UOL Notícias Internacional
 

20/08/2004

Anarquistas ameaçam a convenção republicana

The New York Times
Randal C. Archibold

Em Nova York
Auto-intitulados anarquistas foram responsabilizados pela incitação à violência durante o encontro da Organização Mundial de Comércio em Seattle, em 1999, onde 500 pessoas foram presas e ocorreram muitos danos materiais. Eles foram acusados pela polícia de terem atirado pedras ou ameaçado os oficiais com substâncias líquidas em manifestações contra a convenção republicana de 2000, na Filadélfia, e em um encontro de cúpula econômico em Miami, no ano passado.

Agora, à medida que a Convenção Nacional Republicana está prestes a começar em Nova York, a polícia está se preparando para ações de um grupo obscuro e sem afiliação definida de manifestantes, o considerando o grande fator desconhecido para determinar se as manifestações permanecerão sob controle ou penderão para a violência e a desordem.

A cidade está tentando de tudo, desde dar aos manifestantes cupons de desconto até empregar um exército de policiais para impedir protestos violentos, e em uma demonstração de força realizada nesta quinta-feira (19/08), o departamento apresentou seu arsenal em uma exibição aos repórteres das técnicas que empregará durante a semana da convenção.

Mas até mesmo os anarquistas que são contra a violência estão alertando sobre possíveis problemas e admitem que estão planejando atos de desobediência civil, incluindo bloqueio de cruzamentos, a encenação de um "caos na Broadway" quando os delegados forem assistir a shows na Broadway no noite de domingo, uma encenação de morte em massa perto do Madison Square Garden, a invasão de festas e outros eventos e que buscarão importunar os 4.853 delegados e suplentes.

"É aqui onde grande parte dos negócios reais acontecem, o negócio de compra e venda de nossas leis pelo lance corporativo mais alto", dizia uma mensagem em uma lista de discussão na Internet na última terça-feira, que incluía os endereços de várias festas corporativas planejadas para o período da convenção. "Alvos excelentes para ações de rua! Por favor, divulguem a palavra."

Jamie Moran, o anarquista de 30 anos do Brooklyn que, com alguns poucos colegas, opera o site "RNC Not Welcome" (convenção nacional republicana não é bem-vinda) e a lista de discussão, se apresenta como a face moderada do movimento. Ele chama as sugestões da polícia de que poderão ser atacados de "incitação do medo" e tem pedido aos demais anarquistas que troquem suas roupas pretas e piercings por uma aparência mais convencional, mesmo que apenas para se misturarem melhor à multidão.

Como muitos anarquistas, ele desaprova a violência contra pessoas. Mas as coisas ficam menos claras quando se trata de propriedade, particularmente propriedade pertencente aos supostos inimigos corporativos.

"Eu nunca choro a destruição de propriedade corporativa", disse Moran em uma entrevista. Mas "isto não significa que sempre é estratégico. Pode ser indiscriminado e nada estratégico".

Sarah Strombeck, 27 anos, se auto-intitula anarquista e diz que está cheia das técnicas destrutivas de seus colegas. Ela disse que já ficou detida por duas semanas após ser presa durante uma manifestação na convenção republicana de 2000, e diz que os protestos foram praticamente ineficazes.

"Eles custam demais ao movimento", disse Strombeck. "As pessoas apenas são espancadas. Algumas não querem dedicar tempo e esforço para organização da comunidade" em defesa de melhores escolas, atendimento de saúde e salários justos.

Parte da dificuldade em discernir que idéias apresentadas para ações são reais e quais não são é que os anarquistas, uma subcultura que inclui jovens desgostosos com os partidos políticos e adeptos grisalhos de uma filosofia política que já tem um século de idade. Eles estão longe de ser um grupo coeso.

Eles se orgulham de se organizarem em coletividades e "grupos de afinidade" que operam de forma autônoma e que tomam decisões por consenso, descartando hierarquia ou qualquer coisa que lembre um comando vindo do alto.

O chefe da polícia de Miami, John Timony, cujos oficiais lutaram com os anarquistas durante o encontro da Organização Mundial de Comércio no ano passado e durante a convenção republicana de 2000, quando chefiava a polícia da Filadélfia, disse que eles representam uma série de desafios para as autoridades. Ele disse que em muitos casos a violência pode ser atribuída a um pequeno grupo radical, que se desloca de cidade em cidade instigando a violência.

"Este pessoal é bastante sofisticado e apenas espera pelas oportunidades", disse Timoney, que como oficial da polícia de Nova York enfrentou manifestações anarquistas durante a convenção democrata de 1992. "Eles vão tentar provocar os policiais. É tudo um jogo."

Com um palavrão, ele negou as alegações de que seus policiais bateram desnecessariamente nos manifestantes em Miami, dizendo que os anarquistas e outros pessoas com postura antiautoridades provocaram repetidamente a polícia.

Na Filadélfia, ele disse, grupos de anarquistas simplesmente saíram correndo pelas ruas, levando os policiais a segui-los e criando a impressão de caos. Em Miami, ele disse, eles se aglomeravam em torno dos oficiais que tentavam prender encrenqueiros durante manifestações em geral pacíficas.

Os policiais geralmente enviam agentes disfarçados a reuniões de suspeitos e acompanham as mensagens postadas na Internet, mas geralmente não sabem exatamente o que foi planejado até o momento em que acontece.

Além disso, parte pode ser conversa fiada ou desinformação: planos de Internet para lançar ácido em policiais, por exemplo, não se concretizaram em Miami, nem o plano de danificar os veículos da mídia durante a Convenção Nacional Democrata do mês passado, em Boston.

"No final do dia, há informação demais", disse ele. "Você precisa ser capaz de separar o joio do trigo, e não é fácil. Você não pode reagir exageradamente à Internet porque pode se apenas conversa fiada de um garoto de 16 anos em Chicago."

Mas Browne disse que a polícia leva todas as ameaças a sério.

"Nós tratamos o trigo como trigo", disse ele, acrescentando que a ameaça representada pelos anarquistas "não é nada que o Departamento de Polícia de Nova York não possa lidar".

Dois anos atrás, no Fórum Econômico Mundial em Manhattan, a polícia impediu muitas tentativas de interromper o trânsito e vandalizar propriedades, efetuando 150 prisões e mantendo a violência ao mínimo. Alguns manifestantes disseram depois que se contiveram em respeito ao ataque sofrido pela cidade em 11 de setembro.

Mas Nova York pode representar um desafio diferente dadas as paixões provocadas pela guerra no Iraque e o fato de a cidade ter sua própria cena anarquista vibrante, mesmo que fragmentada.

Há o "Futebol Anarquista" aos domingos no Tompkins Square Park, os piqueniques dos Negros Anarquistas no Central Park, salões e até mesmo uma pequena livraria improvisada no East Village chamada Mayday, dedicada quase que exclusivamente ao anarquismo.

As definições variam, mas a maioria vê o anticapitalismo como a base de sua ideologia. Eles questionam e desprezam a autoridade e o governo hierárquico como corruptos e invasivos nos assuntos pessoais. "Nem escravo nem mestre" é um slogan comum.

Alguns são fanáticos; outros vêem a anarquia como uma forma de conscientização de problemas como a fome, a ganância e o materialismo.

"Minha visão guia é uma sociedade sem um Estado, mas eu não sou necessariamente um fundamentalista", disse Meddle Bolger, um anarquista de 29 anos de Sonoma County, na Califórnia, que liderou várias manifestações na Área da Baía de San Francisco como parte do Green Bloc, um grupo anarquista com inclinação ambientalista.

Bolger disse que agora está em Nova York para participar, em 31 de agosto, do dia de desobediência civil e recuperação dos jardins comunitários em South Bronx.

Chuck Munson, 39 anos, um anarquista do Kansas responsável por um dos sites anarquistas mais conhecidos, o infoshop.org, disse que tem observado mais jovens, particularmente aqueles que já foram atraídos pela "política faça você mesmo" do movimento punk, serem atraídos pelo anarquismo após a primeira Guerra do Golfo e a queda da União Soviética.

Após estes eventos, "as pessoas passaram a considerar a esquerda radical tradicional como não mais relevante", disse Munson. "Eu acho que isto abriu o interesse pelo anarquismo."

Os protestos de 1999 em Seattle, conhecidos nos círculos anarquistas como "a batalha de Seattle", agora são vistos como o momento da virada. Muitos anarquistas acreditam que, apesar de qualquer mancha em sua reputação, eles aumentaram a conscientização do que consideram os males do capitalismo global.

Eles acreditam que as marchas em massa habituais, cantando slogans e acenando cartazes, dificilmente cumprem seu intento.

"A ação direta gera resultados", disse Moran, o morador do Brooklyn. Políciais vigiam os grupos que protestaram em Seattle em 1999 George El Khouri Andolfato

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