UOL Notícias Internacional
 

10/09/2004

CIA escondeu presos no Iraque da Cruz Vermelha

The New York Times
Douglas Jehl e

Eric Schmitt

em Washington
Carcereiros do exército norte-americano no Iraque, atendendo a solicitações da Agência Central de Inteligência (CIA), mantiveram dezenas de detentos na prisão Abu Ghraib e outras unidades prisionais cujos nomes não constavam nas listas oficiais de prisioneiros, a fim de ocultá-los dos inspetores da Cruz Vermelha, disseram nesta quinta-feira (9/9) dois generais do Exército dos Estados Unidos. O total de prisioneiros era bem maior do que havia sido previamente relatado.

Um inquérito militar concluído no mês passado revelou a existência de oito casos documentados dos chamados "detentos fantasmas". Mas os generais que testemunharam perante duas comissões parlamentares e que concederam entrevistas nesta quinta-feira disseram que o total desses prisioneiros era bem maior.

"O número está na casa das dezenas, chegando talvez a cem", disse ao Comitê do Senado para as Forças Armadas, o general Paul J. Kern, o oficial de alta patente que fiscalizou o inquérito do exército. Um outro investigador, o general de divisão George R. Fay, diz que esse número era de "cerca de 24", mas ambos os oficiais disseram ser incapazes de fornecer uma quantidade precisa já que a maior parte dos detentos da CIA não possuía qualquer registro.

A revelação gerou novos questionamentos a respeito das práticas da CIA no Iraque, como, por exemplo, por que a agência de inteligência tinha a custódia de certos prisioneiros iraquianos, que técnicas de interrogatório foram usadas, que fim levaram os detentos fantasmas, e se eles retornaram a custódia das forças armadas. Até o momento, vieram à tona dois casos nos quais prisioneiros sob custódia da CIA foram removidos do Iraque por vários meses e mantidos em centros de detenção fora do país.

Uma outra pergunta que ficou sem resposta na quinta-feira foi por que o coronel Thomas M. Pappas, o oficial de inteligência militar que fiscalizou os interrogatórios na prisão, permitiu que oficiais de inteligência da CIA usassem a prisão para esconder os detentos fantasmas.

Kern disse que quando Pappas levantou questões quanto a tal prática, um oficial militar de alta patente que estava à época em Bagdá, o coronel Steven Boltz, o encorajou a cooperar com a CIA porque "todos formavam uma só equipe".

Mesmo assim, Kern disse que Pappas deveria ter-se oposto àquela prática. "Se me dissessem para manter um prisioneiro da CIA em uma unidade do Exército dos Estados Unidos comandada por mim, eu tomaria as providências para que o detento ficasse sujeito às nossas regras, e às de mais ninguém", disse Kern ao Comitê Parlamentar para as Forças Armadas. "Se isso não ocorresse, eu exigiria uma explicação bem clara sobre o fato".

O secretário de Defesa Donald H. Rumsfeld admitiu que em um dos casos, agindo para atender a um pedido de George J. Tenet, o diretor de Inteligência Central (DCI em inglês, o diretor da CIA e de todas as agências de inteligência dos Estados Unidos), ordenou em novembro a oficiais militares no Iraque que mantivessem detido em Camp Cropper, uma prisão de segurança máxima, um homem suspeito de ser um terrorista iraquiano, sem, no entanto, registrá-lo.

Segundo oficiais de inteligência, o prisioneiro, às vezes chamado de "Triple-X", ficou inicialmente confinado pela CIA em um local secreto fora do Iraque, mas foi enviado de volta depois de advogados do governo terem concluído que, como iraquiano, ele deveria ser mantido no país.

Mais tarde o paradeiro de "Triple-X" no sistema prisional militar dentro do Iraque ficou desconhecido durante vários meses, reconheceu o Pentágono. Segundo oficiais militares, pelo menos um outro prisioneiro no Iraque, um sírio, foi inicialmente removido do país e mantido em um navio da Marinha antes de retornar à Abu Ghraib no outono passado. Oficiais de inteligência não disseram se todos os prisioneiros mantidos no Iraque pela CIA foram mais tarde entregues às forças armadas.

No seu depoimento de quinta-feira, Fay disse que oficiais de inteligência da CIA em Bagdá e na sede da agência em Langley, Virgínia, se recusaram por três vezes a responder ao seu pedido de informações, tendo lhe dito mais tarde que estariam conduzindo sua própria investigação do assunto.

Mark Mansfield, um porta-voz da CIA, se recusou a fazer comentários sobre o número de detentos sem registros. Ele não negou a declaração de Fay, mas disse que a agência está cooperando com os investigadores criminais militares.

Oficiais militares disseram que a prática da CIA de usar prisões mantidas pelo exército no Iraque a fim de ocultar prisioneiros que serão submetidos a interrogatórios viola as regras militares e a legislação internacional, e causa "uma falta de prestação de contas dos comandantes das prisões".

Embora os interrogadores da CIA fossem obrigados a obedecer às regras do exército na prisão, eles não permitiam a presença de soldados durante os interrogatórios e não compartilhavam os resultados obtidos com os principais comandantes militares no Iraque. Os inspetores gerais do Departamento de Defesa e da CIA estão investigando o assunto.

Segundo a Convenção de Genebra, o não fornecimento temporário das identidades dos prisioneiros é permitido em certos casos excepcionais para atender a necessidades militares. Mas os generais do exército revelaram na quinta-feira que estão certos de que as práticas utilizadas pela CIA no Iraque ultrapassaram bastante esse limite.

As novas revelações quanto a prisioneiros não registrados geraram críticas furiosas de democratas e republicanos, e a promessa do senador John W. Warner, republicano de Virgínia e diretor do comitê, de realizar um inquérito específico.

"Essa situação envolvendo a CIA e os soldados fantasmas está começando a parecer um filme de mau gosto", disse o senador John McCain, republicano do Arizona. Em um dia no qual os comitês da Câmara e do Senado realizaram audiências sobre o escândalo e as revelações do inquérito militar e de uma comissão independente, os parlamentares pediram aos investigadores militares que revisassem os resultados para determinar se oficiais de alta patente, incluindo o general de quatro estrelas Ricardo S. Sanchez, à época o mais importante comandante no Iraque, e os seus principais assessores, deveriam ser punidos, e não apenas assinalados para serem alvos de críticas.

O senador Jack Reed, democrata de Rhode Island, acusou o principal advogado sob o comando de Sanchez, o coronel Marc Warren, por ter conhecimento dos abusos cometidos contra prisioneiros e testemunhados pelos inspetores da Cruz Vermelha, e não ter informado o seu chefe sobre o problema por mais de um mês, já que, segundo ele, "não acreditava que tais abusos estivessem realmente ocorrendo".

"Por que toda essa gente não seguiria os regulamentos do exército, não informaria as violações da Convenção de Genebra e esperaria meses para fornecer essas informações vitais aos seus comandantes?", questionou Reed.

Em depoimentos perante a comissão da Câmara, dois ex-secretários de defesa disseram que o fato de dois dos principais assessores de Rumsfeld não terem fiscalizado apropriadamente a formulação de políticas de interrogatórios para o Iraque contribuiu para que ocorressem os abusos.

Os dois secretários, James R. Schlesinger e Harold Brown, elogiaram Rumsfeld, afirmando que ele se portou de forma responsável, e reiteraram com vigor declarações passadas, dizendo que o atual secretário não deveria renunciar devido ao caso.

Mas ambos foram mais específicos que no passado ao afirmarem que houve erros por parte de dois subsecretários de Defesa e do conselho geral do Pentágono.

Brown, que integrou o governo do presidente Jimmy Carter, disse que a culpa também pode ser atribuída ao "topo da pirâmide" da administração Bush, por aquilo que chamou de "responsabilidade pela não elaboração planos para aquilo que de fato ocorreu após a derrubada de Saddam Hussein no Iraque".

E, embora não recomendando renúncias de cargos, no seu depoimento perante o comitê da Câmara, Brown afirmou que cabe agora aos eleitores julgar a conduta do governo no Iraque, na prisão Abu Ghraib e em outros episódios. "Quando se trata de desempenho geral, há uma outra forma de lidar com a questão, e essa forma se chama eleição", disse Brown.

A audiência na Câmara foi a primeira em quatro meses sobre a Abu Ghraib, e ela demonstrou que as tensões entre os partidos estão aumentando quanto à questão.

A maior parte dos republicanos, incluindo o deputado Duncan Hunter, da Califórnia, chefe da comissão, procurou minimizar a significância dos abusos, dizendo que eles refletem a má conduta de uma pequena minoria de soldados dos Estados Unidos.

Já os democratas, incluindo o senador Ike Skelton, de Missouri, o principal membro democrata da comissão, disse que o governo Bush tem errado desde que os abusos vieram ao conhecimento público em abril, ao descrevê-los dessa forma branda.

"Nós não devemos continuar afirmando que essa é a ação de apenas umas poucas maçãs podres", disse o senador na audiência.

Mas até mesmo alguns republicanos fizeram comentários altamente críticos. "Presenciamos uma gigantesca falha de liderança --uma falha que há um ano seria impensável no Exército dos Estados Unidos", disse o deputado John Kline, republicano de Minnesota e coronel reformado do corpo de fuzileiros navais. Generais dos EUA admitem que violaram a convenção de Genebra Danilo Fonseca

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