles dizem ainda que desejam construir um terceiro partido que proponha uma mudança no sistema, e não só na administração, e que um dia tenha chances de disputar com os dois grandes partidos.

E estão furiosos com o fato de os democratas estarem fazendo deles bodes expiatórios.

"Eles estão preocupados com 3% dos votos?", questiona Hill, o coordenador de campanha no norte da Califórnia. "Eles deveriam se preocupar com outras coisas".

Na Califórnia, um bastião democrata onde Kerry tem uma dianteira de mais de 10% sobre Bush, o comitê de campanha de Nader diz que está estudando várias opções. Os seus correligionários no Estado estão neste momento se reagrupando para uma campanha acirrada e dizem que podem conquistar determinados grupos, tais como os jovens que participam de concertos e operários em comunidades minoritárias, que estão se mostrando receptivos à sua mensagem.

Mas no atual clima hostil, até mesmo os mais aguerridos apoiadores de Nader têm evitado confrontos. Em uma reunião do Sierra Club, Lynda Hernandez, coordenadora da campanha de Nader, disse que ficou em silêncio quando membros do clube começaram a criticar Nader e sua candidatura.

"Eles estavam realmente furiosos", conta ela. "Fiquei com medo". Resultado de 2000 é atribuído ao candidato independente Danilo Fonseca

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