UOL Notícias Internacional
 

25/08/2004

Kerry parece não ter as convicções do passado

The New York Times
David Brooks

Colunista do NYTimes
Estou dando início a uma investigação de grande vulto para averiguar se a organização de veteranos combatentes da guerra do Vietnã que leva o nome de Swift Boat Veterans for Truth (Veteranos dos barcos de patrulha pela verdade) está sendo financiada secretamente pela campanha de John Kerry.

Isso porque, a partir desta semana, a organização começa a veicular uma série de anúncios publicitários visando a chamar a atenção para o depoimento que John Kerry deu em 1971 contra a guerra do Vietnã.

Se os eleitores assistirem a esse depoimento, eles verão um jovem argumentando de maneira apaixonada em favor de uma causa. Eles verão um jovem disposto a assumir riscos e expor corajosamente as suas convicções. Que eles concordem ou não com as suas opiniões, eles verão em John Kerry um homem de convicções.

Muitos jovens hoje que não cultivam nenhum envolvimento emocional com a questão do Vietnã e que não têm o menor interesse em ficar ruminando eternamente os conflitos do final dos anos 60, poderiam considerar este homem, ouvir o que ele tem a dizer, e até mesmo decidir que gostam dele. Eles poderiam não se dar conta de que aquele homem não existe mais.

Este homem político de convicções ainda era visível e atuante até nos anos 80. Quando Kerry tomou posição contra a ajuda aos Contras, ou ainda resolveu enfrentar diretamente Oliver North, ele o fez movido pela mesma chama guerreira, direta e desinibida.

Mas então, no início dos anos 90, as coisas começaram a evoluir. Primeiro, Kerry manteve-se coerente com as convicções que eles sempre defendeu depois da guerra do Vietnã e acabou assumindo abertamente o seu voto contra a primeira guerra no Iraque, uma posição que se transformou numa ameaça ao seu futuro político.

Depois, o clima político foi mudando. Bill Clinton ascendeu ao poder e, de repente, o antigo liberalismo da antiga era do Vietnã deixou de estar na moda, perdendo todo interesse. O futuro pertencia às triangulações dos "Novos Democratas".

Então, Newt Gingrich entrou em cena e o quadro do debate foi sendo deslocado aos poucos para a direita. Naquele momento, John Kerry já estava em posição de se candidatar a um cargo de expressão nacional --e portanto precisava se tornar palatável para o eleitorado em nível nacional.

Os discursos que Kerry pronunciou nos anos 90 em nada se parecem com aquele depoimento de 1971. Saiu o militante apaixonado, para deixar lugar ao tergiversador pomposo. Basta comparar os dois discursos para ver um homem tão calculador e temeroso de dar um passo em falso, tão cauteloso que ele acaba se envolvendo a si mesmo dentro de uma neblina de ressalvas e de equívocos.

O que se viu foi um homem que começou a perder a capacidade de pensar como todo ser humano normal e que, em vez disso, começou a pensar como uma embaixada.

Em muitos casos, determinadas decisões difíceis de tomar costumam ser postergadas por meio da construção de distinções e ressalvas injustificadas. Questões delicadas costumam ser evitadas por meio da verborragia. Kerry divulgou declarações aprovando o uso da força nos Bálcãs que eram tão carregadas de ressalvas, de subentendidos de bastidores e de mistério que era impossível dizer ao certo qual era a sua posição de fato.

Em outra ocasião, ele proferiu um discurso que parecia ser firme e severo a respeito da pobreza urbana, mas que era repleto de cláusulas escapatórias, das quais ele se valeu em seguida para rebater as críticas que lhe foram feitas.

A maioria das pessoas tira um certo orgulho de suas opiniões pessoais. Elas se mostram apegadas a elas como elas fizessem parte do que elas são. Contudo, Kerry pode se mostrar friamente distanciado de seus pontos de vista, os quais ele pode querer utilizar, temperar ou até mesmo esconder, dependendo das necessidades do momento.

Por exemplo, em 1º de agosto, Kerry disse a George Stephanopoulos: "Eu acho que nós podemos mudar de maneira significativa a distribuição das nossas tropas, não só no Iraque como também em qualquer outro lugar do mundo. Mudanças como estas poderiam ser efetuadas possivelmente na península coreana ou talvez na Europa".

Quando Bush anunciou estar preparando um plano que se aproximava desta proposta, Kerry fulminou o presidente, acusando-o de ser leviano por estar abraçando a idéia que ele mesmo havia apoiado duas semanas antes.

Ainda mais corrosiva do ponto de vista psicológico é a contínua supressão por parte de Kerry da convicção sincera. Praticamente todos os americanos têm uma opinião a respeito da guerra, uma parte achando que ela valeu a pena e outra que ela foi um grave erro --exceto John Kerry.

Ele se intitulou um candidato contra a guerra e ao mesmo tempo disse que ele votaria, até mesmo hoje, a favor da resolução de guerra. De duas uma: ou ele perdeu a capacidade de tomar uma decisão clara em relação a esta questão central, ou ele acha que seria uma imprudência expressar um ponto de vista a respeito.

Mesmo ao abordar questões pessoais e vitais, Kerry irradia uma aparência de posicionamento calculado. Ele agora declara que o casamento é um sacramento exclusivo do homem e da mulher, mas será que alguém pensa mesmo que ele acredita nisso de verdade? Ele disse que a vida começa com a concepção, mas será que um dia ele chegou a agir efetivamente em função desta convicção profunda?

Tudo isso é muito estranho por parte de uma pessoa que é um produto tão genuíno dos anos 60. A "autenticidade" era um conceito tão importante, naquela época. Ninguém acusaria o atual John Kerry disso. De fato, a convenção democrata estendeu-se de maneira obsessiva sobre o período da sua vida no qual Kerry era autêntico, de maneira a poder manter o silêncio a respeito dos últimos 20 anos de falta de autenticidade crescente.

Resumindo, ele não é o liberal flamejante que os republicanos às vezes dizem que ele é. Ele não é flamejante em nada. Se o Kerry de hoje fosse chamado para depor perante aquele comitê do Senado de 1971, ele teria prudentemente dito às multidões que ele era a favor dos objetivos da guerra mas contra a sua implementação, a favor da idéia, porém contra a hora escolhida para pô-la em prática, a favor das tropas porém contra tal nuance e tal outra nuance e aquela outra.

Ninguém realiza muita coisa na política sem uma ambição devoradora, mas, às vezes, certas pessoas podem sofrer profundas mudanças no decorrer do caminho. Cautela acabou minando a idealista autenticidade do democrata Jean-Yves de Neufville

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