UOL Notícias Internacional
 

05/09/2004

Sobreviventes narram horas de horror na Rússia

The New York Times
C.J. Chivers

Em Beslan, Rússia
Muito antes das primeiras bombas explodirem na Escola de Ensino Médio Nº 1, marcando o início da feroz batalha que deixou centenas de alunos, pais e professores mortos, os reféns já tinham chegado perto do desespero.

"Primeiro eu pensei que fosse piada", disse uma sobrevivente, Emma Gagiyeva, 13 anos, que no sábado estava sentada entorpecidamente em um sofá, enquanto o número de mortos crescia implacavelmente, para 330, com muitas crianças ainda desaparecidas. "Então eles começaram a disparar nas janelas, e vidro caiu nas pessoas. Eles atiraram sobre as nossas cabeças e mataram algumas pessoas, e então percebi que era de verdade."

Ela e outros sobreviventes e suas famílias começaram a dar um relato coerente das 52 horas de morte e cativeiro nas mãos dos homens mascarados, que provocou uma cadeia de eventos na sexta-feira, quando duas grandes explosões iniciaram uma batalha entre os captores e as forças russas.

Pelo menos 1.200 pessoas foram amontoadas no ginásio da escola, sem comida e com pouca água, e com uma rede assustadora de bombas armada acima delas.

A temperatura se tornou sufocante, disseram sobreviventes e parentes no sábado, e alguns alunos ficaram tão famintos que começaram a comer os buquês murchos que tinham levado para a escola. Um menino disse que torcia para a bomba explodir, para que a crise acabasse. Os terroristas provocavam as crianças cativas, e atiraram em pelo menos um homem para demonstrar qual seria a penalidade por violar suas regras.

Entrevistas com os sobreviventes contam o momento em que o primeiro dia de aula se tornou o início de uma provação.

O dia começou com uma reunião no pátio da escola, com crianças chegando com pais, irmãos e irmãs para abrir o ano letivo. Foi como em anos anteriores, até o momento em que os alunos recém-chegados da primeira série seriam apresentados. Este sempre foi um momento doce em anos passados. Neste ano, as pessoas ouviram gritos e viram algo alarmante: uma fileira de homens mascarados avançando pelo pátio.

"Os terroristas chegaram correndo e gritando: 'Allahu Akhbar'", disse Asamaz Bekoyev, 11 anos, que escapou com sua mãe e irmão e estava deitado em sua cama no sábado, na casa de sua avó, sendo tratado de cortes e pequenas queimaduras.

Uma breve troca de tiros se seguiu, enquanto os terroristas derrotavam os poucos policiais presentes na cerimônia, que foram pegos desprevenidos.

Com gritos e ameaças, todas as pessoas presentes na reunião na escola foram conduzidas até o ginásio e ordenadas a ficarem sentadas no chão. Os terroristas sabiam como forçar o grupo a se submeter. Os cativos logo aprenderam que a ordem de sentar devia ser obedecida.

O irmão mais velho de Asamaz, Azamat, 14 anos, disse que um dos reféns, um ossetiano, tentou se levantar, mas assim que ficou em pé um terrorista lhe deu um tiro na testa. O homem caiu no chão, morto. "Eu vi isto com meus olhos", disse o garoto.

Outro homem tentou fugir pela porta dos fundos, mas um terrorista o seguiu, calmamente o colocou sob a mira do rifle e atirou nele pelas costas. O corpo do homem foi arrastado pelo ginásio pelos pés, deixando um grande rastro de sangue.

As regras cruéis dos seqüestradores estavam estabelecidas: obedeça ou morra.

Mais detalhes foram dados: os reféns só podiam falar em russo, de forma que os captores pudessem entender cada palavra. Eles foram avisados que não deviam sair de seus lugares. Eles foram avisados para entregarem seus telefones celulares.

"Eles disseram: 'Se ouvirmos o telefone de alguém tocar, 20 pessoas ao redor dela serão mortas'", disse Serafima Bekoyeva, 44 anos, a mãe dos dois meninos.

Uma ordem de trabalho logo foi dada. Enquanto centenas de estudantes se aglutinavam, os terroristas escolheram cerca de 10 reféns adultos do sexo masculino e os convocaram a ajudar a colocar bombas no ginásio.

Primeiro eles produziram suas bombas improvisadas. Algumas eram grandes garrafas plásticas de cerveja cheias de explosivos, outras pacotes retangulares, como tijolos, envoltos em fita adesiva marrom, disseram os sobreviventes.

Os captores prenderam uma corda entre as duas cestas de basquete e penduraram uma linha de explosivos no alto. As próprias redes de basquete foram fechadas, formando cestas onde mais explosivos foram colocados. Outras bombas foram distribuídas pelo chão e pelas paredes; os reféns estimam que eram 20 ao todo, dispostas e armadas com notável velocidade e habilidade.

O tempo todo um dos terroristas segurava uma pequena caixa preta com a qual podia detonar as bombas.

"Eles nos disseram que um simples apertar de botão bastava para detonar tudo", disse Bekoyeva.

Outro grupo de reféns, cerca de 10 ou 15 meninos, foi ordenado a seguir para o prédio adjacente da escola, onde eles ficaram disponíveis para trabalhar, colocando carteiras contra as portas e janelas como barricada para a proteção dos captores contra fogo ou avanço russo.

Pelo ginásio circulavam duas mulheres-bomba suicidas, usando tênis de corrida e roupas pretas. Lenços pretos cobriam seus rostos, deixando apenas uma abertura para seus olhos. Ambas tinham um cinto explosivo. Ambas estavam armadas da mesma forma: em uma mão, um botão para autodetonação, e na outra, uma pistola.

A espera terrível tinha começado. Às vezes, disseram os reféns, eles eram insultados com palavras e atos.

No primeiro dia, eles receberam baldes e copos de água, mas não o suficiente, e as pessoas ficaram secas de sede. Os captores pegaram roupas, as encharcavam de água e as atiravam para as pessoas, que as agarravam e torciam sobre suas bocas abertas, bebendo as gotas.

Emma disse que cuidava de Regina Sonakoyeva, uma menina de 3 anos que ficava chorando de sede. "Eu a segurei e ficava dizendo para ela: 'Eles já vão trazer, eles já vão trazer'", disse Emma.

Mas a prisão deles ficava cada vez mais quente.

Uma mulher pediu água, disseram os reféns, e um terrorista apontou uma pistola contra a cabeça dela, que ela empurrou de lado com indignação. "Não posso nem mesmo pedir por água?" disse ela. Os terroristas então colocaram uma das mulheres-bomba suicidas ao lado dela.

"Eles disseram: 'Se ela disser mais alguma coisa, mate ela", disse Azamat. A mulher ficou sentada quieta depois daquilo.

As regras se tornaram ainda mais cruéis. Bekoyeva e seus filhos, e três outros sobreviventes, disseram que depois que os terroristas ficaram irritados com o contínuo choro das crianças, eles puxaram dois homens da multidão, ordenaram que colocassem as mãos atrás da cabeça e se dirigiram ao ginásio.

"Eles disseram: 'Se vocês não pararem este barulho, nós os mataremos'", disse Emma.

(Um dos homens era Batras Tuganov, tio de Emma, que no final não foi baleado devido ao barulho, mas que ainda não foi encontrado após a batalha e teme-se que esteja morto.)

As pessoas faziam o que podiam para cuidarem de si mesmas, tirando as roupas para se refrescarem e rasgando livros escolares para usar como abanadores. "Eu passei dois dias consecutivos abanando meus filhos", disse Bekoyeva. "Eles continuavam pedindo mais."

Os terroristas também restringiram gradualmente o acesso ao banheiro, primeiro permitindo que cinco reféns usassem o banheiro de cada vez, depois três. Com a demora para chegar a sua vez, as crianças menores não conseguiam se segurar e se aliviavam em meio à multidão. "Nós as fazíamos urinar em fardos de roupa", disse Emma.

O ar foi ficando mais quente e fétido devido à preocupação, urina e suor. Eventualmente os terroristas atiraram contra as janelas do alto, disseram os sobreviventes, para que pudesse haver um pouco mais de ventilação no espaço fechado.

Os sobreviventes também notaram que seus captores pareciam ser estudantes de fracassos anteriores: eles carregavam máscaras de gás, aparentemente tendo aprendido com o destino dos terroristas que tomaram o teatro em Moscou, em 2002, e sucumbiram a um ataque com gás.

Às vezes os captores simplesmente disparavam contra o teto do ginásio.

Azamat lembrou que um terrorista, um homem com barba curta que os outros chamavam de Ali, disse: "Vocês já viram terroristas tão gentis?"

Azamat e Emma disseram que uma mulher ofereceu aos captores todo o dinheiro da cidade, mas um dos captores disse: "Nós não precisamos de dinheiro. Nós viemos aqui para morrer."

Enquanto se aprofundavam as interações com seus captores, os reféns começaram a desenvolver um senso de quem eram os responsáveis pelo seu destino. Eles estimaram que havia 30 terroristas. Com o aumento da temperatura, muitos dos atiradores tiraram suas máscaras, exibindo barbas espessas. Eles falavam russo e uma língua que os cidadãos da Ossétia disseram que não entendiam, mas que provavelmente era tchetcheno.

Os reféns disseram não saber dizer se havia árabes entre os captores, como afirmou o governo russo sem fornecer evidência.

Um captor falou sobre a vida normal, apesar de seu próprio destino parecer selado. "Ele disse que tinha esposa e cinco filhos em casa", disse Emma.

Os reféns ouviram por meio de rumores compartilhados discretamente entre eles que pelo menos uma das mulheres-bomba detonou a si mesma na biblioteca da escola, na quarta-feira.

"Depois do primeiro dia, nós não vimos as mulheres de novo", disse Bekoyeva.

Os terroristas também falavam de política, dizendo que queriam a liberação de seis inguches que tinham sido detidos após um ataque rebelde ter deixado quase 100 mortos, em junho, e que queriam prolongar a guerra entre a Rússia e sua república separatista da Tchetchênia.

Eles também mostraram estranhos sinais de cuidados pessoais, considerando sua evidente determinação em morrer. Vários terroristas, disseram três reféns, carregavam escovas de dente, creme dental e lâminas de barbear dentro de suas baús de munição.

No final da manhã de sexta-feira, à medida que as temperaturas subiam novamente no ginásio lotado, os reféns foram ficando cada vez mais fracos. "As pessoas já estavam quase perdendo a consciência", disse Azamat. "Nós estávamos sem comer e beber há quase três dias."

Outro menino que sobreviveu, Atsomaz Ktsoyev, 14 anos, disse que os reféns estavam tão famintos que comeram os buquês de flores que trouxeram à escola para o primeiro dia de aula. "Eu nunca imaginei na minha vida que comeria flores", disse ele. Ele acrescentou: "Não ajudou".

Então chegou o fim, logo após as 13 horas. Cerca de cinco terroristas tinham acabado de checar os explosivos, disseram os sobreviventes, e poucos minutos depois o ginásio foi sacudido por uma explosão inesperada.

A primeira bomba explodiu as janelas e encheu o ambiente de fumaça e pedaços de reboco que caíam. Alguns reféns que estavam próximos dos batentes destruídos começaram a escapar por eles, escalando um radiador e atravessando em meio a cacos de vidro para chegar ao pátio. Começaram as corridas pela liberdade.

Outros que sobreviveram mergulharem em busca de abrigo, se apertando contra o chão. Emma disse que Azamat deitou sobre ela e seu irmão mais novo, tentando mantê-los de encontro ao piso do ginásio. "Ele disse para mim: 'Não tenha medo'", disse ela.

Então ocorreu a segunda explosão. O pequeno grupo em que estavam se levantou em meio ao cheiro acre dos explosivos detonados e também fugiu pela janela.

Vida e morte pareciam estar sendo determinadas pelo capricho do local em que as pessoas estavam sentadas. Na multidão densamente aglutinada, aqueles que estavam mais próximos das bombas absorveram grande parte dos estilhaços e impacto, e foram mortos.

Aqueles que estavam distantes delas, e perto das janelas agora destruídas, tiveram uma chance.

Emma disse que correu desesperadamente, enquanto os terroristas abriam fogo. Um menino que estava correndo com sua irmã foi baleado, e a garota parou para ajudá-lo. Emma continuou correndo. "Eu não vi o que aconteceu com eles", disse ela.

Todos estavam correndo loucamente, com os ouvidos zumbindo devido à explosão.

Bekoyeva disse que passou seis ou sete crianças pequenas pela janela, enquanto as crianças mais velhas se viravam sozinhas. Então ela mesma saiu.

Ela e seus dois filhos correram para um abrigo enquanto as balas passavam ao seu lado, e então Azamat arrebentou a janela dos fundos, e eles passaram por ela. Após outra corrida eles chegaram até os policiais e soldados russos. A maioria percebeu que estava seguro, mas nem todos. Ao ver a polícia, Emma ficou confusa.

"Eu fiquei com medo e achei que fossem outros terroristas", disse ela. "Mas um me abraçou e me disse: 'Não tenha medo'".

Asamaz parou quando chegou a um local coberto próximo da polícia, e enquanto a batalha transcorria a poucos metros atrás dele, ele agarrou um punhado de uvas do caramanchão e as passou para as crianças que estavam com ele -a primeira coisa que comiam em mais de dois dias.

Agora deitado na cama, ele se encolhia enquanto Zalina Basiyeva, sua tia, colocava remédios caseiros em suas queimaduras.

Do lado de fora da casa deles, pessoas se amontoavam no quintal, aguardando por notícias. O número de mortos continuava subindo nos escombros fumegantes da escola do outro lado da rua. Funerais estavam sendo planejados, e aqueles que não recebiam notícias de seus parentes desaparecidos faziam viagens à exposição macabra no necrotério.

Tudo o que as pessoas de Beslan imaginavam que sabiam sobre a vida, disse a tia de Asamaz, mudou. Ela esfregava a fibra da casca de ovo nas bolhas e queimaduras do menino, e disse que a lição era indelével: "Nós não tínhamos idéia de quanto éramos felizes". Ao todo, reféns passaram 52 horas sob jugo de terroristas em escola George El Khouri Andolfato

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