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17/08/2004

Bush diz que pretende retirar tropas do exterior

The New York Times
Elisabeth Bumiller*

Em Cincinnati, Ohio
O presidente Bush disse nesta segunda-feira (16/08) que nos próximos dez anos o Pentágono vai retirar cerca de 70 mil soldados da Europa e da Ásia, no maior realinhamento das forças armadas norte-americanas desde o fim da Guerra Fria.

Em um discurso na convenção dos Veteranos de Guerras Estrangeiras em Ohio, Estado onde o combate político é intenso, o presidente disse que o reposicionamento criaria forças armadas mais flexíveis, que estariam mais bem localizadas para combater o terrorismo.

Embora o evento desta segunda tenha sido visto como a revelação formal do plano, a maior parte dos detalhes já havia sido divulgada no início de junho, após a proposta ter circulado entre os aliados europeus e asiáticos.

Segundo Bush, parte das tropas será trazida para casa, enquanto outra será enviada para locais mais próximos à ameaça terrorista --principalmente no Oriente Médio e na Ásia Central, assim como no Sudeste da Ásia.

O governo já está assinando acordos para contar com direitos mais amplos de acesso e privilégios temporários para manter bases militares em nações próximas aos pontos que se acredita serem abrigos ou núcleos terroristas.

"Durante décadas as forças armadas dos Estados Unidos no exterior permaneceram essencialmente nos locais em que terminaram as guerras do século passado, na Europa e na Ásia", disse Bush a uma multidão entusiasmada de veteranos e suas famílias no Centro Cinergy Dr. Albert B. Sabin de Cincinnati.

"O atual posicionamento das forças dos Estados Unidos foi elaborado, por exemplo, para nos proteger, e aos nossos aliados, da agressão soviética. Essa ameaça não existe mais".

O reposicionamento afetará um número adicional de 100 mil pessoas, entre soldados e seus familiares, mas não atingirá no momento as tropas que estão no Iraque e no Afeganistão.

O anúncio feito por Bush, em um Estado onde a eleição será disputada, e que a Casa Branca identificou como sendo essencial para que o presidente tenha chances de se reeleger, esteve carregado de conotações políticas.

O discurso é parte de uma estratégia que tem em vista a Convenção Nacional Republicana, para promover o desempenho de Bush quanto à questão de segurança nacional, que, segundo as pesquisas, se constitui no seu grande trunfo contra seu adversário democrata, senador John Kerry.

Kerry, um veterano de combate no Vietnã, falará na convenção dos veteranos nestaa quarta-feira (18). Bush, que à época da Guerra do Vietnã não participou de combates, tendo servido nos Estados Unidos, na Guarda Nacional Aérea do Texas, atacou Kerry diversas vezes, afirmando que o adversário é fraco para lidar com a questão da defesa.

"É importante mandar os sinais corretos quando falamos aqui nos Estados Unidos", disse Bush. "Outro dia o meu adversário disse que se for eleito, o número de soldados no Iraque será significativamente reduzido dentro de seis meses. Acho que isso é enviar o sinal errado. É enviar o sinal errado ao inimigo, que pode facilmente aguardar seis meses e um dia. É enviar o sinal errado às nossas tropas, que acharão que pode não ser necessário completar a missão. É enviar a mensagem errada ao povo iraquiano, que se pergunta se os Estados Unidos vão realmente honrar as suas promessas".

Kerry disse que tentará retirar parte das tropas do Iraque durante os seus seis primeiros meses na presidência, mas propôs que sejam criadas mais 40 mil vagas no Exército e defendeu a expansão das forças de operações especiais de elite.

Nesta segunda-feira, o seu comitê de campanha atacou os planos de reposicionamento de tropas proposto por Bush, alegando que são perigosos e politicamente motivados, e disse que a medida enfraqueceria o relacionamento dos Estados Unidos com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

"Retirar as forças da Europa é algo que vai minar ainda mais as relações já estremecidas com os antigos aliados da Otan, e que será interpretado como um distanciamento da organização, prejudicando as tentativas de encorajar uma maior participação da Otan no Iraque", disse o general Wesley Clark, em uma declaração no Comitê Nacional Democrata.

Clark, que foi o supremo comandante aliado da Otan durante a campanha de bombardeio em Kosovo, em 1999, desistiu de ser candidato à presidência pelo Partido Democrata no início deste ano.

A Casa Branca divulgou poucos detalhes novos a respeito do plano de reposicionamento de tropas, mas funcionários graduados do Pentágono disseram nesta segunda-feira que a maior parte da redução de tropas na Europa estará centrada no retorno de duas grandes divisões atualmente sediadas na Alemanha.

Um alto funcionário do Departamento de Estado disse nesta segunda-feira que a redução das tropas norte-americanas na Ásia "não seria muito drástica", mas oficiais militares e funcionários do Pentágono se negaram a fornecer maiores detalhes.

O Pentágono já anunciou a transferência, atualmente em andamento, de uma brigada da Coréia do Sul para o Iraque, uma medida que reduzirá em cerca de um terço o contingente norte-americano na Coréia do Sul.

Tal transferência, que ocorre no mesmo momento em que os Estados Unidos procuram pressionar a Coréia do Norte a abandonar o seu programa de armas nucleares, também foi alvo das críticas de Clark.

"A remoção de forças norte-americanas da península coreana em um momento crítico para as iniciativas diplomáticas no sentido de desmantelar o programa nuclear norte-coreano soará a Kim Jong Il como um sinal perigoso de debilidade da determinação norte-americana", disse Clark, referindo-se ao líder norte-coreano.

O secretário de Defesa Donald H. Rumsfeld disse aos jornalistas no último domingo que todo o processo de reposicionamento levará seis anos, e que ele discutiu intensamente esse plano no último fim de semana em São Petersburgo com o ministro da Defesa da Rússia, Sergei B. Ivanov. Rumsfeld disse ainda que os Estados Unidos não têm planos para montar bases permanentes nas ex-repúblicas soviéticas.

A reestruturação do posicionamento militar global dos Estados Unidos, que é discutida há anos, também prevê o fechamento de várias instalações menores na Europa, como medida de contenção de despesas.

O plano possui ainda um forte componente político doméstico. A mudança na distribuição militar global e a vinda de tropas de volta para casa coincidirá com uma nova rodada de iniciativas para fechar e consolidar bases nos Estados Unidos, um processo demorado, que deve encontrar forte oposição de personalidades políticas de expressão local e nacional dos distritos onde as bases poderão ser fechadas.

No seu discurso na convenção dos veteranos, Bush apresentou uma longa lista daquilo que segundo ele seriam os compromissos do governo com os veteranos, um grupo politicamente forte, que tanto o presidente quanto Kerry cortejam assiduamente.

O presidente disse que, quando o seu orçamento de 2005 for aprovado, ele terá aumentado as verbas destinadas aos veteranos desde 2001 em quase US$ 20 bilhões, ou 40%.

Bush disse ainda que o seu governo incluiu mais 2,5 milhões de veteranos em programas de saúde desde 2001, que deu início a um programa de US$ 35 milhões para fornecer moradias e tratamento médico aos veteranos sem lar e que estaria modernizando os centros de tratamento de veteranos idosos, além de construir novos centros.

"Os veteranos da nossa nação fizeram do serviço aos Estados Unidos a mais alta prioridade de suas vidas, e servir aos veteranos é uma das maiores prioridades da minha administração", disse Bush.

A campanha de Kerry respondeu que o discurso de Bush não passaria de retórica enganadora e de um verniz para encobrir o fracasso do governo nessa área. Phil Singer, porta-voz da campanha de Kerry, disse que o governo exerceu pressões pelo fechamento de hospitais de veteranos, além de obrigar os ex-combatentes a pagar preços mais altos pelos serviços de saúde.

Assessores da campanha de Kerry também divulgaram comentários que segundo eles foram feitos no início deste ano por Ed Banas, presidente do grupo Veteranos de Guerras Estrangeiras, a quem Bush agradeceu pelos seus serviços durante o discurso.

Segundo o comitê da campanha de Bush, Banas chamou o orçamento de 2005 do governo de "uma vergonha e uma farsa", e disse que "o que a administração está propondo aos veteranos é um jogo de ilusionismo".

Na tarde desta segunda-feira, Bush seguiu para Traverse City, no Estado de Michigan, onde discursou em um grande comício ao ar livre.

*Colaborou Thom Shanker, em Washington Democratas chamam medida de falta de compromisso com aliados Danilo Fonseca

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