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27/08/2004

Cresce a proporção de pessoas pobres nos EUA

The New York Times
David Leonhardt

Em Washington
As fileiras de pobres e dos sem seguro saúde cresceram em 2003 pelo terceiro ano consecutivo, divulgou o governo americano nesta quinta-feira (26/08), um sinal das dores persistentes causadas pela longa queda nos mercados de trabalho.

Tais tendências, apontadas pelo Census Bureau, o órgão de estatísticas dos Estados Unidos, apontaram uma clara mudança na forma como a recessão de 2001 e suas conseqüências se disseminaram pelo país. Os problemas da economia, que primeiro afetou as famílias de alta renda mais do que as de classe média e as pobres, recentemente atingiram as famílias de renda média e mais baixa mais significativamente do que as de renda mais elevada.

A renda média doméstica cresceu praticamente na mesma taxa da inflação no ano passado, após três anos de declínios relativos, segundo o relatório. Mas a disparidade de renda entre os ricos e os pobres voltou a crescer, após ter caído em 2002. Os salários não acompanharam a inflação no Sul, que já era a região mais pobre do país, nas cidades e entre os imigrantes. E a discrepância salarial entre homens e mulheres cresceu pela primeira vez em quatro anos.

A pobreza cresceu mais acentuadamente entre as famílias de mães solteiras no ano passado. A cobertura de seguro saúde caiu apenas para as famílias com renda anual abaixo de US$ 75 mil.

Em sua campanha, o presidente Bush tem dito que o país superou a recessão e a queda no mercado de ações em parte devido à sua redução de impostos. Os democratas acusaram nesta quinta o governo Bush de tentar enterrar os novos números ao divulgá-los todos de uma vez só no final de agosto, em vez de divulgar os dados sobre pobreza e seguro saúde em dias separados em setembro, como fez em anos recentes. "Eles estão tentando amontoar, despejar e correr", disse a deputada Carolyn Maloney, democrata de Nova York.

Membros do Census Bureau disseram que a política não interferiu na mudança e que os dois conjuntos de dados já foram divulgados simultaneamente em meados dos anos 90. O departamento publicou os números em agosto para coincidir com a divulgação dos números econômicos locais que também compila, disseram os membros do órgão.

"Normalmente nós não somos criticados por apresentarmos dados mais cedo", disse Charles Louis Kincannon, diretor do Census Bureau.

O índice nacional de pobreza cresceu para 12,5% no ano passado, de 12,1% em 2002. Após cair rapidamente durante um longo boom econômico e uma guerra do governo contra a pobreza nos anos 60, de mais de 22% em 1960, o índice mudou relativamente pouco ao longo das últimas quatro décadas. Ele ficou ligeiramente mais alto em 2003 do que em 1969. Uma família composta de dois adultos e duas crianças e que ganha menos de US$ 18.660 foi considerada pobre no ano passado.

"Nós tivemos uma geração sem basicamente nenhum progresso no combate à pobreza", disse Sheldon Danziger, um professor de política pública da Universidade de Michigan. "O crescimento econômico não está nem gotejando para os pobres."

Dependendo de suas crenças políticas, os economistas tendem a atribuir diferentes porções de culpa para isto ao crescimento de famílias de mães solteiras, uma escassez de bons empregos para pessoas sem diplomas universitários e um abandono de programas antipobreza por parte do governo federal.

O número de americanos sem seguro saúde cresceu no ano passado em grande parte porque menos empresas estão concedendo benefícios de saúde para seus funcionários do que no passado, informou o Census Bureau. Quase 16% das pessoas não tinham seguro saúde no ano passado, um aumento em comparação a 14,2% em 2000.

A renda média nos lares caiu ligeiramente no ano passado, para US$ 43.318, uma perda de US$ 63, mas os membros do Census Bureau disseram que a mudança não é estatisticamente significativa. Desde o pico em 1999, com o equivalente a US$ 44.992 em valores corrigidos pela inflação, a renda média dos lares caiu mais de US$ 1.600, ou 3,6%, apesar de ter permanecido mais alta no ano passado do que em qualquer ponto anterior ao final dos anos 90.

Os candidatos à presidência apresentaram pontos de vista diferentes sobre a economia nesta quinta. O senador John Kerry, o candidato democrata, argumentou que o relatório apresenta novas provas de que o governo Bush colocou os interesses das famílias ricas à frente dos interesses da maioria dos americanos.

"Os números do Census são fatos. Não são discurso político", disse Kerry, enquanto fazia campanha na Anoka Technical College, em um subúrbio de Minneapolis. "São fatos, estatísticas, e eles contam uma história quando você os reúne."

Bush, por sua vez, disse para uma multidão em um comício em Farmington, Novo México: "Porque agimos, nossa economia tem crescido desde o verão passado na taxa mais rápida já vista em quase 20 anos. Desde agosto passado, nós criamos cerca de 1,5 milhão de novos empregos".

Terry Holt, porta-voz da campanha de Bush, disse que os números do Census já estão datados porque cobrem apenas 2003. "Está ausente destes números o forte crescimento econômico que vimos nos últimos 11 meses", disse Holt.

Bush ajudou a economia a se recuperar da recessão reduzindo impostos, acrescentou Holt, e tem atacado a pobreza ao aprovar a eliminação do imposto de renda para 5 milhões de pessoas de baixa renda.

Diferente da maioria das recessões econômicas, a que começou no início de 2001 foi uma espécie de recessão de oportunidades iguais, prejudicando tanto famílias de alta renda quanto de baixa renda. O estouro da bolha no mercado de ações, o colapso de muitos empreendimentos de tecnologia e o declínio do setor manufatureiro levaram à eliminação de muitos empregos de boa remuneração.

Mas enquanto a economia mantém sua recuperação desigual, crescendo mas acrescentando muito menos empregos do que o normal, as famílias de renda mais baixa começaram a perder terreno novamente, como ocorreu durante grande parte dos anos 70, 80 e 90.

Os salários caíram no ano passado em lares nas áreas rurais e nas cidades, que costumam ficar abaixo da média nacional, em um percentual maior do que nos subúrbios, segundo o Census Bureau. Após atingir a maior alta de todos os tempo em 2002, os salários das mulheres com emprego de horário integral caíram ligeiramente em relação aos de seus pares do sexo masculino, para 75,5%. A renda também caiu mais para hispânicos do que para brancos, apesar de ter permanecido basicamente inalterada nos lares negros.

No geral, o quinto dos lares de maior renda ficou com 49,8% da renda do país no ano passado, um aumento em relação a 49,7% em 2002, e 44,7% em 1983. Mas tais números exageram um pouco a desigualdade da renda, porque não incluem os impostos.

"Há uma transferência de recursos muito grande para os pobres que não é registrada nestes números da pobreza", disse Robert Rector, um pesquisador sênior da Fundação Heritage, um grupo de pesquisa de Washington.

Mas seja qual for o verdadeiro nível de desigualdade, ele claramente cresceu no ano passado, com os maiores aumentos na pobreza ocorrendo entre alguns dos grupos mais pobres do país. O índice de pobreza entre os lares chefiados por mulheres solteiras cresceu para 28%, em comparação a 26,5% em 2002.

Entre todas as famílias com crianças com menos de 6 anos, 19,8%, ou 4,6 milhões, foram consideradas pobres no ano passado, um aumento em comparação a 18,5% no ano anterior.

Após outras recessões na última metade do século passado, o índice de pobreza geralmente cresceu por três ou quatro anos, o que fez alguns economistas preverem que o recente aumento pode estar chegando a seu fim. Em seu nível atual, ele continua abaixo dos picos do início dos anos 80 e 90, que ultrapassaram 15%. Kerry usa dado para apontar fracasso da gestão de George W. Bush George El Khouri Andolfato

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