UOL Notícias Internacional
 

08/09/2004

Bush e Kerry não dizem o que farão com o Iraque

The New York Times
David E. Sanger*, em Columbia, Missouri, e

David M. Halbfinger, Greensboro, Carolina do Norte
Continuando a escalada da batalha em torno da segurança nacional, o presidente Bush acusou nesta terça-feira (7/9) o senador John Kerry de adotar o tom antiguerra de Howard Dean, seu rival nas eleições primárias democratas, enquanto o vice-presidente Dick Cheney alertou que o país correrá o risco de um ataque terrorista caso os americanos façam a "escolha errada" em novembro.

As acusações de Bush e Cheney, em aparições separadas de campanha, ocorreram enquanto Kerry, pelo segundo dia seguido, atacava as "escolhas erradas" de Bush, dizendo que de todas elas "a escolha mais catastrófica é a confusão que ele fez no Iraque".

O debate em torno do Iraque foi acentuado pelo número de mortes de militares americanos e civis do Departamento de Defesa que trabalham no Iraque ter atingido a marca de 1.000.

Kerry, o candidato democrata à presidência, o chamou de "marco trágico" e um lembrete de que "nós devemos cumprir nossa obrigação sagrada para com todas as nossas tropas e fazer todo o possível para tomar as decisões certas no Iraque, para que possamos trazê-los de volta para casa o mais cedo possível".

Bush nunca mencionou tal número durante a turnê de ônibus por Missouri. Mas no mesmo instante em que o presidente acusava Kerry de ser indeciso em relação ao Iraque, seu secretário de imprensa, Scott McClellan, dizia aos repórteres que mil homens e mulheres tinham morrido "para derrotarmos as ideologias do ódio e da tirania".

Apesar de ambos os candidatos também terem tentado falar sobre a economia nesta terça-feira --Bush exaltando os benefícios de seus cortes de impostos para pequenas empresas, Kerry alertando que a polícia tributária do governo encoraja as empresas a se mudarem para o exterior-- o Iraque novamente alimentou a discussão cada vez mais amarga, e o tema provavelmente permanecerá sendo o mais proeminente.

Kerry está planejando falar dos erros da execução da guerra no Iraque nesta quarta (8), na estação de trem reformada de Cincinnati. É o mesmo local onde Bush expôs seu argumento, há quase dois anos, de que Saddam Hussein estava reunindo grandes estoques de armas de destruição em massa e poderia atacar em breve os Estados Unidos. Nenhuma evidência de armas de destruição em massa foi encontrada no Iraque.

A campanha de Kerry também planeja uma nova propaganda, "Escolhas Erradas", vinculando a guerra a questões domésticas e econômicas. A propaganda começa com o locutor dizendo: "George Bush --US$ 200 bilhões para o Iraque". Então continua: "Na América, desemprego e aumento dos custos de atendimento de saúde. As escolhas erradas de George Bush nos enfraqueceram aqui em casa".

Tanto Cheney quanto Bush atacaram Kerry na terça-feira, investindo contra sua firmeza para ser comandante-em-chefe na era pós-11 de setembro. "É absolutamente essencial daqui oito semanas, em 2 de novembro, fazermos a escolha certa", disse o vice-presidente para um público de cerca de 350 pessoas em Des Moines, Iowa, "porque se fizermos a escolha errada, então há o risco de sermos atacados novamente, e sermos atacados de um modo que será devastador do ponto de vista dos Estados Unidos".

Ele também disse que se Kerry for eleito, o país correrá o risco de retornar à "mentalidade pré-11 de setembro", na qual os ataques eram vistos como atos criminosos, não parte de uma guerra contra o terrorismo.

O candidato a vice de Kerry, o senador John Edwards, da Carolina do Norte, respondeu prontamente que Cheney tinha "cruzado a linha", acrescentando: "O que ele disse ao povo americano é que se você for às urnas em novembro e eleger qualquer um que não seja eles, então outro ataque terrorista ocorrerá, e será culpa de vocês. Isto é algo não-americano".

Por sua vez, desde sua primeira parada na manhã de terça-feira, em um campo de futebol em Lee's Summit, até um comício no fim da tarde em uma área de feiras e exposições daqui, Bush ridicularizou Kerry por sua declaração de segunda-feira de que o Iraque foi "a guerra errada no local errado na hora errada".

"Ele acordou na manhã de ontem com outra nova posição", disse Bush para mais de 10 mil pessoas, reunidas para um comício no horário do café da manhã. "E desta vez nem mesmo é dele. É de seu ex-rival, Howard Dean."

"Ele até mesmo usou as mesmas palavras usadas por Howard Dean, quando ele supostamente discordava dele", disse Bush. "Não importa quantas vezes o senador Kerry mude de opinião, nós agimos certo em tornar a América mais segura removendo Saddam Hussein do poder."

Ao citar as palavras de Dean para zombar de Kerry, o presidente estava claramente tentando associar o senador de Massachusetts ao candidato que a Casa Branca torcia para ser o adversário de Bush. Membros da campanha de Bush viam Dean como a personificação da ala pacifista e liberal do Partido Democrata, um candidato que poderiam usar tanto para mobilizar a base de Bush quanto para tornar os eleitores indecisos profundamente incomodados em um momento de ameaça.

A campanha de Kerry tem tentando manter a mira em Bush, argumentando que o presidente, tentando se concentrar somente na decisão de ir à guerra, está evitando os assuntos bem mais desagradáveis de seu fracasso em encontrar as armas que serviram de argumento para a invasão, ou o que Bush chamou de "erro de cálculo" de uma vitória militar rápida, que contribuiu para a insurreição que já dura 17 meses no Iraque.

"Isto foi escolha dele", disse Kerry na terça-feira, fazendo campanha em Greensboro, Carolina do Norte. "Ele escolheu a data para o início desta guerra, ele escolheu o momento, e ele optou pela América ir sozinha -e hoje, todos os americanos estão pagando o preço."

"Me permitam explicar para ele com algumas poucas palavras simples", disse Kerry em outro momento. "Eu não teria feito apenas uma coisa diferente em relação ao Iraque, eu teria feito tudo diferente em relação ao Iraque."

"Foi errado ir às pressas à guerra sem um plano para obter a paz. Foi errado não demonstrar o tipo de habilidade e liderança política que forma uma verdadeira coalizão internacional para dividir o custo e o fardo. E foi errado colocar nossos jovens homens e mulheres em risco sem as armaduras, jipes Humvee, equipamentos e os reforços que precisavam."

Mas os assessores de Bush, circulando nos fundos da ampla área de feiras e exposições do Estado do Missouri, em Sedalia, enquanto Bush falava sobre a guerra contra o terror na suja área onde gado premiado geralmente é julgado e leiloado, trabalhava arduamente para colocar Kerry na defensiva e mantê-lo assim.

Eles passaram o dia enviando mensagens por Blackberry uns aos outros e para os repórteres, com citações de Kerry que pareciam contradizer sua declaração da segunda-feira sobre a "guerra errada no local errado na hora errada".

Em um debate entre os pré-candidatos democratas de maio de 2003, Kerry foi perguntado por George Stephanopoulos, da ABC News, sobre se a decisão de invadir o Iraque foi acertada. "George, eu disse na época que preferia que tivéssemos dado uma maior oportunidade para a diplomacia", disse Kerry, "mas eu acho que foi a decisão certa desarmar Saddam Hussein. E quando o presidente tomou a decisão, eu o apoiei, e eu apoio o fato de o termos desarmado".

Dean, por sua vez, a chamou de "a guerra errada na hora errada, porque estabelecemos uma nova política de guerra preventiva no país", palavras que Kerry pareceu repetir na segunda-feira.

A campanha de Kerry disse na terça-feira que muitas pessoas usaram termos semelhantes, e citou uma entrevista de maio na qual o general Anthony Zinni, que discordou de Bush em relação ao Iraque, a chamou de "a guerra errada, no local errado e na hora errada --com pouco ou nenhum planejamento".

Apesar da crescente ferocidade do debate em torno do Iraque, nenhum candidato foi bem específico sobre como lidar com o problema do Iraque, que um deles herdará em 20 de janeiro.

Kerry disse que buscará tirar todas os soldados americanos do país em quatro anos; Bush não estabeleceu prazos, e se recusou a falar sobre quanto da missão de estabilização e transformação do país precisará estar concluída para que os americanos possam partir.

Em vez disso, com as mangas de sua camisa arregaçadas enquanto recebia perguntas dos cidadãos de Sedalia, Bush rebateu o argumento de Kerry de que ele torceu o braço de países não dispostos a participarem de uma operação militar mal planejada.

"Meu oponente os chamou de 'os coagidos e subornados'", disse Bush sobre os outros países no Iraque. "Isto denigre nossos aliados. Tony Blair é um sujeito correto", disse ele, passando então a elogiar os australianos, poloneses e outras nações. "Eles não são os coagidos e subornados, eles são os corajosos e dedicados."

Em seu evento "Pergunte ao presidente Bush" em Columbia, Bush se esquivou de várias perguntas, incluindo uma de um simpatizante preocupado com a dispersão excessiva das forças armadas. "Nós não precisamos de convocação", declarou Bush, insistindo que um exército composto apenas de voluntários basta para atender as necessidades dos Estados Unidos.

Duas perguntas o convidaram a condenar a Alemanha e a França. "Por que os franceses são tão ingratos por tudo o que fizemos por aquela nação, especialmente no passado?" insistiu uma pessoa. Bush hesitou por um instante, dizendo: "Nós apenas tentamos trabalhar com todos da melhor forma possível", e discutiu o valor das coalizões. Então, se recompondo, ele disse: "Eu não vou tocar neste assunto".

Kerry, em seu próprio evento de campanha, disse: "Nós precisamos de um presidente que tenha a habilidade e a liderança para atrair outros países à mesa em que precisam estar", disse ele sob grande aplauso, "porque o mundo tem participação no resultado da guerra contra o terror".

Ele acrescentou que também é hora dos iraquianos "se levantarem e, caso queiram a liberdade, eles precisam começar a abraçá-la, precisam fazer sua parte para que aconteça e precisamos de um presidente que possa fazer com que isto aconteça".

"Você não empurra liberdade goela abaixo das pessoas à ponta do cano de uma arma", disse ele.

*Colaboraram Rick Lyman, de Des Moines, Iowa, e Randal C. Archibold, de Chillicothe, Ohio. Campanha presidencial se concentra em ataques sem propostas George El Khouri Andolfato

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