UOL Notícias Internacional
 

06/09/2004

Furacão Frances castiga o interior da Flórida

The New York Times
Abby Goodnough

Em Palm Beach Gardens, Flórida
Ventos uivantes e furiosas trombas d'água castigaram a costa da Flórida no sábado, e moradores se concentravam em abrigos lotados ou nas suas casas previamente reforçadas para resistir ao persistente e vasto furacão Frances. Por volta do meio-dia do sábado, ventos com intensidade característica de furacões foram registrados e no início da noite a borda do grande olho da tormenta atingiu a terra.

Mas os meteorologistas previam que só depois da meia-noite o centro do furacão passaria sobre a cidade de Stuart, 65 quilômetros ao norte de Palm Beach. Essa passagem se daria mais tarde que o esperado porque o furacão ficou estacionado sobre as Bahamas por mais de 24 horas e se movia rumo à Flórida a uma velocidade de apenas 9,5 km/h. Segundo especialistas, o vagaroso deslocamento da tempestade possibilita que ela readquira força à medida que passa pelas águas quentes do litoral. De acordo com esses especialistas, isso elevaria a ameaça de inundações sérias e de estragos causados pelos ventos.

De acordo com os meteorologistas, o momento da chegada do furacão foi muito ruim, já que o pico da tempestade coincide com a maré cheia, criando condições para que o nível da água suba mais de três metros, gerando intensas inundações ao norte do ponto de contato do Frances com a terra.

Embora uma zona de alta pressão tenha enfraquecido o furacão, fazendo com que ele fosse reduzido a uma tempestade de categoria dois, com ventos constantes de 170 km/h, o Frances continua enorme - tendo o dobro do tamanho do Andrew, que devastou a área de Homestead, cerca de 50 quilômetros ao sul de Miami, em 1992 - e extremamente perigoso, segundo as autoridades governamentais. A velocidade do vento pode aumentar para pelo menos 180 km/h à medida que a tempestade se deslocar para as águas mais quentes da costa da Flórida e para a terra, dizem essas autoridades.

"A população precisa ser muito cautelosa e paciente", disse em uma coletiva à imprensa, na cidade de Tallahassee, o governador Jeb Bush. "Sabemos que, apesar de a velocidade dos ventos ter diminuído, essa tempestade vai causar estragos em vários locais".

O furacão Frances atingiu a Flórida após castigar as Bahamas com ventos fortes e precipitações de até 510 milímetros. Autoridades das Bahamas disseram que os danos registrados na maioria das ilhas envolveram destruição de telhados, quedas de árvores e rompimentos de linhas de transmissão de energia elétrica. Houve também inundações generalizadas, mas na sexta-feira só uma morte havia sido registrada, referente a um jovem de 18 anos que foi eletrocutado ao tentar consertar o gerador da sua casa em Nassau.

Por volta do meio-dia de sábado, Al Dillette, porta-voz do primeiro-ministro Perry Christie, disse que uma segunda morte foi registrada, na região ocidental da Grande Bahama, uma praia e centro de cassinos cerca de 130 quilômetros a leste de Palm Beach, Flórida. Segundo Dillette não havia maiores detalhes disponíveis sobre essa segunda morte, mas ele anunciou que foi relatada a existência de vários ferimentos graves. Segundo Christie, grandes enchentes foram registradas na área de Freeport, a principal cidade da Grand Bahama, e na vizinha ilha de Abaco.

A Grand Bahama é uma das ilhas mais desenvolvidas do arquipélago e autoridades governamentais disseram estar preocupadas com a possibilidade de os danos naquela ilha terem sido os mais extensos.

Bem antes de atingir a Flórida, o furacão Frances deixou bem claro que estava se aproximando.

Autoridades do condado de Osceola relataram que tornados foram vistos na manhã de sábado. E as praias ao longo da costa leste, até Nova Jersey, foram interditadas já na quinta-feira, devido à perigosa agitação do mar.

Em trechos do condado de Palm Beach o vento atingiu a velocidade recorde de 145 km/h na manhã de sábado. Pelo menos 459 mil casas e lojas ficaram sem luz elétrica, segundo a companhia de distribuição de energia Florida Power and Light. Devido ao grande diâmetro da tempestade, os ventos intensos devem atingir regiões a até 170 quilômetros do olho do furacão.

Uma região onde prevalecia o nervosismo quanto à possibilidade de inundações era a área ao sul do Lago Okeechobee, um dos maiores do país, que fornece água à região de Everglades e que transbordou após a passagem de um furacão em 1928, causando a morte de centenas de pessoas. Os meteorologistas disseram que caso os ventos se deslocassem sobre o lago no sentido sul durante a tempestade, eles poderiam empurrar a massa d'água naquela direção e ameaçar uma barragem construída após a catástrofe de 1928.

Em Fort Pierce, ao norte de Stuart, várias casas baratas ao longo da rodovia Intracostal Waterway foram reforçadas com placas de compensado e abandonadas. A casa branca de Jim Hicks era uma exceção e ele disse ter ficado nervoso ao abrir um pouquinho a porta e dar uma olhada no mar encapelado e na rua arborizada por palmeiras.

"Não achei ninguém para cobrir as janelas com folhas de compensado", disse Hicks, que contou ter se mudado de Detroit para Fort Pierce em dezembro passado. "Se as coisas piorarem, vou usar meu capacete de motociclista".

Ao norte, em Vero Beach, Wayne Watkins caminhava ao longo da deserta auto-estrada U.S. 1, levando no colo o seu poodle Petey. "Ele gosta das caminhadas matinais", justificou Watkins, enquanto o vento fazia com que tivesse que andar com os joelhos dobrados. "Sendo assim, fiz a vontade dele".

Watkins acrescentou: "Estive no Vietnã em 1968 e 1969, de forma que isso aqui é moleza".

Embora a movimentação nos abrigos fosse intensa, muitos não estavam cheios pela manhã, o que indica que vários moradores da região litorânea deixaram a área ou se refugiaram nas casas de parentes e amigos. Seis dos quase 24 abrigos do condado de Palm Beach estavam lotados às 10 h de sábado, segundo autoridades locais. Um desses abrigos, a Escola Secundária William Dwyer, em Palm Beach Gardens, abrigava 1.200 pessoas que passaram a noite no local.

"Estamos começando a ficar ansiosos", disse Mildred Mauney, 81, que, juntamente com o marido, Carl, 83, deixou o seu trailer em Palm Beach Gardens na quinta-feira. "Essa situação está nos deixando com os nervos a flor da pele".

A vida no abrigo mostrou ser um desafio especial para gente como Isabel Stubblebine, 86, e o marido, George, 87, que dormiram no chão. A sua enfermeira doméstica, Marie Jean Paul, dançou e contou piadas em uma tentativa de animar o casal de idosos na tarde de sábado.

Um homem ressonava alto e outros tentavam dormir em uma sala de aulas de matemática. Dominic Vargas, 72, que sofre de enfisema, temia que os seus quatro cilindros de oxigênio não fossem suficientes para o período que duraria a tempestade.

Mais ao norte, em Titusville, próxima a Cabo Canaveral, alguns moradores aproveitaram o atraso da chegada do furacão para pescar no Rio Indian, cuja superfície era varrida pelo vento. Gina Denny e seu noivo, Rick Wrubel, ambos da cidade vizinha de Mims, pescavam no momento em que esperavam estar se casando. O local originalmente escolhido para o casamento, na ilha Captiva, foi devastado pelo furacão Charley três semanas atrás, e embora eles tenham selecionado um novo local para a cerimônia em Saint Augustine, os seus parentes se dispersaram devido à iminência da chegada do Frances.

"Estou andando por aí com o anel de casamento no bolso", disse Denny. Ao ser questionada sobre o que faria agora, ela sorriu e disse: "Não tenho idéia. As coisas foram acontecendo uma após a outra".

Um total de 325 abrigos foi aberto na Flórida, acolhendo 71.430 pessoas na manhã de sábado, segundo o centro estadual de operações emergenciais em Tallahassee. Abrigos na Geórgia e na Carolina do Sul também aceitavam refugiados da Flórida. A Cruz Vermelha disponibilizou um abrigo em Kingsland, Geórgia, para acomodar alguns dos moradores da Flórida que fugiram para o norte antes da tempestade. Outros teriam passado a noite nos seus carros em áreas de paradas para repouso à beira da estrada na Geórgia.

A Agência de Gerenciamento Federal de Emergência anunciou que possui 4.500 funcionários preparados para ajudar nos trabalhos de recuperação das áreas atingidas, três vezes o contingente despachado para a Flórida após a passagem do furacão Charley. E um contingente extra de 1.500 funcionários da agência deverá continuar trabalhando com vítimas do furacão Charley tão logo a última tempestade passe. O Charley atingiu partes do Estado em 13 de agosto, causando prejuízos de pelo menos US$ 7 bilhões e 27 mortes.

Bush procurou garantir às vítimas do furacão Charley que elas não seriam esquecidas após o furacão Frances.

"Não desviaremos um centavo ou um grama de energia sequer das pessoas que ainda estão se recuperando da tempestade que as devastou há apenas três semanas", disse o governador, acrescentando que os ventos e as chuvas torrenciais provavelmente afetariam áreas já atingidas pelo furacão Charley.

Michael Brown, diretor da Agência de Gerenciamento Federal de Emergência, estava junto a Bush na entrevista coletiva matinal. Ele disse que sua agência está preparada para fornecer um milhão de refeições diária aos moradores da Flórida após a tempestade, assim como várias centenas de caminhões carregados de água e gelo.

A Cruz Vermelha Norte-Americana disse que essa seria uma das maiores operações da sua história. Segundo o site da organização, 82 abrigos em 23 condados já estão operando, fornecendo refúgio a mais de 21 mil pessoas. E funcionários da Cruz Vermelha planejavam disponibilizar mais abrigos.

Dezessete hospitais ao longo da costa e na região central do Estado foram evacuados ou estavam em processo de evacuação, e os hotéis estavam lotados em pelo menos 15 condados.

Embora o movimento algo errático da tempestade sobre o mar tornasse impossível a previsão exata da sua trajetória, esperava-se que ela se movesse através do Estado no sentido noroeste, transformando-se em uma tempestade tropical antes de chegar ao norte de Tampa, e se reduzindo a uma depressão tropical quando chegasse a Panhandle, na segunda-feira.

Segundo os meteorologistas, caso a tempestade estacione sobre o Estado por um período suficiente para que haja dois ciclos de marés cheias, poderia haver duas inundações variando entre 1,5 metros e 3 metros. Há ainda a possibilidade de ocorrência de tornados, assim como de índices pluviométricos de mais de 500 milímetros em várias áreas, especialmente naquelas próximas ao litoral.

Por volta das 11 horas do sábado, as rajadas de vento eram tão intensas nos condados de Palm Beach, Martin e Saint Lucie, quando o olho do furacão se aproximava da costa, que locutores de rádio pediam à população que se refugiasse em aposentos especiais em suas casas durante o resto do dia.

À medida que as horas passavam, as autoridades pediram às massas ansiosas confinadas nos abrigos que fossem pacientes e se comportassem, o que mostrou ser um exercício frustrante, especialmente nos breves períodos em que os ventos diminuíam.

A maior parte dos bairros de Fort Piece, que deveriam receber um impacto quase frontal quando a tempestade chegasse, estavam vazios e silenciosos, e as ruas estavam cheias de árvores caídas, destroços, placas de trânsito arrancadas e linhas de transmissão de energia caídas. Porém, em alguns bairros mais pobres, era possível ver as pessoas abrindo portas para observar a tempestade.

Em um bairro mais afluente às margens do Rio Indian, Carson McCurdy deixava o seu ancoradouro após tentar amarrar melhor o seu barco. "Precisamos disso", afirmou, acrescentando que a tempestade esperada poderá ter um efeito purificador sobre a água. "É uma renovação".

Esperando o fim da tempestade, vários moradores se preocupavam com a possibilidade de não conseguirem encontrar gasolina, já que muitos postos de combustível por toda a costa, até a altura de Tampa, estavam com os reservatórios vazios na sexta-feira. Bush disse que, embora os portos do Estado tenham sido fechados, navios petroleiros deverão chegar tão logo a tempestade passe.

Embora algumas das pessoas que estão passando a terceira noite em abrigos reclamem de que as autoridades ordenaram a evacuação muito prematuramente, devido à baixa velocidade da tempestade, o governador não aceitou tal acusação.

"Essa será uma tempestade que vai redefinir o trabalho das pessoas presentes nesta sala por muito tempo. E redefinir também por muito tempo os planos de várias famílias. Se me criticarem por ter exagerado nos preparativos, essa é uma crítica que terei prazer em aceitar". Embora considerado lento, fenômeno mostra força e causa prejuízos Danilo Fonseca

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