UOL Notícias Internacional
 

07/09/2004

Russos atacam ação de Putin na crise de reféns

The New York Times
Seth Mydans

Em Moscou
Enquanto a Rússia dava início a dois dias de luto nacional pelas vítimas da invasão da escola na Ossétia do Norte, cresciam as críticas à maneira como o governo lidou com a onda de terrorismo que matou mais de 500 pessoas nas duas últimas semanas.

Noticiários de televisão mostraram procissões carregando caixões em campos lamacentos onde mais de 150 pessoas foram enterradas nesta segunda-feira (6/9), após a invasão da escola por extremistas na semana passada, em uma ação que durou três dias, e que deixou ao menos 338 mortos. Cerca de metade das vítimas era de crianças. Pessoas de luto acenderam velas em capelas improvisadas e depositaram também garrafas de água nesses locais, já que os extremistas deixaram os reféns passar sede.

Um homem assustado e com a barba por fazer, identificado na televisão estatal como um extremista capturado, disse que o ataque à escola na cidade de Beslan, na república da Ossétia do Norte, no sul da Rússia, tinha como objetivo provocar uma guerra na região do Cáucaso.

Adotando um tom de dureza inusual, jornais e comentaristas independentes disseram que o governo do presidente Vladimir V. Putin falhou ao não conseguir proteger os seus cidadãos de uma campanha terrorista em ascensão, e ao não ser honesto quanto às raízes dessa campanha, que se encontram na guerra que já dura uma década na república separatista da Tchetchênia.

Apenas seis meses após desfrutar de uma grande onda de popularidade que o conduziu a um segundo mandato, Putin se viu enfrentando a crítica mais direta à sua presidência.

"O contrato do presidente com o povo não está sendo cumprido", escreveu Vladimir Ryzhkov, um legislador independente de discurso franco, no jornal "Nezavisimaya Gazeta".

"O que se deve considerar é que o presidente Putin recebeu uma grande quantidade de poder --de poder pessoal", escreveu. "O parlamento, os partidos políticos e a mídia se retraíram nos bastidores. Essencialmente, eles não são mais independentes. O presidente recebeu um contrato para restaurar a ordem na Rússia e para garantir que o povo russo tenha segurança. Hoje vemos que esse contrato foi quebrado".

Em um discurso no sábado, Putin disse que a Rússia baixou a guarda após o colapso da União Soviética 13 anos atrás e precisa agora reconstruir as suas defesas contra inimigos internos e externos. Grupos de direitos humanos dizem temer que isso possa sinalizar maiores restrições às liberdades civis.

As imagens de morte e pesar pareceram, pelo menos momentaneamente, incentivar os jornais a pressionar um governo que vem tentando penosamente controlar as críticas públicas. Vários deles disseram que as explicações do presidente não foram satisfatórias.

O jornal "Kommersant" disse que a ênfase do discurso de Putin nas vilezas do terrorismo internacional foi um subterfúgio que "permitiria a governos de todo o mundo deixarem de assumir as responsabilidades pelas mortes dos seus cidadãos".

"É como se as crianças não tivessem morrido devido à guerra na Tchetchênia, que já dura dez anos, mas porque o terrorismo internacional está na ofensiva", disse ele.

O jornal "Vedemosti" escreveu: "É estranho que o presidente negligencie a questão da Tchetchênia no seu discurso, procurando, ao invés disso, transferir a responsabilidade para as pessoas que dividiram o país em 1991".

Até mesmo a televisão estatal, que, como era de se esperar, minimizou a extensão da ação dos extremistas na escola na semana passada, admitiu no último domingo que o governo tem o dever de manter a população mais bem informada. "Em tais momentos, a sociedade precisa da verdade", disse Sergei Brilyov, um comentarista da estação "Rossiya".

Na quarta-feira passada, no primeiro dia da ação extremista, as autoridades disseram que havia entre 120 e 150 reféns na escola. Na quinta-feira, ainda que os reféns libertados afirmassem que havia mais de mil pessoas no interior do prédio ocupado, as autoridades sustentavam que o número de reféns não ia além de 354. Finalmente o governo afirmou que havia 1.181 reféns.

No entanto, a compulsão para minimizar as más notícias parece continuar forte por aqui. Nesta segunda, o editor-chefe do "Izvestia", Raf Shakirov, anunciou a sua renúncia forçada após a publicação no sábado de uma primeira página que não trazia nada além de uma enorme e angustiante foto de um homem carregando uma criança ferida.

Falando na "Rádio Liberdade", Shakirov, que transformou o antigo jornal do governo comunista em uma das mais confiáveis publicações do país, disse que foi forçado a renunciar pelo dono do "Izvestia", por aquilo que o proprietário chamou de sua "cobertura emocional" do evento.

"Publicamos aquela foto para mostrar o que o fato significa para o nosso país", afirmou. "E, basicamente, essa imagem foi confirmada mais tarde --isso é uma guerra".

Comentando a demissão de Shakirov, Viktor Loshak, editor da popular revista "Ogonyok", disse à estação de rádio. "Isso me assusta porque estamos nos afastando daquele país que temos procurado construir nos últimos dez anos".

Entre as imagens de televisão mais perturbadoras transmitidas em Moscou nesta segunda, além das procissões de pessoas de luto carregando caixões, estava a face de um homem apavorado, firmemente seguro por dois soldados mascarados, e que foi identificado apenas como o único extremista capturado vivo.

"Por Deus, eu não atirei!", murmurou o prisioneiro quando lhe perguntaram se havia disparado contra os reféns em fuga. "Por Deus, não matei ninguém!". Quando os soldados lhe perguntaram se ele não tinha pena das crianças que manteve durante 51 horas sem comida ou água, ele alegou: "Sim, eu tive pena! Eu também tenho filhos".

Gaguejando, ele disse: "Eles nos reuniram em uma floresta, uma pessoa conhecida como 'o comandante', e disseram que teríamos que capturar uma escola em Beslan". Segundo ele, as ordens foram dadas por Aslan Maskhadov, um líder rebelde tchetcheno, e por Shamil Basayev, um comandante extremista.

O homem, cujo nome e nacionalidade não foram informados, teria sido capturado quando se escondia atrás de um grupo de crianças, disparando uma arma automática.

O comentário televisivo dizia: "Ele está pronto para responder a todas as perguntas, contanto que não o entreguemos às famílias das vítimas".

O desejo de contra-atacar, em resposta às imagens de crianças traumatizadas mostradas na televisão, também pareceu se voltar contra Putin, que nesta segunda tinha poucos defensores.

O Partido Comunista, que sobreviveu como um dos últimos centros de oposição política organizada, parecia despejar toda a sua munição sobre o governo, que acusava de ter falhado no episódio.

O partido acusou o governo de ser responsável pelo "colapso econômico; problemas sociais cumulativos; desemprego; alto índice de criminalidade; corrupção, especialmente nos departamentos policiais; negligência para com os problemas étnicos; enfraquecimento das relações culturais entre os povos deste país; e os erros cometidos na Tchetchênia".

Segunda-feira foi o primeiro de dois dias de luto anunciados pelo governo, e em São Petersburgo cerca de 15 mil pessoas se reuniram para fazer um minuto de silêncio. Outras reuniões populares ocorreram nas cidades de Omsk e Sochi. A televisão promoveu incessantemente uma manifestação similar para a tarde desta terça-feira, nas proximidades da Praça Vermelha, em Moscou.

Enquanto isso, a agência de notícias "France Presse" anunciou que estação de televisão Al-Arabiya, com sede em Dubai, informou que o chefe da sua sucursal de Moscou foi detido na segunda-feira quando se preparava para voltar à capital russa após cobrir a crise na Ossétia do Norte. A estação não anunciou nenhum motivo para a prisão de Amr Abdul Hamid, um cidadão russo nascido no Egito.

Na segunda-feira, em Bruxelas, o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), general Jaap de Hoop Scheffer, convocou um Conselho da Rússia e da Otan para a terça-feira, a fim de que o episódio seja discutido.

"A intenção é demonstrar solidariedade para com a Rússia na luta contra o terrorismo", disse um porta-voz da Otan, James Appathurai.

Embaixada nos EUA

Em Washington, a embaixada russa nos Estados Unidos abriu suas portas ao público por dois dias, até a terça-feira, para permitir que visitantes assinem um livro de condolências pelos mortos durante a invasão e ocupação da escola em Beslan, na semana passada.

A embaixada informou que está aceitando doações para as famílias dos mortos, por meio de cheques nominais às Vítimas do Ataque de Beslan. Presidente russo é criticado pela imprensa e adversários políticos Danilo Fonseca

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