UOL Notícias Internacional
 

03/09/2004

Convenção republicana mostra medo, ódio e nojo

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
"Eu não sei de onde George Soros tirou o dinheiro dele", disse um homem. "Não sei de onde --se veio do outro lado do oceano, de traficantes de drogas ou sei lá de onde". George Soros, segundo outro homem, "quer gastar US$ 75 milhões para vencer George W. Bush porque o que Soros pretende é legalizar a heroína". Afinal de contas, disse um terceiro homem, Soros "é um ateu assumido; ele foi um judeu que deu um jeito de sobreviver ao Holocausto".

Os depoimentos acima não são de LaRouchies, o grupo de jovens americanos de extrema-direita. Eles são Republicanos.

A sugestão de que Soros, que já gastou bilhões promovendo a democracia ao redor do mundo, está na folha de pagamentos de cartéis da droga veio de Dennis Hastert, o "speaker" ou presidente da Câmara de Representantes, político pouco conhecido a quem a Constituição garantiria o posto de presidente caso dois corações parassem --o de Bush e o de Cheney.

Depois de sustentar essa argumentação por alguns dias, Hastert finalmente alegou que se referia à forma como Soros gasta o dinheiro dele, e não sobre a origem do dinheiro do bilionário.

As alegações de que o investimento político de Soros é motivado pela vontade de legalizar a heroína veio de Newt Gingrich, ex-presidente da Câmara. E a tirada sobre o Holocausto veio de Tony Blankley, editor da página de editoriais do jornal "The Washington Times", que se tornou praticamente o órgão oficial do atual governo.

Já há alguns meses temos sido alertados por comentaristas irritados com o perigo da irracionalidade no "ódio a Bush". Especialistas vasculharam a convenção Democrata para detectar a doença; alguns chegaram a inventar exemplos quando não conseguiram encontrá-los. Então eles aguardaram ansiosos por um comportamento ultrajante dos manifestantes em Nova York, e novamente ficaram decepcionados.

Houve muito ódio em Manhattan, mas do lado de dentro da convenção, no Madison Square Garden, e não fora dele.

Barack Obama, que fez o pronunciamento mais emblemático dos Democratas, proporcionou uma mensagem de otimismo e esperança. Zell Miller, autor do pronunciamento mais emblemático dos Republicanos, afirmou que a oposição política é subversiva.

"Agora, ao mesmo tempo em que jovens americanos estão morrendo sobre as areias do Iraque e nas montanhas do Afeganistão, nossa nação está se dividindo e se enfraquecendo por causa da obsessão maníaca que os Democratas têm de depreciar nosso comandante-em-chefe". E a multidão urrou sua aprovação ao que foi dito.

Por que os Republicanos estão assim, furiosos? Um dos motivos é que eles não têm nada de positivo para exibir (durante os três primeiros dias da convenção, Bush foi muito menos mencionado que John Kerry).

A prometida explosão econômica não se materializou, o Iraque é um poço sangrento coberto de areia movediça, e Osama bin Laden passou da condição de "procurado vivo ou morto" para "um nome que não deve ser mencionado".

Um outro motivo, tenho certeza, é a consciência culpada. Até um certo ponto, as pessoas presentes à convenção Republicana sabem que seu herói designado é um homem que nunca correu riscos na vida, nem nunca fez um sacrifício pela pátria. Sabem também que estão impugnando o patriotismo de homens que efetivamente fizeram alguma coisa pela nação.

É por isso que os band-aids com decalques de corações de púrpura, debochando das medalhas e das feridas de Kerry na Guerra do Vietnam, fizeram tanto sucesso entre os convencionais. E por essa consciência culpada que políticos veteranos se sentem tão atraídos por exóticas teorias conspiratórias sobre George Soros.

É por isso também que Hastert, consciente de quão pouco o governo Bush fez para proteger Nova York e ajudá-la na reconstrução, acusou a cidade de "inapropriadamente ficar afoita" por dinheiro depois do 11 de setembro. Nada é tão capaz de fazer com que você odeie as pessoas do que saber em seu coração que elas estão certas e você está errado.

Mas todo esse vitupério também reflete o fato de que muitas pessoas na convenção odeiam os Estados Unidos, mesmo com tanta agitação de bandeiras. O que elas querem é uma sociedade sob controle, monolítica; elas temem e abominam a liberdade, a diversidade e a complexidade que caracterizam a nossa nação.

A convenção foi aberta por uma invocação feita por Sheri Dew, uma editora de livros e ativista da religião mórmon. Comentava-se que a invocação poderia ser feita por Jerry Falwell, que logo depois de 11 de setembro de 2001 sugeriu que os ataques eram a punição de Deus contra as atividades de entidades como a Aclu (União Americana pelas Liberdades Civis) e a People for the American Way, entre outras. Mas Dew também não é nem um pouco mais moderada: esse ano ela já chegou a comparar a oposição contra o casamento gay à oposição contra Hitler.

O partido fez questão de colocar moderados em questões sociais, como o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, bem diante das câmeras. Mas nos eventos privados, não-televisionados, a história foi um tanto diferente.

Por exemplo, o senador Sam Brownback, do Estado de Kansas, disse aos Republicanos que nós estamos numa "guerra cultural", e pregou a redução da separação entre a Igreja e o Estado.

Bush, agora está claro, pretende levar adiante uma campanha baseada no medo. E para mim, pelo menos, isso está funcionando: só de pensar o que essas pessoas farão se permanecerem no poder... eu fico com muito, muito medo. Partido confirma ser uma mistura de más políticas com preconceitos Marcelo Godoy

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