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03/09/2004

Republicanos mostram ser assassinos políticos

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes
Sempre gostei de ouvir a história de como o adolescente Dick Cheney ficava ao lado da namorada e futura mulher, Lynne, com um balde d'água para apagar o bastão incandescente com o qual ela fazia malabarismos.

Mas houve um momento ainda melhor durante a entrevista em duas partes, do programa "Good Morning America", feita por Claire Shipman nesta semana na fazenda do vice-presidente, no remoto Estado de Wyoming. Procurando humanizar o "Dr. No", a ABC teve permissão para ingressar no santuário a fim de presenciar Cheney levando a neta de quatro anos para a sua primeira cavalgada solo e ouvir como ele ensina às outras netas a arte do fly-fishing.

Shipman perguntou ao presidente qual é "o seu maior prazer carregado de culpa".

A sua mulher se intrometeu rapidamente afirmando que é o fly-fishing. Mas, todos sabemos, é claro, que a resposta é a dominação global.

Sempre é surpreendente ver os republicanos tentando descer do pedestal. Em tempos de convenção, eles passam a agir como recrutas do exército.

Foi muito estranho quando, na última quarta-feira, em Columbus, Ohio, George W. Bush, acompanhado de Jack Nicklaus, observou que o seu avô nascera naquela cidade, de forma que os moradores locais deveriam "mandar um colega de volta para a Casa Branca".

Como vai, cara?

E falando sobre caras, o que houve com aquele vídeo do Barney falando com o poodle francês Fifi Kerry sobre impostos? Quando as gêmeas terminaram de agir como personagens do filme "Sonhos Rebeldes" ("Valley Girl"), e Karl Rove e Karen Hughes passaram a fazer paródias de forma vertiginosa, o conteúdo da convenção se tornou bem claro.

Momentos de maluquice altamente ensaiados, bolados para dissipar os temores de que os Bush sejam brigões cíclicos movidos a alta octanagem. Momentos turbinados montados para alimentar o medo de que não estejamos seguros sem os valentões Bush.

Ao contrário dos arrogantes estrategistas bostonianos de Kerry, que calcularam obsessivamente cada movimento na convenção, retirando a maior parte dos ataques diretos ao presidente Bush, os arrogantes estrategistas texanos de Bush encorajaram os seus oradores machões a pisar no acelerador e esmagar o pobre democrata que estaria em queda livre.

Apesar de a economia estar em pandarecos, o Iraque ter-se tornado uma bagunça, o Afeganistão estar voltando ao controle dos chefes tribais, Dick Cheney ter declarado guerra ao mundo, a guerra ao terrorismo ter fomentado mais atos de terrorismo, Ahmad Chalabi ser acusado de espionar para o Irã e o Pentágono abrigar um indivíduo acusado de espionar para Israel, os republicanos se sentem tão confortáveis com suas pessoas que quando Arnold Schwarzenegger disse que se sentiu inspirado a se tornar um republicano por Richard Nixon (presidente que renunciou para escapar de um processo de impeachment), os militantes explodiram em aplausos.

Os republicanos são assassinos políticos. Eles confiam em que os norte-americanos, em um mundo pós 11 de setembro, serão mais atraídos por assassinos políticos que cometeram alguns "erros de cálculo" quanto ao Iraque, conforme admitiu George W. Bush, do que por um manifestante de cabelo desgrenhado, contrário à Guerra do Vietnã, que Bush Pai compara a "Hanoi Jane" (Jane Fonda).

"Ainda tenho grande dificuldade em aceitar o seu retorno, o fato de ele ter dado aquelas declarações ao Congresso e ter jogado fora as suas medalhas", disse o pai do presidente na quarta-feira a Don Imus.

Os republicanos sabem que seguir em frente com uma linha de ação, ainda que esta demonstre estar obviamente equivocada, é uma estratégia política mais popular do que a mudança de opinião, ainda que esta última atitude seja correta.

Quando o presidente deu uma deslizada, admitindo que não dá para vencer a guerra contra o terror --talvez reconhecendo que o terrorismo é uma tática, e não um inimigo--, ele precisou ser salvo por Laura Bush, que consertou o tropeço do marido com sutileza. Depois Kerry cometeu o erro de responder a Bush em preto e branco, afirmando que é possível vencer a guerra contra o terrorismo.

Enquanto os democratas reclamavam dos vilões e dos ataques da turma das lanchas rápidas de combate, os verdugos do Partido Republicano seguiam em frente.

Zell Miller, atuando como o caçador de bruxas Cotton Mather atrás do púlpito em formato de crucifixo, fez com que Cheney passasse a impressão de ser racional, recitando uma ladainha maníaca sobre armas às quais, segundo ele, Kerry se opôs, capazes de destruir qualquer barraco de pau-a-pique de qualquer país do Terceiro Mundo: os bombardeiros B-1 e B-2, os caças-bombardeiros F-14A Tomcat, os F-15 Eagle, os mísseis Patriot e Trident, e os cruzadores Aegis.

Assim como a campanha propagandística do "terceiro partido" foi feroz e enganadora, também o foram alguns dos ataques embutidos nos discursos da convenção republicana. Dick Cheney pisoteou John Kerry da mesma forma que pisoteia o mundo.

Na verdade, ele pisoteou Kerry por este tentar fazer as pazes com o mundo. "Ele fala sobre liderar 'uma guerra mais sensível contra o terrorismo', como se a Al Qaeda fosse se impressionar com o nosso lado suave". É bom saber que Cheney se lembra da Al Qaeda.

Enquanto outros vociferavam, o presidente Bush voou até Nova York e foi a um centro da comunidade italiana para comer pizza com bombeiros do Queens. O "colega" de Columbus passava por uma semana brutal, mas efetiva. Em convenção, insistiram em velhos erros com arrogância habitual Danilo Fonseca

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