UOL Notícias Internacional
 

04/09/2004

Pelo menos 250 morrem em cerco à escola russa

The New York Times
C.J. Chivers e

Steven Lee Myers

Em Beslan, Rússia
O cerco a uma escola de Beslan, no sul da Rússia, terminou nesta sexta-feira (3/9) em pânico, violência e morte, 52 horas após ter começado. Pelo menos 250 pessoas --a maioria estudantes, professores e pais-- morreram, segundo relatos oficiais e testemunhas, após duas grandes explosões iniciarem combates acirrados entre os seqüestradores fortemente armados e as forças russas, que continuaram por horas.

Ambulâncias, carros de polícia e qualquer veículo disponível foram utilizados para levar até 700 pessoas para os hospitais, em comboios frenéticos que corriam pelas ruas desta pequena cidade na república da Ossétia do Norte.

Centenas de reféns sobreviveram, saindo cambaleando da escola enquanto fogo intenso era disparado e granadas explodiam ao redor deles. Muitos estavam seminus, com seus rostos cheios de medo e exaustão, seus corpos ensangüentados por estilhaços e tiros.

Muitos outros nunca saíram. Seus corpos estão nos escombros chamuscados do ginásio da Escola de Ensino Médio Nº 1, cujo teto desmoronou e queimou, disse um policial. Muitas pessoas aqui temem que o número de mortos aumentará.

Tiros e explosões surgiam esporadicamente dentro e em volta da escola noite adentro, enquanto grupos de guerrilheiros continuavam combatendo, incluindo três que permaneciam entocados em um prédio próximo, mantendo segundo relatos um número desconhecido de reféns. As autoridades não tinham declarado a crise encerrada até as 23h30, mais de 10h após o início da violência.

A batalha ao redor da escola --que as autoridades russas disseram que teve início inesperadamente após as explosões, que ainda não foram plenamente explicadas-- colocou fim a um cerco que teve início quando mais de duas dúzias de militantes mascarados e usando trajes de camuflagem invadiram a escola na quarta-feira, quando alunos e pais se reuniam para o festivo primeiro dia de aula.

O número de mortos e feridos ultrapassou em muito o suposto número de reféns, provocando acusações de que as autoridades deliberadamente atenuaram a gravidade da crise. Nesta sexta-feira, um conselheiro da presidência, Aslambek Aslakhanov, disse pela primeira vez sobre a possibilidade de existirem 1.200 reféns. As autoridades disseram inicialmente que o número era em torno de 350.

O presidente Vladimir V. Putin, diante daquela que pode ser a pior crise em seus cinco anos de governo, não se manifestou imediatamente sobre o que transcorreu em Beslan na sexta-feira. Outras autoridades, em Moscou e na Ossétia do Norte, disseram que as forças russas não provocaram os combates, mas foram forçadas a responder com fogo e depois invadir a escola após as primeiras explosões, que ocorreram logo após às 13h.

"Tirando proveito do pânico, os reféns começaram a escapar", disse Lev Dzugayev, um porta-voz do presidente da Ossétia do Norte, em uma entrevista, se referindo às explosões iniciais. "Os bandidos começaram a atirar neles pelas costas. As forças especiais do nosso lado passaram a dar cobertura para os reféns que fugiam. Infelizmente foi assim que aconteceu."

Mesmo o número preliminar de mortos desta crise de reféns já ultrapassa a última da Rússia, quando pelo menos 41 guerrilheiros armados invadiram e mantiveram centenas de reféns em um teatro em Moscou, em outubro de 2002, que terminou com uma invasão semelhante.

Um ação audaciosa de resgate por comandos matou todos os guerrilheiros, mas também 129 reféns, a maioria devido aos efeitos de um gás dos nervos que foi bombeado para dentro do prédio. Com as lembranças daquele cerco ainda frescas, as autoridades esperavam evitar um final sangrento semelhante.

Entre os mortos estavam vários soldados e oficiais de segurança russos --um deles morto na noite de sexta-feira enquanto resgatava mais duas crianças-- e pelo menos 20 de cerca de 30 ou mais guerrilheiros. Ainda não se sabe o que aconteceu com os outros. Pelo menos alguns teriam escapado durante a confusão.

O general Valery A. Andreyev, diretor da divisão do Serviço Federal de Segurança na Ossétia do Norte, disse que metade dos combatentes mortos eram estrangeiros, aparentemente de países árabes. Se isto for confirmado, reforçará as afirmações do Kremlin de que os rebeldes tchetchenos estão recebendo ajuda e efetivo do exterior. Na noite de sexta-feira havia relatos, não confirmados, de que três militantes foram capturados.

A convulsão de violência da tarde encerrou a nervosa vigília dos parentes daqueles que estavam detidos desde quarta-feira, em condições descritas como horrorosas. Para muitas famílias a vigília teve final feliz, mas para outras não.

Duas garotas que escaparam, esfarrapadas e abatidas, mas aparentemente ilesas, saíram de um carro não muito longe da escola e correram para o quintal de sua família, onde foram recebidas e abraçadas pela mãe delas. Ela as rodava em círculos.

Mas o necrotério do principal hospital da cidade estava sobrecarregado. Mais de 20 corpos estavam em macas no gramado externo. Homens e mulheres faziam fila para levantar os lençóis que cobriam os mortos, que incluíam crianças, soldados e oficiais de segurança russos.

O reconhecimento provocava gritos terríveis de dor. Uma mãe trajando blusa vermelha e branca caiu de joelhos no chão, chorando enquanto beijava o rosto de sua filha morta.

Havia relatos conflitantes sobre a fonte e motivo das explosões iniciais. Algumas testemunhas e autoridades citadas pelas agências de notícias disseram que os seqüestradores manusearam mal uma bomba, enquanto outras disseram que duas das guerrilheiras detonaram os cintos que estavam atados em volta dos seus corpos.

Sergei N. Ignatchenko, porta-voz do Serviço Federal de Segurança da Rússia, a agência sucessora da KGB, disse que as explosões podem ter sido provocadas pelos guerrilheiros em uma tentativa de provocar confusão para escapar.

Alguns dos seqüestradores, ele disse em uma entrevista em Moscou, passaram a usar roupas civis e se misturaram com a multidão em pânico que fugia do prédio. Ele e outros disseram que alguns dos guerrilheiros, incluindo um atirador no teto ou em uma janela do segundo andar, atirava contra os que fugiam.

"Quando eles abriram fogo, nós fomos obrigados a ordenar as forças especiais a atacarem para salvar as pessoas", disse ele.

A carnificina começou enquanto os negociadores continuavam realizando conversações intermitentes com os combatentes, após deixaram 26 mulheres e bebês saírem da escola, na quinta-feira. O Kremlin enviou Aslakhanov como seu enviado para participar das negociações.

Os combatentes no interior do prédio também concordaram em permitir que funcionários de serviços de emergência removessem os corpos daqueles que morreram na tomada inicial da escola. Eles tinham acabado de deixar a escola quando ocorreram as explosões, disseram as autoridades.

Na manhã de sexta-feira, Alexander S. Dzasokhov, o presidente da Ossétia do Norte, disse para centenas de parentes reunidos na Casa da Cultura da cidade que o uso da força não estava sendo considerado, mas que o comportamento dos combatentes, que rejeitaram as ofertas de salvo conduto e que se recusaram a permitir a entrada de alimentos e água na escola, estava testando a paciência de todos.

"Uma ação violenta é absolutamente inaceitável", disse Dzasokhov para a multidão, buscando tranqüilizar parentes que estavam ficando cada vez mais cansados, ansiosos e temerosos diante da continuidade do cerco. "Mas devo dizer que se os bandidos, queira Deus que não, se comportarem como bestas, não apenas os serviços especiais, mas outros perderão a paciência."

Ele disse que as autoridades se voltaram para os líderes separatistas da Tchetchênia para buscar ajuda na negociação de um fim pacífico para a crise, que deixou paralisado e horrorizado um país que já tinha suportado uma semana de ataques terroristas e outras violências derivadas da guerra na Tchetchênia.

Dzasokhov disse que recebeu instruções para abrir um canal para Alsan Maskhadov, o líder separatista que serviu como presidente da Tchetchênia antes de fugir das forças de ocupação russas em 1999. Dzasokhov e Ruslan Aushev, o líder político regional que negociou a libertação dos 26 reféns na quinta-feira, telefonaram para o principal representante de Maskhadov no exterior, Akhmed Zakayev, na noite de quinta-feira e novamente na manhã de sexta-feira.

Isto pareceu reverter a política do Kremlin de nunca negociar com homens que Putin condena como terroristas. Após o ataque, um porta-voz do Kremlin, Alexander Smirnov, distanciou Putin dos contatos, dizendo que foram "uma iniciativa pessoal" de Aushev.

Zakayev, que vive exilado em Londres e é procurado pelos russos por várias acusações criminais que ele considera de motivação política, disse em uma entrevista por telefone que ele e Maskhadov estavam prontos para ajudar.

"Eu lhes assegurei que o presidente Maskhadov estava tão perturbado quanto eles", disse Zakayev antes do caos tomar conta desta cidade. "Ele está pronto, de forma incondicional, para fazer todos os esforços para salvar estas crianças e resolver esta crise."

Os contatos com Zakayev --o primeiro desde um breve encontro entre ele e um negociador russo em um aeroporto de Moscou, em novembro de 2001-- ressaltaram o evidente desespero dos russos diante da ameaça de combatentes altamente armados de matarem centenas de crianças pela causa da independência da Tchetchênia.

Mas o pedido, obviamente, ocorreu tarde demais.

As primeiras explosões, separadas por menos de um minuto, lançaram uma grande nuvem branca de poeira sobre a escola e foram seguidas por um período de disparos ferozes. O caos então se espalhou por todas as direções. Alguns moradores se juntaram à polícia russa e às forças do exército em disparos contra o prédio; outros correram na direção da escola, sob fogo, para escoltar ou carregar os reféns que fugiam e colocá-los em veículos a caminho do hospital.

Em um havia uma garota adolescente, com seu cabelo preto grudado em seu rosto ensangüentado, com a boca aberta, aparentemente gravemente ferida. "Onde é o hospital?" gritou o motorista de um Mercedes enquanto acelerava ao longo das margens do combate. Dentro havia dois adultos com crianças em seus colos.

Teimuraz Kanukov disse que fez seis corridas entre a escola e o hospital para levar reféns, três feridos, três mortos. Sua camisa estava encharcada de sangue. "Eram crianças que foram baleadas na cabeça", disse ele. Oito parentes dele estavam entre os reféns, disse ele, e então voltou para a escola.

Às 14h, as autoridades anunciaram que os comandos tinham entrado na escola, mas o combate prosseguia, enquanto alguns dos seqüestradores buscavam escapar pelos bairros de Beslan. Enquanto helicópteros circulavam no alto, um pequeno grupo de guerrilheiros em fuga ocupou uma casa próxima, onde o combate prosseguiu por horas.

Um forte combate irrompeu perto do cruzamento da estrada de ferro, a uma dezena de metros da escola, aparentemente enquanto um grupo diferente de guerrilheiros fugia para o sul. Meia hora depois, dois tanques acionaram seus motores e seguiram na direção da escola, disparando quase imediatamente munição pesada.

As forças especiais russas têm reputação de precipitação em situações com reféns, particularmente na invasão do teatro em Moscou. Mas evidências que sugerem que as forças russas não planejavam invadir o prédio podiam ser vistas ao redor dos dois tanques, cujos soldados corriam em círculos ao redor, evidentemente confusos após a explosão inicial, antes de se agruparem e seguirem para o combate.

Apenas após o início do combate é que três helicópteros apareceram no alto. Também parecia haver escassez de ambulâncias no local, já que a maioria dos feridos foi transportada em qualquer veículo disponível.

A confusão estava por toda parte, como ocorreu desde que combatentes altamente armados -em um número entre 16 e 40, incluindo cidadãos da Tchetchênia, Inguchétia e pelo menos um da Ossétia- invadiram a escola. Ignatchenko, o porta-voz do serviço de segurança, disse que as autoridades ainda não sabem quantos guerrilheiros tomaram o prédio, ou como.

Horas depois dos reféns que puderam terem fugido da escola, vários combatentes continuavam posicionados no prédio e lutavam ferozmente, indicando não apenas sua determinação suicida, mas também o alto grau de planejamento e estado da munição. "Eles vieram com caixas e caixas de munição", disse Ignatchenko.

A violência, particularmente com o envolvimento de crianças, induziu ao vigilantismo. Havia relatos de cidadãos furiosos da Ossétia do Norte atacando guerrilheiros capturados.

Um homem que acreditavam ser um dos combatentes fugiu por um beco próximo da escola e se escondeu debaixo de um caminhão do exército, antes de ser capturado por soldados russos durante o combate. Uma multidão então investiu contra o homem, na faixa dos 30 ano e com uma grande barba preta. A multidão começou a surrá-lo, rasgar suas roupas, enquanto os soldados tentavam dispersá-la.

"Todo mundo tentou bater nele", disse Khariton Valiyev, 58 anos, que estava na multidão. "As pessoas queriam despedaçá-lo. Eu mesmo teria arrancado os olhos da cabeça dele com meus dedos."

Não se sabe qual o destino deste combatente.

*Colaborou Viktor Klimenk. Autoridades do país mentiram o número de pessoas mantidas reféns George El Khouri Andolfato

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