UOL Notícias Internacional
 

07/09/2004

Republicanos mostram o universo do avesso

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes
O Candidato Maniqueu enxerga o mundo apenas em termos de bem e mal, preto e branco. Ele descarta o cinza, a nuance, a complexidade, o contexto, as circunstâncias que se alteram e os fatos inconvenientes. Homens reais fazem a sua própria realidade.

Tentando se equiparar a John Kerry, que despertou as bases políticas na sua convenção com um discurso atacando a relação agradável entre a Casa de Bush e a Casa de Saud, George W. Bush despertou as bases na sua convenção com um discurso violento contra os liberais, a mídia e a elite.

Apresentando-se como um nobre agente do "poder transformador da liberdade" no exterior, ele disse que "sempre houve quem duvidasse" quando os Estados Unidos usaram "a força" para "promover a liberdade":

"Em 1946, 18 meses após a queda de Berlim para as forças aliadas, uma jornalista de The New York Times escreveu o seguinte: 'A Alemanha é uma terra que passa por uma aguda crise econômica, política e moral. As capitais européias estão assustadas. Em todos os quartéis militares há oficiais alarmados dando tudo de si para lidar com as conseqüências da política de ocupação que eles admitem ter falhado'. Fim da citação. Talvez a mesma pessoa ainda esteja por aí escrevendo editoriais".

Não, ela não está. Anne O'Hare McCormick, falecida em 1954, foi uma correspondente pioneira de assuntos internacionais do Times que cobriu o verdadeiro Eixo do Mal, entrevistando Hitler, Stalin, Mussolini e Paton. Ela estava longe de ser uma radical esquerdista ou uma derrotista. Em 1937 foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Pulitzer de jornalismo, e foi ainda a primeira mulher a fazer parte do conselho editorial do jornal The New York Times.

O presidente distorceu o trabalho da colunista. A "crise moral" e o fracasso que ela descreveu ocorriam nos setores britânico e francês. McCormick relatou que os norte-americanos estavam se saindo melhor devido a sua política de "encorajar a iniciativa e desenvolver um autogoverno". Ela queria que os Estados Unidos enviassem mais tropas e seguissem o rumo traçado --e não que golpeassem e corressem.

Bush usou contra ela a tática do grupo anti-Kerry das lanchas rápidas de combate.

A convenção do Candidato Maniqueu foi uma obra-prima de bizarrice descarada. Nos argumentos usados para desqualificar John Kerry estavam embutidas as mesmas táticas nebulosas utilizadas para caluniar Saddam Hussein --fatos escolhidos a dedo, alegações seletivas e contextos distorcidos.

W. pegou emprestada uma passagem de "O Vingador do Futuro" (Total Recall - 1990), de Arnold Schwarzenegger, um filme futurista sobre a inserção de memórias completas nas mentes de vítimas desprevenidas.

O presidente e o vice ignoraram todos as evidências apresentadas por especialistas, e que agora, que foram compiladas, indicam que não havia ligação entre o 11 de setembro e Saddam Hussein, e tampouco que Saddam representasse uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Após falar sobre "os fanáticos que mataram cerca de 3.000 dos nossos compatriotas norte-americanos", Dick Cheney se gabou: "No Iraque, lidávamos com uma ameaça crescente, e derrubamos o regime de Saddam Hussein".

Embora a convenção tenha mitificado o discurso feito por Bush no local do ataque ao World Trade Center, não houve menção a Osama, o malfeitor que, naquele dia, W. prometeu capturar. Os oradores não mencionaram a espiral brutal de violência no Afeganistão e no Iraque, ou a reaparição do Taleban, que agora encontra refúgio no território do nosso aliado, o Paquistão.

Cheney, o rei da besteira, falou com arrogância de "um Taleban retirado do poder", ainda que, no momento em que a convenção se desenrolava, pelo menos sete pessoas, incluindo dois norte-americanos, fossem mortas por combatentes talebans em Cabul.

W. seguiu em frente com a desacreditada teoria da democracia dominó promovida por neoconservadores e por Ahmad Chalabi --ignorando a extensa investigação conduzida pelo FBI sobre os alegados vazamentos de informações promovidos por neoconservadores importantes do Pentágono para Chalabi, que é acusado de ser espião iraniano, e para um lobby israelense.

"Devido ao fato de termos agido para defender o nosso país, os regimes assassinos de Saddam Hussein e do Taleban são história", disse o presidente, acrescentando que "a democracia está chegando a todo o Oriente Médio".

E quanto ao déficit de US$ 445 bilhões? Bush e Cheney passaram uma borracha sobre ele. No seu universo virado ao avesso, a economia está prosperando, existe dinheiro para cobrir a lista de projetos de Bush e o programa No Child Left Behind ("Nenhuma Criança Deixada para Trás") é algo mais do que um slogan vazio.

Subitamente, W. se autoproclamou novamente um conservador compassivo, ainda que os cromossomos conservadores extras, conforme os denominou Lee Atwater, estejam participando de reuniões fechadas pedindo uma guerra cultural para reduzir os direitos de mulheres e gays.

Bush chegou até a tentar implantar nas nossas cabeças que ele é o filho de Reagan. W. não deu ao pai espaço para discursar, ainda que os dois últimos presidente democratas tenham falado na convenção de Boston.

No interior do Madison Square Garden, W. insistiu em dizer que tornou o mundo mais seguro. Do lado de fora, o mundo em explosão não parecia nem um pouco seguro. Bush e Cheney enchem seus discursos de besteiras e omissões Danilo Fonseca

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