UOL Notícias Internacional
 

01/09/2004

EUA precisam encarar sua derrota para o terror

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
"Todos querem ir para Bagdá, mas só os homens de verdade querem ir para Teerã". Essa era postura em Washington há dois anos, quando Ahmad Chalabi garantia a todos que os iraquianos receberiam os americanos com flores. Mais recentemente, alguns entre nós adotaram um slogan diferente: "Todos se preocupam com Najaf; mas só quem realmente está atento se preocupa com Ramadi".

Desde o levante ocorrido no mês de abril, a cidade iraquiana de Fallujah se transformou numa pequena e hostil república islâmica. Mas e quanto ao restante do triângulo sunita?

No mês passado um relatório do grupo de mídia Knight-Ridder sugeriu que as tropas americanas efetivamente estavam cedendo muitos territórios urbanos aos rebeldes. Domingo passado, The New York Times confirmou que, enquanto a atenção do mundo inteiro estava focada na cidade de Najaf, a região ocidental do Iraque era consideravelmente controlada pelos rebeldes. Nessa região, representantes do governo apoiado pelos americanos foram intimidados ou assassinados.

Outras cidades, como Samarra, também foram dominadas pelos rebeldes, enquanto os ataques aos oleodutos proliferam. E nós americanos ainda estamos brincando de esconde-esconde com o líder religioso Muqktada al-Sadr --o exército Mahdi, que ele comanda, se retirou da cidade sagrada de Najaf, mas mantém o controle de Sadr City, habitada por dois milhões de iraquianos.

O jornal "The Christian Science Monitor" informa que "entrevistas feitas em Bagdad sugerem que Sadr está saindo do impasse de Najaf com uma base mais ampla, e com simpatizantes que agora mais do que nunca são militantes."

Durante um longo tempo, qualquer um que sugerisse analogias com o Vietnam era ridicularizado. Mas os otimistas em relação ao Iraque, pelas minhas contas, já declararam vitória três vezes.

Primeiro houve a declaração de "Missão Cumprida" --logo seguida por uma escalada de rebeliões. Depois aconteceu a prisão de Saddam-- e na seqüência aconteceram os levantes sangrentos de abril. Depois houve a furtiva transferência da soberania formal sobre o território iraquiano para Ayad Allawi, com as implausíveis alegações de que isso era uma demonstração de progresso --uma fantasia dilacerada pelos bombardeios no mês de agosto.

Agora sérios analistas da área de segurança começaram a admitir que o objetivo de construir um Iraque democrático e pró-americano já se tornou fora de alcance. Anthony Cordesman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais --não exatamente uma instituição pacifista bicho-grilo-- relata que "há poucas perspectivas para a paz e estabilidade no Iraque antes do final de 2005, e a instabilidade poderá durar ainda mais".

Cordesman ainda acredita (ou pelo menos pensava há poucas semanas) que há possibilidades de sucesso americano no Iraque, pelo menos tantas como as chances de fracasso. Mas quando fala em sucesso ele se refere à criação de um governo que "quase que certamente inclua o Ba'ath, com sua linha-dura religiosa, e facções étnicas e sectárias mais desagregadoras do que o Ocidente apreciaria".

E, só para efeito de precaução, o estrategista Cordesman conclama os Estados Unidos a prepararem "um plano de emergência na eventualidade de um fracasso".

Fred Kaplan, da revista eletrônica "Slate", é ainda mais pessimista. "Vou dizer algo terrivelmente implacável", escreveu Kaplan recentemente, "mas pode não haver qualquer tipo de solução para o problema do Iraque, nem qualquer forma de garantir um regime por definição democrático estável e seguro. E não há maneiras de nos retirarmos de lá sem afetar o país, a região e, possivelmente, sem mergulharmos num desastre ainda mais contundente".

Desastre contundente? Isso mesmo --quem antes se preocupava com o Ramadi agora começa a se preocupar com o Paquistão.

Então qual será a resposta? Aqui vai uma idéia: grande parte da política americana no Iraque, o que inclui o adiamento das eleições, a tentativa de se chegar a uma fórmula que neutraliza a regra básica de concessão do poder à maioria, com o esforço de empossar primeiro Chalabi, depois Allawi, como líderes --tudo isso pode ser visto como um esforço persistente para não conceder ao grande Ayatollah Ali al-Sistani seu papel evidentemente dominante.

Só que os últimos acontecimentos em Najaf demonstram tanto a impressionante influência do clérigo Ali al-Sistani como também os limites do poder americano. Será que já não está na hora de reconhecer que faríamos muito pior que Sistani, e de dar ao clérigo tudo o que ele reivindica?

Agora segue mais uma idéia. O presidente Bush diz que os problemas que
acontecem no Iraque são conseqüência de um "sucesso catastrófico" que não fora antecipado. Só que a catástrofe foi prevista por muitos especialistas.

Cordesman diz que os alertas foram ignorados porque nós americanos temos "o mais fraco e ineficiente Conselho Nacional de Segurança desde o pós-guerra na história americana", já que o poder foi concedido "a um pequeno grupo de ideólogos neoconservadores" que "formataram a guerra sem ter qualquer compreensão realista nem qualquer plano para moldar a paz na região."

Bush, que embarcou nessa viagem de que "venceria a guerra contra o terror" há poucos meses, admitiu nesta segunda-feira que "não acha que será possível vencer" a guerra contra o terror. Mas ele não substituiu o conselheiro nacional de segurança, nem desacreditou sequer um dos ideólogos que nos envolveram nessa situação de "não-vitória". Em vez de admitir que cometeu erros, ele se mantém ligado a pessoas que, se tiverem a oportunidade, irão nos conduzir a uma, duas, três, muitas outras poças de areia movediça. O próprio Bush admitiu impossibilidade de vitória contra terroristas Marcelo Godoy

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