UOL Notícias Internacional
 

18/08/2004

Cinema vira campo de batalha na guerra eleitoral

The New York Times
Jon Margolis*

Especial para o NYTimes
Pouco antes das primárias presidenciais de 1984, a revista "Newsweek" perguntou na capa: "É possível um filme ajudar a fazer um presidente?" com uma fotografia de Ed Harris, astro de "Os Eleitos - Onde o Futuro Começa". Harris fazia o papel de John Glenn, o primeiro americano a orbitar a Terra, em 1962, e que, como senador de Ohio, concorria à presidência nas primárias Democratas.

Nós que lembramos da era Glenn temos especial responsabilidade de falar sobre o impacto político da cultura popular.

A memória realmente parece ser curta. Antes de "Fahrenheit 9/11", houve "O Dia Depois de Amanhã", no qual o aquecimento global causava desastres improváveis, porém catastróficos. Ambientalistas consideraram o filme um alerta sobre a mudança climática global. Conservadores chamaram o filme de propaganda liberal.

"O Dia Depois de Amanhã" parecia muito com "O Dia Seguinte", filme de 1983 feito para a televisão sobre uma cidade do Kansas, depois de um ataque nuclear. Esse também gerou esperanças dos liberais e temores dos conservadores de que converteria o eleitorado em uma turma de pacifistas. Nenhum dos dois ficou muito tempo na mente do público.

Outro diretor, David O. Russell, está planejando apresentar um documentário de guerra no outono, junto com o relançamento do filme "Três Reis", com George Clooney, sobre a guerra do Golfo de 1991. Russel diz que espera influenciar as eleições.

Há poucas semanas, a refilmagem de "Sob o Domínio do Mal" evocou esperanças da esquerda e preocupação da direita de que o público associaria o governo Bush com os conspiradores corporativos do filme que tentam roubar a presidência.

O original de 1962 não teve, é claro, nenhuma conseqüência política, apesar de ter sido muito divertido. A cena mais marcante era da luta entre o major e o criado coreano. Mas todos sabiam que o sujeito na tela não era de fato o major Bennett Marco, oficial de combate treinado em artes marciais.

Era Frank Sinatra, o grande cantor que já tinha encarnado Angelo Maggio e Danny Ocean. Desta vez, Marco é Denzel Washington, e todos também o conhecem. Ele foi Malcolm X, Mighty Quinn e o detetive durão Alonzo Harris, em "Dia de Treinamento".

Apesar da atual variedade de filmes políticos e documentários, os grandes sucessos de verão provavelmente serão as continuações de animações do ano passado ou algum emocionante filme policial, que permitem que a platéia escape do mundo por um curto período.

Ainda é verdade que as pessoas vão ao cinema para se entreter, conscientes de que estão vendo um artifício, mesmo que não seja ficção. Guerras nucleares já eram impopulares antes de as pessoas assistirem "O Dia Seguinte" e poucos americanos precisavam de "O Dia Depois de Amanhã" para saber que o aquecimento global é verdadeiro. Convenhamos, o número de vezes que um filme alterou a opinião pública sobre qualquer assunto pode ser contado nos dedos.

De fato, se o mundo da cultura influenciar esta campanha, provavelmente será por atividade política e não por artifício cultural. Bruce Springsteen não está compondo uma música de apoio ao senador John Kerry; ele está fazendo campanha em seu favor e indicou que fará isso criticando as políticas de Bush, e não atacando o presidente pessoalmente. Springsteen parecer ser um analista político mais astuto que muitos analistas políticos.

Infelizmente, muitos analistas caíram na conjunção crescente da cultura popular com a academia e o jornalismo. Uma série de universidades promove cursos de cultura popular. Assim, fornece uma profusão de professores, felizes em conversar com os repórteres, que gostam de escrever histórias sobre o potencial político da cultura popular.

Com redes de notícias via cabo de 24 horas por dia, Internet, blogs e conversas no rádio, a tecnologia e a cultura popular foram consideradas veículos para revolucionar a política presidencial. Neste ciclo eleitoral, a Internet foi útil para levantamento de fundos e como instrumento de organização de Howard Dean.

Útil, mas insuficiente; até mesmo um bom instrumento não pode resgatar um candidato fraco. Noticiários via cabo e conversas de rádio são inconseqüentes; no máximo, ajudam a explicar o declínio geral da qualidade do jornalismo americano. Mas não elegeram ninguém.

E "Fahrenheit 9/11" também não vai, mesmo que seu DVD seja lançado no mês anterior às eleições. Os novos documentários sobre heróis de guerra no Iraque ou sobre Kerry também não vão. As pesquisas já mostraram que o impacto de "Fahrenheit" foi mínimo ou inexistente.

A maior parte de seu público era anti-Bush antes de entrar no cinema. Quem não era, tinha tanta chance de se enojar quanto de se converter. Um dos mais sábios consultores políticos, David Axelrod, observou que apesar de muitos eleitores indecisos estarem desapontados com Bush, poucos não gostam dele. Para eles, a polêmica grosseira de Moore pode se provar contraproducente.

Mesmo assim, esperançosos e preocupados cativaram a possibilidade que este filme ou outro influencie uma faixa do público eleitor. Pelo menos uma organização, "Move America Forward", parece ter nascido somente com o propósito de falar mal de "Fahrenheit 9/11".

Isso não quer dizer que a cultura popular não tenha impacto na postura individual. Por causa de um momento memorável no filme de Moore, as pessoas ainda estão falando sobre os poucos minutos enquanto Bush continuou lendo "The Pet Goat", com crianças na Flórida, depois que os aviões atingiram o World Trade Center.

Mas alguns eleitores talvez entendam o comportamento de Bush como uma pausa perfeitamente adequada, enquanto organizava seus pensamentos; de qualquer forma, o impacto político que a imagem pode ter é impossível de medir.

Campanhas são vencidas ou perdidas dependendo do que está acontecendo no mundo e da eficácia dos candidatos. A cultura popular é só um termo pós-moderno para entretenimento, que é muito mais divertido que a política, mas totalmente diferente.

*Jon Margolis foi repórter de política no Chicago Tribune. Porém, a eficácia dos filmes em influenciar os eleitores é discutível Deborah Weinberg

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