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06/09/2004

Novo documentário analisa "Garganta Profunda"

The New York Times
Laura M. Holson

Em Los Angeles
Nas palavras do próprio Brian Grazer, "Garganta Profunda" ("Deep Throat") fez maravilhas por sua vida sexual. Era 1976 e Grazer, na época um produtor aspirante ao sucesso em Hollywood, tinha sido convidado a uma sessão particular na casa de um próspero advogado do ramo imobiliário, para a projeção de um filme pornográfico sobre uma mulher que busca o prazer físico através do sexo oral: "Eu lembro que me senti meio deslocado quando cheguei lá", lembrou Grazer numa entrevista concedida em sua casa nas montanhas de Pacific Palisades. "Havia um churrasco. Era lá no alto das montanhas de Beverly Hills, e eu lembro que me sentia assim, caramba, que não tinha muito a ver com aquela gente, já que todos eram mais velhos e elegantes, exuberantes e ricos,e eu lá só começando".

Quando terminou a projeção, lembra Grazer, havia uma energia diferente entre as pessoas da festa, fazendo com que não só as mulheres ficassem mais atraentes para ele, como também que ele mesmo se tornasse mais cobiçado por elas. "Eu realmente fiquei infinitamente mais sexy depois daquele filme". Logo alguns casais foram para os quartos. E Grazer, que agora tem 53 anos e é produtor vencedor de Oscars e especialista em filmes para toda a família, como "Apolo 13" e "O Grinch", lembra que ele mesmo se deu bem e foi para casa com...uma morena brasileira!

Era o começo de uma obsessão de 28 anos -não só pela lembrança de seu belo final de noite cheio de sexo ("Claro que eu lembro de tudo"), mas principalmente pelo interesse no impacto que o filme teve tanto na indústria pornográfica, atualmente um lucrativo e grande negócio, como na própria cultura popular. Toda essa obsessão resulta em "Inside Deep Throat" ("Por Dentro da Garganta Profunda"), documentário que Grazer produziu para a HBO, e que será lançado nos cinemas americanos em 2005.

Quando foi lançado em 1972, "Garganta Profunda" despertou uma tempestade de críticas conservadoras. Autoridades regionais e federais tentaram impedir a exibição nos cinemas, alegando que o filme violava leis de comportamento e ameaçava os fundamentos da sociedade americana. Apesar disso - ou talvez por causa disso mesmo - "Garganta Profunda" se tornou o primeiro filme pornográfico a conquistar uma grande bilheteria, com espectadores assumidos como Warren Beatty, Jack Nicholson e Jacqueline Onassis.

O filme, feito com menos de U$25.000 (na conversão atual o equivalente a R$ 75.000), foi o 11o colocado nas bilheterias americanas de 1973. Com o acréscimo de vendas e locações de videocassete e DVD, "Garganta Profunda" já faturou mais de U$600 milhões (R$ 1 bilhão e 800 milhões), o que o torna um dos filmes mais rentáveis na história do cinema. Conforme a visão de Grazer e dos diretores do novo documentário, o sucesso de "Garganta Profunda" foi a primeira prova real que a curiosidade sexual latente em grande parte dos Estados Unidos poderia se transformar numa máquina de fazer dinheiro para as corporações.

"A revolução sexual já estava acontecendo, mas o sexo explícito ainda não havia chegado ao grande público", diz Randy Barbato, que escreveu e dirigiu o documentário com seu parceiro cineasta Fenton Bailey. "'Garganta Profunda' se tornou um marco para a transformação do sexo em mercadoria. Ninguém desconfiava que sexo explícito pudesse vender tanto".

Grazer, que adiantou U$ 1 milhão de seu bolso para fazer o documentário orçado em U$ 2 milhões (R$ 6 milhões), diz que conheceu Bailey e Barbato há dois anos. Eles foram apresentados por Sheila Nevins, presidente da divisão de documentários e filmes familiares da HBO, que recomendou os cineastas para o projeto de Grazer. Antes a dupla tinha feito documentarios sobre tópicos meio sensacionalistas como as vidas das personalidades televisivas Tammy Faye Bakker e Monica Lewinsky. Eles também dirigiram "Party Monster", dramatização da trajetória de Michael Alig, um garoto das boates de Nova York que atualmente cumpre pena por assassinato, com Macaulay Caulkin .

Inicialmente Grazer quis fazer um filme de ficção baseado na vida de Linda Lovelace, a estrela de "Garganta Profunda", uma mulher que acabou renunciando ao filme e à fama que lhe proporcionou. Mas quanto mais Grazer descobria sobre o filme, ele diz que mais ficava fascinado pela maneira como essa produção pornô de 1973 refletiu uma sociedade em mutação.

Antes de "Garganta Profunda", os filmes pornográficos basicamente consistiam em "rolos" de 10 minutos, que eram vistos em sessões particulares nos fundos de livrarias para adultos ou em pequenos ambientes. Já o filme estrelado por Lovelace era diferente- tinha quase uma hora de duração e um argumento satírico, meio debochado, sobre uma mulher que descobre ter seu clitóris no fundo da garganta. Casais quiseram ver o filme; virou um programa chic. E a platéia não era apenas formada por jovens- a própria avó de Grazer chegou a recomendar o filme ao neto.

"O que tornou "Garganta Profunda" diferente é que ele exigia das pessoas um considerável grau de exposição, ao serem vistas entrando e saindo do cinema" , disse numa entrevista recente Gay Talese, autor do best-seller "A Mulher do Próximo", um estudo sobre comportamento sexual nos Estados Unidos em 1981. Talese recorda: "Aquilo era um ato revolucionário nos anos 70".

Barbato e Bailey entrevistaram mais de 60 pessoas, entre pessoas que formaram a equipe, atores, advogados especialistas em direitos de expressão, promotores e comentaristas de cultura. O processo de elaboração do filme, feito quase ao acaso, é relembrado pelo elenco e pela equipe de produção, muitos deles agora cidadãos da terceira idade. O diretor do filme, Gerard Damiano, lembra que a equipe encarregada de buscar as locações nunca conseguia encontrar um local adequado para as filmagens, e aí os atores foram obrigados a filma-lo num motel de Miami, o antigo Voyager Inn, onde estavam hospedados. Harry Reems, que ganhou na época U$250 (R$ 750) para protagonizar o filme, lembra que foi escalado para o papel só porque o primeiro astro convidado não apareceu para filmar.



O sexo explícito em "Garganta Profunda" chegou a ofender algumas feministas - até mesmo Erica Jong, cujo romance "Medo de Voar", sobre a liberação sexual de uma mulher, também havia criado controvérsia. "Eu fiquei chocada pelo teor ofensivo que havia na idéia de uma mulher cujo clitóris estava na garganta", disse ela numa entrevista recente. "Que idéia mais patriarcal !"

As feministas encontraram aliados insuspeitos entre os setores de direita da época. Ao recuperar entrevistas e esmaecidos trechos de noticiários daquele tempo, o documentário mostra autoridades regionais e federais (inflamadas pela luta do governo Nixon contra a pornografia) confiscando cópias do filme, fechando cinemas e processando os envolvidos com a produção, com a proteção das leis de decência estabelecidas pela Suprema Corte. Alguns órgãos do governo também investigavam se o crime organizado, que para muitos ajudou a financiar "Garganta Profunda", estaria ou não lavando os lucros supostamente obtidos com o filme.

Todo esse estardalhaço ajudou a unir defensores das liberdades civis e celebridades, que se mobilizaram em defesa do filme e da Primeira Emenda, que garante a liberdade de expressão. Johnny Carson fez piadas sobre o filme no "Tonight Show". O título do filme chegou a ganhar outras conotações na linguagem americana- os repórteres do jornal The Washington Post Carl Bernstein e Bob Woodward deram à sua fonte secreta sobre o caso Watergate o apelido de "deep throat".

"'Garganta Profunda'" foi como um vírus", diz o cineasta Bailey . "Um vírus que se espalhou por toda parte, desde a turma dos tarados de casacão até os subúrbios dos Estados Unidos". O documentário termina nos trazendo até o presente. Linda Lovelace morreu num acidente de automóvel em 2002; Damiano, o diretor, se tornou um caddy do golfe, um daqueles caras que transportam jogadores nos carrinhos. E a pornografia se transformou num grande negócio, que se reflete em muitos aspectos da cultura popular.

Erica Jong, que aparece no documentário, observa uma descontinuidade entre a liberdade de expressão que "Garganta Profunda" prometia e o que realmente aconteceu. "Agora temos uma total liberação de artigos sexuais, mas também temos a Lei Patriota", ela adverte."Nunca chegamos a fazer a conexão entre o discurso sexual e o discurso político. Sexo hoje em dia não tem mais nada a ver com revolução. É totalmente associado ao capitalismo e à proteção de pequenas empresas rentáveis".

Recentemente os parlamentares americanos aumentaram as multas contra a "indecência" por parte das redes de televisão. Enquanto isso, a Internet abriu novos e enormes mercados para a pornografia. Isso sem falar da onda de confissões de estrelas pornô quer invadiu as livrarias, incluindo o novo best-seller "How to Make Love Like a Porn Star: A Cautionary Tale" (Como Fazer Amor como uma Estrela Pornô: uma Fábula de Advertência) de Jenna Jameson.

"Recentemente estava em Toronto, no Canadá, uma cidade que tem muitas características de uma típica cidade americana", lembrou Grazer. "E lá havia cartazes com moças bem sensuais, jovens de 18 a 20 anos, mostrando a lingual e simplesmente se anunciando publicamente, dizendo aos interessados que elas querem e são capazes de lhe proporcionar um bom sexo oral se você estiver interessado. E são anúncios que nem têm o interesse explícito de serem chocantes".

Nesse meio tempo, sugere Barbato, o tipo de manifestação pública estimulada por "Garganta Profunda" nos anos 70 ganhou características intimistas 30 anos depois, principalmente porque a tecnologia permite aos indulgentes que exerçam esse tipo de sexualidade no conforto de suas casas. "Antigamente a pornografia era praticada no quartinho dos fundos", diz Barbato. "Aí ela explodiu e ganhou as ruas. Agora voltou para os quartinhos, ou melhor, para os quartos das casas que têm um computador".

Ainda assim, os estímulos liberados por "Garganta Profunda" provavelmente continuarão por aí, diz o produtor Grazer. "Acho que chegamos a um alto grau de anestesia sexual. Não há nada que a gente consuma que não tenha algum componente sexual a lubrificar a relação com o produto. Como poderei dizer? Hoje em dia há sexo em tudo o que merece passar pelos processos de marketing". Filme é considerado um dos maiores clássicos do cinema erótico Marcelo Godoy

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