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06/09/2004

Dívida é novo combustível da economia dos EUA

The New York Times
Daniel Gross

Em Nova York
Com os preços do petróleo acima de US$ 40 o barril, os especialistas acalmam os nervos mais abalados dizendo que a economia americana atual, puxada pelos serviços, é muito menos viciada no produto preto do que a economia industrial de ontem. Afinal, entre 1973 e 2003 o volume de petróleo e gás necessário para criar US$ 1 de Produto Interno Bruto caiu pela metade. Mudanças estruturais na economia permitiram que o país absorvesse o recente choque de aumentos do cru.

Essa é a boa notícia. A má notícia é que outras mudanças estruturais recentes na economia - a troca pelo governo federal dos superávits por enormes déficits, a predileção nacional pelo consumo em vez da poupança e os preços de imóveis que continuam subindo mais depressa que a renda - aumentaram a dependência do país de outro tipo de combustível: o crédito.

Em conseqüência, o navio da economia americana, que suportou o recente aumento dos preços do petróleo cru, poderá ser mais vulnerável a aumentos súbitos do preço do dinheiro. Se os juros das hipotecas fixas de 30 anos subissem dos atuais 5,4% para 7,5% em fevereiro próximo, o mar poderia ficar muito agitado.

"É melhor ir dormir sem jantar do que aumentar a dívida", escreveu Benjamin Franklin no "Almanaque do Pobre Richard". Bem, nos últimos anos os consumidores, as empresas e os governos americanos têm ido para a cama de barriga cheia e com seus cartões de crédito no limite. De 1988 a 2000, a proporção entre a dívida não-financeira e o PIB se manteve constante, em cerca de 1,8 para 1. Mas recentemente a dívida de consumidores, empresas e governo cresceu como a barriga de um comedor de cachorros-quentes num concurso em Coney Island.

Do início de 2001 ao final de 2003, a economia ganhou US$ 1,317 trilhão em PIB e US$ 4,2 trilhões em dívida. Isso significa que cada novo dólar de produção econômica foi acompanhado de US$ 3,19 em novas dívidas. Por isso hoje, pela primeira vez, a proporção entre a dívida e o PIB está em mais de 2 para 1.

Acrescente-se o crédito financeiro - a dívida que os bancos de investimentos e outros usam para financiar atividades comerciais e semelhantes - e a dívida total mais que duplicou desde 1994. A mera existência de uma dívida enorme não precisaria ser motivo de pânico. Você e eu podemos considerar a dívida como um insumo econômico - emprestamos para poder gastar e investir, e portanto, como os políticos gostam de dizer, "fazer a economia crescer". Mas os economistas acadêmicos a consideram mais como um subproduto. A dívida é criada quando as pessoas, governos e companhias gastam dinheiro, comercializam e produzem.

Visto dessa maneira, o forte aumento do crédito nos últimos anos não é surpreendente ou mesmo alarmante em si. "Quando as taxas de juros estão baixas, você poderia esperar que as pessoas acumulassem mais dívida por PIB, porque é barato", disse J. Bradford DeLong, economista da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Além disso, como qualquer pessoa que já usou uma calculadora de hipoteca sabe, os custos menores do serviço da dívida podem fazer os altos níveis de dívida parecerem muito administráveis. Aqui está um exemplo gigantesco:

Em 1997, quando a dívida pública nacional estava em US$ 5,4 trilhões, Washington pagou US$ 356 bilhões de juros. Em 2003, quando a dívida nacional cresceu para US$ 6,8 trilhões, a conta de juros de Tio Sam caiu para US$ 318 bilhões. O ambiente de taxas de juros ultrabaixas criado por Alan Greenspan, o presidente do Federal Reserve (Banco Central americano), abafou acentuadamente o impacto da negligência fiscal de Washington.

Mas a aparente dependência da economia do crédito para alimentar tudo, desde a compra de casas até o orçamento militar, é preocupante. Se as rendas e as receitas não crescerem, os consumidores estressados poderão ter dificuldade para manter os pagamentos em dia. "Há muito mais famílias do que empresas endividadas", disse Benjamin M. Friedman, um economista de Harvard. "Você precisa esperar que as pessoas conseguirão cumprir as obrigações que assumiram."

Uma economia atrelada a dívidas também é vulnerável ao aumento aparentemente inevitável dos juros. E num período em que a prudência pareceria ditar a fixação dos juros, os americanos assumiram riscos com taxas de juros maiores. Os mutuários - especialmente compradores de imóveis - não reagiram aos aumentos recentes contraindo menos dívidas.

No primeiro trimestre de 2004, a dívida aumentou a um ritmo anual de 8,6%, mais que o dobro do índice de crescimento da economia. Mas nós mantivemos a conta dos juros baixa trocando financiamentos de juros fixos por juros variáveis. A Associação de Banqueiros Hipotecários relatou que as hipotecas com juros ajustáveis constituíram 35% dos novos contratos no segundo trimestre deste ano, contra 27% no quarto trimestre de 2003.

Os consumidores, cujos cartões de crédito sobrecarregados geralmente têm taxas de juros flutuantes, e o governo federal, que orienta seus empréstimos para instrumentos de curto prazo, fizeram essencialmente a mesma coisa. Por isso, se os juros aumentarem, todos teremos de gastar mais com o serviço da dívida, deixando menos dólares para usos mais produtivos - como comprar TVs de tela plana e 90 polegadas. Se o dinheiro ficar mais caro, como motoristas trocando carros dispendiosos por importados mais econômicos, talvez precisemos reduzir nossos gastos e nosso consumo. E isso poderá fazer a economia encolher.

Uma alavancagem coletiva maior, por sua vez, significa que somos mais suscetíveis a choques externos. "Quanto maior a dívida, menor a margem de erro", disse Austan D. Goolsbee, um economista da Universidade de Chicago. As companhias sem dívidas podem suportar vários trimestres magros; as companhias com montes de dívidas muitas vezes descobrem que um único trimestre ruim significa o desastre.

O mesmo vale para os consumidores. Qualquer tipo de incógnita que é assustadora mesmo em tempos tranqüilos - mais um aumento no preço da gasolina, o rompimento da bolha imobiliária, novos cortes de empregos, um período de inflação sustentada - torna-se um pesadelo em épocas de maior alavancagem. Por isso, quando formos para a cama de barriga cheia e com nossa linha de crédito imobiliário, disse Goolsbee, "Acho que deveríamos estar um pouco nervosos". Governo e sociedade mostram perigosa dependência de créditos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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