UOL Notícias Internacional
 

03/09/2004

Bush pede outro mandato sem detalhar o que fará

The New York Times
Todd Purdum

Em Nova York
Para uma nação dividida em torno de sua administração, aflita com a economia e em dúvida sobre a guerra com o Iraque, o presidente Bush tinha uma mensagem na noite de quinta-feira: ele ainda é o homem certo.

Ainda é o "conservador piedoso" e preocupado que os eleitores conheceram e de que gostaram quatro anos atrás, ainda é o forte administrador que os conduziu em meio a tempos tumultuosos de terrorismo e guerra, ainda é o homem em que podem confiar para enfrentar os problemas de um segundo mandato --no exterior e em casa.

Mas ele deu pouca idéia de uma agenda doméstica para o segundo mandato. As grandes idéias políticas que ele esboçou --contenção de gastos do governo, simplificação do código tributário, oferta de deduções de impostos para contas de poupança de saúde, permissão de contas pessoais para o Seguro Social-- foram vagas. E as propostas específicas que citou em um texto preparado, divulgado antes do seu discurso --aumento de recursos para faculdades comunitárias, abertura de centros de saúde rurais-- eram coisas na maioria de importância menor.

Ele reservou sua paixão para questões de segurança nacional e empregou um tom defensivo desafiador, dizendo aos delegados que diante de ameaças externas, "eu sempre defenderei a América".

E apesar de Bush ter reconhecido em termos incomumente pessoais que "algumas pessoas olham para mim e vêem uma certa arrogância", e que "de vez em quando eu passo a imagem de ser um pouco franco e abrupto", ele sugeriram que tais características já estão enraizadas até os ossos e dificilmente mudarão. "Por isto", ele disse, se referindo à sua mãe Barbara, "nós todos podemos agradecer à senhora de cabelos brancos sentada lá em cima".

A limitação de dois mandatos torna o segundo mandato presidencial notoriamente decepcionante e difícil de realizar grandes coisas. Mas os quatro anos de Bush já tiveram emoção suficiente por oito. Seu antigo rival e agora defensor fervoroso, John McCain, disse em uma entrevista nesta semana que como todos seus antecessores, Bush sabe que seu "legado está associado à política de segurança nacional, à guerra contra o terror, mas também à algumas grandes reformas necessárias em algumas áreas domésticas".

Bush dedicou a primeira metade de seu discurso à política doméstica, mas ele deixou os detalhes assustadores dos itens da agenda destacados por McCain --a reforma do Seguro Social e do Medicare, contenção de gastos federais, mudança na lei de imigração-- praticamente sem serem abordados. As maiores idéias que ele mencionou enfrentam oposição significativa no Congresso, e muitas custarão bem mais do que seu próprio partido está disposto a gastar.

Quatro anos atrás na Filadélfia, Bush atacou oito anos de governo democrata com o refrão: "Eles tiveram a chance deles. Eles não lideraram. Nós lideraremos". Ninguém --nem mesmo seus críticos mais fervorosos-- podem contestar que ele o fez, primeiro ao aprovar grandes cortes de impostos em um Congresso dócil, depois derrubando o Taleban e conquistando apoio para a controversa guerra com o Iraque.

Mas a promessa de Bush de "estender a promessa de prosperidade para cada canto esquecido deste país" permanece não cumprida, e a guerra está enredada no que até ele mesmo reconheceu recentemente como um "erro de cálculo de quais seriam as condições".

A dúvida predominante para um eleitorado que continua tão polarizado quanto aquele que não lhe deu a vitória popular em 2000 é para onde Bush deseja conduzir a nação agora, e como ele pretende chegar lá.

"Você não deseja uma batalha em torno do status quo", disse Matthew Dowd, estrategista-chefe de campanha de Bush. "Você deseja falar sobre quais são suas políticas, quais são seus planos."

Os republicanos acusaram o senador John Kerry de não apresentar uma idéia mais detalhada do que faria como presidente, e de fato ele deixou sua convenção em Boston, no mês passado, sem explicar o significado de seus 19 anos de mandato no Senado, ou expor uma futura agenda, fora prometer que não será Bush.

Bush prometeu continuar enfrentando "os terroristas por todo o planeta --não por orgulho, não por poder, mas porque as vidas de nossos cidadãos estão em jogo".

Isto é suficientemente verdadeiro, mas o próprio motivo declarado de Bush para depor Saddam Hussein mudou repetidas vezes, as armas não-convencionais que ele disse que ameaçavam o mundo não foram encontradas, e seus oponentes argumentam que suas ações incitaram os extremistas muçulmanos e colocaram os americanos sob risco ainda maior.

Até mesmo o ex-conselheiro de segurança nacional de seu pai, Brent Scowcroft, que alertou dois anos atrás sobre ir apressadamente à guerra contra o Iraque, disse em uma entrevista publicada em "The New York Observer" desta semana que Bush pode ter reagido exageradamente à ameaça representada pela Al Qaeda, e que a preocupação do governo com o terrorismo implica que "talvez não estejamos prestando atenção suficiente a outros problemas no mundo que não têm nada a ver com o terrorismo, mas são realmente significativos".

Bush não reconheceu tal erro na noite desta quinta-feira (2/9), optando por repetir uma versão do refrão que ele usa com freqüência: "Será que esqueço as lições de 11 de setembro e aceito a palavra de um louco, ou ajo para defender nosso país? Diante de tal escolha, eu sempre defenderei a América".

No geral, foi um momento notável para um homem cuja carreira política começou há apenas 10 anos com sua eleição para governador do Texas, que conquistou a Casa Branca por apenas cinco votos eleitorais (e um único voto na Suprema Corte), e que agora se mostra como um dos mais decididos e inflexíveis presidentes dos tempos modernos.

Bush espera que seus principais eleitores se apresentem para votar em grande número, e que mesmo os eleitores indecisos que possam estar incomodados com algumas de suas decisões respeitarão sua determinação.

Bill Clinton alertou seus companheiros democratas dois anos atrás: "Quando as pessoas estão inseguras, elas preferem ter uma pessoa forte e errada a uma pessoa certa mas fraca". Este é o motivo de John Kerry ter gastado tanto tempo em sua convenção no mês passado atestando seu serviço de combate no Vietnã. O desafio de Bush é diferente.

Os eleitores consideram sua força como algo garantido, como ele reconheceu na noite de quinta-feira dizendo: "Nos últimos quatro anos, vocês e eu passamos a nos conhecer. Mesmo quando não concordamos, pelo menos vocês sabem no que eu acredito e qual é a minha posição".

Mas as pesquisas mostram que os americanos têm dúvidas quanto à teimosia de Bush, sua veracidade (apenas cerca de 1 entre 5 americanos acham que ele está dizendo toda a verdade quando fala sobre o Iraque), e mesmo uma simpatia que muito lhe ajudou da última vez.

Assim, uma de suas tarefas era mostrar que apesar de todas as vicissitudes da guerra, das falhas de inteligência que não impediram os ataques da Al Qaeda e colocaram os soldados americanos a caminho de Bagdá, ele continua o homem franco e direto que conheceram quatro anos atrás.

Ele falou da dor de ter que ordenar a ida dos soldados à guerra, "mesmo quando é certo", e de segurar "crianças dos que tombaram em combate, que ouvem que seu pai ou mãe é um herói, mas que preferiam estar com seu pai ou mãe".

E concluiu: "Uma coisa que aprendi sobre a presidência é que quaisquer falhas que você tenha, as pessoas notarão, e quaisquer pontos fortes que você tenha, você precisará deles".

A nação os notou. E Bush precisará deles. Discurso do presidente americano encerra a convenção republicana George El Khouri Andolfato

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