UOL Notícias Internacional
 

08/09/2004

Guerra impede EUA de ver as mentiras de Bush

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
O melhor livro que eu já li sobre os Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro não trata especificamente nem dos Estados Unidos nem do 11 de setembro. O nome é "War Is a Force That Gives Us Meaning" ("Guerra É a Força que Nos Dá Sentido"), um ensaio sobre a psicologia da guerra escrito por Chris Hedges, um veterano correspondente de guerra.

Melhor do que qualquer análise de opinião ou que qualquer pesquisa qualitativa, serve para explicar por que o presidente Bush, apesar de todas as falhas de suas políticas doméstica e externa, está nas frente nas pesquisas eleitorais.

A guerra, segundo Hedges, funciona como escape para algumas necessidades fundamentais. "Sob a superfície de cada sociedade, inclusive a nossa", diz o autor, "existe uma demanda latente e apaixonada por uma causa nacional que nos apaixone, como a paixão que a guerra é capaz de proporcionar".

Quando a psicologia de guerra ocupa o primeiro plano, o povo passa a acreditar, temporariamente, num plano de "realidade mítica" em que a nossa nação representa o bem em estado puro, nossos inimigos são o mal em estado puro e qualquer um que não seja nosso aliado é o nosso inimigo.

Esse estado mental funciona enormemente em benefício dos que estão no poder. Uma passagem reveladora do livro descreve a reação da Argentina à guerra das Malvinas, em 1982. Na época o general Leopoldo Galtieri, líder da junta militar que governava o país, cinicamente envolveu o país num conflito armado para que não prestassem atenção sobre o fracasso de suas políticas econômicas.

Funcionou: "A junta, que estava a beira de um colapso logo antes da guerra, se tornou momentaneamente a salvadora da pátria".

A questão é que, quando a psicologia de guerra entra em ação, o povo quer desesperadamente acreditar em sua liderança, e passa a atribuir qualidades heróicas até ao mais medíocre dos comandantes. Na Argentina, a adulação à junta militar só terminou depois de uma derrota militar humilhante.

George W. Bush não é Galtieri: os Estados Unidos realmente foram atacados em 11 de setembro, e qualquer presidente contra-atacaria o regime talibã. Mas o governo Bush, assim como a junta argentina, faturou benefícios políticos enormes devido ao impulso que leva uma nação em guerra a se unir em torno de seu líder.

Um outro presidente poderia ter contido o impulso de explorar esse tipo de apoio para obter dividendos políticos; Bush não se conteve. E o governo dele vem procurando perpetuar a psicologia de guerra para manter as possibilidades dessa exploração.

Passo a passo, a luta contra a Al-Qaeda primeiro foi uma "guerra contra o terror" de caráter universal, depois um confronto contra o "eixo do mal", e mais tarde uma guerra contra todo o mal por toda parte. Ninguém sabe quando irá terminar.

O que está claro é que, quando o debate político se concentra no que Bush realmente fez no governo, a popularidade dele cai. Somente quando se tenta de tudo para o assunto realmente se concentrar na guerra contra o terror --ou melhor, na "liderança" de Bush, seja o que isso quer dizer, e não no que ele realmente está fazendo contra as ameaças terroristas-- só assim ele consegue avançar nas pesquisas.

A convenção da semana passada tornou claro que Bush pretende usar o que restou de sua imagem heróica para vencer a eleição, e as pesquisas posteriores sugerem que essa estratégia pode estar funcionando. E agora. o que John Kerry pode fazer?

Concentrar a campanha exclusivamente nos assuntos domésticos não irá funcionar. Claro que Bush deve prestar contas pelo desempenho pífio na área de empregos, saúde pública e meio ambiente.

Mas, como diz Hedges em seu livro, quando a psicologia de guerra faz com que o povo deseje firmemente acreditar nos seus líderes, "há muito pouco que a lógica ou os fatos ou a verdade possam fazer para alterar esse estado coletivo".

Para vencer, a candidatura Kerry terá que convencer um número significativo de eleitores que o autoproclamado "presidente da guerra" não é um líder eficiente contra a guerra --ele apenas interpreta esse papel na televisão.

A vantagem dessa acusação é que ela é verdadeira. É difícil encontrar um analista de segurança nacional apartidário que tenha boas palavras sobre a política externa do governo Bush. O Iraque, em particular, é um desastre em câmera lenta, proporcionado pela inconsistente sensação de que tudo daria certo, pelo nepotismo e por uma incompetência épica.

Se eu estivesse gerenciando a campanha de Kerry, eu lembraria às pessoas sobre o truque envolvendo a fotografia que mostrava Bush com roupa de aviador, quando ele declarou o fim dos principais combates. Na verdade, a guerra continua no mesmo passo.

A cobertura da guerra no Iraque diminuiu consideravelmente após a suposta transferência de poder no dia 28 de junho, mas o número de soldados americanos mortos é o mesmo desde esse dia até hoje, em relação às baixas ocorridas desde o dia da primeira invasão até a transferência.

E eu também destacaria na campanha que, enquanto Bush não economizou esforços para preparar seu desembarque no Iraque --chegou até a treinar técnicas de sobrevivência submarina na piscina da Casa Branca-- ele não se preparou para as questões que realmente eram importantes, como a segurança e a reconstrução do Iraque após a queda de Bagdá.

Será que minha estratégia eleitoral funcionaria? Não sei. Mas, para vencer, Kerry deve tentar esvaziar o mito que os manipuladores de Bush tão persistentemente souberam criar. Espírito bélico cria necessidade de confiar no líder, diz historiador Marcelo Godoy

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