UOL Notícias Internacional
 

01/09/2004

Recuo de Kerry abre crise entre os democratas

The New York Times
David M. Halfbinger e

Jodi Wilgoren, em

Nantucket, Massachusetts
Alguns Democratas temem que o Senador John Kerry tenha desperdiçado o impulso gerado pela Convenção Nacional Democrata. Ele vacilou durante o mês de agosto, diante dos ataques frontais ao seu caráter e ao seu histórico no Vietnã. Agora, ele precisa afiar seu ataque ao presidente Bush e fazer uma defesa mais persuasiva da necessidade de mudança.

O comitê de campanha de Kerry, consciente de que vai entrar nas últimas oito semanas de disputa atrás de Bush, ganhou novos membros e fez reuniões para definição de estratégia. Ao mesmo tempo, alguns Democratas proeminentes vêm pedindo maior urgência e criticando a decisão de Kerry de ficar longe dos holofotes, em sua casa de veraneio nesta cidade. Nesta semana, durante a Convenção Republicana, ele fará apenas um discurso, nesta quarta-feira (1º/9), à Legião Americana em Nashville, Tennessee.

"Queria que ele fizesse uma campanha como se sua vida dependesse disso --não quero vê-lo jogando bola, fazendo surfe ou andando de bicicleta. Quero que ele diga às pessoas que estamos em guerra e que não devíamos estar, que fale das coisas que costumávamos ter e que perdemos nos últimos quatro anos", disse o deputado Charles B. Rangel, Democrata de Nova York, que vem revidando os tapas dos Republicanos reunidos em sua cidade.

Em Virgínia, onde os Democratas vêem pela primeira vez em décadas a possibilidade de vencer a disputa presidencial, o diretor do partido, Kerry Donley, disse que também não achava interessante Kerry ter-se escondido nesta semana. "Você tem que levar a campanha às pessoas", disse Donley. "Gostaria de vê-lo nas ruas, neste instante."

Nesta terça-feira, o comitê de Kerry anunciou uma excursão de quatro dias de ônibus pelos Estados indefinidos, começando à meia noite de quinta-feira, em Springfield, Ohio. O candidato e seu vice, o senador John Edwards, suas esposas, filhos e outros vão se distribuir para fazer comícios em 22 Estados disputados, durante o final de semana do Dia do Trabalho.

Na quarta-feira, o comitê planeja contratar US$ 45 milhões (em torno de R$ 135 milhões) em anúncios de televisão em 20 Estados, até o dia das eleições. Alguns dos assessores de campanha de Kerry, falando sob condição de anonimato, disseram que o candidato perdeu o mês de agosto por vários fatores, um deles sendo seu fraco desempenho nos discursos, além de alguns erros táticos. Por exemplo, ele insistiu --instado por Bush-- que ainda teria votado pelo uso da força no Iraque, mesmo se soubesse o que sabe hoje sobre a ausência de armas não convencionais.

Outros Democratas chamaram os erros de produto de uma campanha que tem sido exageradamente cuidadosa, contando demais que a eleição será um referendo sobre um presidente pouco popular e dando pouco peso ao carisma de Bush.

"Eles parecem estar tentando descobrir o que devem fazer --e está um pouco tarde para isso, sabe", disse um estrategista Democrata veterano que, como muitos outros, recusou-se a ser citado por nome, ao criticar a campanha de Kerry. "O outro lado está irrequieto em sua ferocidade."

Stephanie Cutter, diretora de comunicações de Kerry, insistiu que a campanha continua seguindo seu plano de longo prazo e apontou para pesquisas que demonstram que o Democrata ainda lidera em alguns dos Estados mais críticos.

"Sabíamos que estávamos saindo da zona de luz em agosto, e que a campanha de Bush ia lançar dezenas de milhões de dólares em ataques negativos", disse Cutter, observando que Kerry quase não fez anúncios no mês passado para conservar recursos. "Foi isso que fizeram, e para seu espanto, ainda estamos de pé."

Democratas que não participam da campanha ainda estão questionando a decisão de concentrar a convenção Democrata na biografia pessoal de Kerry e em seu histórico na guerra, em vez de articular mais claramente a necessidade de substituição de Bush.

O deputado Robert T. Matsui, Democrata da Califórnia, que dirige o Comitê de Campanha Congressional Democrata, disse que Kerry até agora não tinha sido enfático o suficiente na mensagem básica de mudança. "Vamos ter que defender fortemente a mudança. Acho que é nisso que devemos nos concentrar e espero que esta seja nossa direção", disse Matsui.

O deputado Jerrold Nadler, de Nova York, acha que a campanha está lidando bem com questões internas, mas que Kerry precisava formular um ataque mais forte a Bush, bem no centro de sua argumentação pela reeleição: segurança nacional. Apesar de Kerry ter usado sua própria convenção para estabelecer credibilidade nesse item, ele não fez o suficiente para minar a de Bush, disse Nadler.

"A debilidade da campanha deve-se a ainda não ter tocado nesse ponto", disse Nadler. "Derrotamos eles em todos os itens --até sobre o Iraque, a maior parte das pessoas diz que foi um erro entrar-- exceto na guerra ao terrorismo. Muitos gerentes de campanha política dizem que devemos ignorar a questão. Pois eu acho que devemos bater em cima."

Kerry aconchegou-se em Nantucket nos últimos dias, com sua equipe: a gerente de campanha, Mary Beth Cahill, o consultor de mídia Robert Shrum, o especialista em política externa Rand Beers e um alto estrategista Democrata, Ron Klain.

Em suas reuniões, revisaram a estratégia para os debates com Bush, disse seu comitê. As especulações persistentes sobre uma possível mudança de pessoal foram negadas. No final do ano passado, Kerry demitiu seu gerente de campanha, quando ficou muito longe atrás de Howard Dean, nas pesquisas antes das primárias.

Vários assessores de Kerry, que falaram sob condição de anonimato, disseram que a entrada de dois ex-assessores de Clinton, Joel Johnson e Joe Lockhart, já tinha causado uma melhora nas operações e no ambiente na sede do comitê, em Washington. O papel de Johnson é manter o time de comunicações concentrado nas mensagens principais de Kerry, em vez de se distrair com cada novo ataque do lado de Bush. Lockhart deve começar a viajar com Kerry e trabalhará diretamente com os repórteres.

"Os dois ajudaram a clarificar e apressar as coisas e nos manter focados", disse um assessor. "São ótimos. Já passaram por tudo isso antes. Têm muita influência e habilidade de resolver as coisas."

Os dois veteranos de campanha roubaram algumas das responsabilidades, se não o título, de Cutter, mas os assessores disseram que seu papel está seguro, apesar de reformulado, como ficou claro por sua presença na televisão nos últimos dias.

Uma pessoa que participa das conferências telefônicas matinais diárias disse, nesta segunda-feira, que Cutter, que antes era a voz que prevalecia nas discussões, quase não falara desde a chegada de Johnson, há 10 dias.

Alguns também disseram que as próximas semanas trarão mais influência de vários antigos estrategistas de Kerry: John Sasso, que Kerry nomeou gerente geral de eleição do Comitê Nacional Democrata; Michael Whouley, creditado com a vitória de Kerry nas primárias de Iowa; e Tad Devine, que já é uma das principais cabeças no campo da mídia e do público. O papel de Cahill também está seguro, apesar de alguns acreditarem que vai se concentrar mais nas operações, seu forte, e menos em estratégia.

"Não vai haver trocas", disse Cutter. "Estamos montando a equipe com os melhores para nos levarem até a linha de chegada".

A inclusão de novos membros aconteceu depois de várias semanas nas quais Kerry perdeu o controle sobre sua campanha, particularmente sob críticas ao seu caráter e ao seu papel no Vietnã, com acusações infundadas, pelo grupo chamado Swift Boat Veterans for Truth. A campanha de Kerry demorou vários dias para começar a responder.

"Deviam ter aprendido ao menos uma das lições de Bill Clinton --quando atacado, responda rapidamente, no mesmo dia", disse Ron Oliver, diretor do partido em Arkansas.

Bill Carrick, antigo estrategista Democrata, disse: "A questão é: será que deveriam ter tentado derrubá-la desde o início ou não. Existem pessoas que dizem que sim, que são lentos demais. Outras dizem que nem deveriam ter respondido, que isso só acrescenta mais combustível à difamação. Eu não teria entrado no mérito da questão. Acho que é uma distração."

Vários assessores de longa data de Kerry disseram que não importam os maus resultados de agosto, que o candidato ainda tem os debates pela frente e que mostrou repetidamente, inclusive nas primárias deste ano, que se sai melhor quando tem uma parede atrás dele.

"Esse é ainda o sujeito que pode cavar mais fundo do que qualquer outro", disse um assessor antigo. "O que eu odeio é que vão depender de sua habilidade de fazer isso, mais uma vez, quando não precisava ser assim. Imagine a pressão." Resposta a ataques republicanos demorou muito, dizem assessores Deborah Weinberg

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