UOL Notícias Internacional
 

10/09/2004

George W. Bush não cumpriu seu serviço militar

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Colunista do NYTimes
O presidente Bush já declarou que em 1972 cumpriu suas obrigações militares na Guarda Nacional Aérea, numa base no estado do Alabama. Só que o militar Bob Mitz estava nessa mesma base --e tem certeza de que Bush não apareceu por lá.

Muitos outros oficiais também já disseram que não se lembram da presença de Bush nos exercícios da tropa. Mas com Mintz é diferente, porque ele chega até a se lembrar que naqueles tempos procurou muito por Bush e não o encontrou.

Mintz recorda que na época ouviu dizer que Bush --então descrito como sendo um jovem piloto texano com influência política-- tinha acabado de ser transferido para a base. Também tinha ouvido dizer que Bush era solteiro --e Mintz então começou a procurar o possível companheiro para farras. Ele tem certeza de que se lembraria caso Bush realmente tivesse aparecido pela base.

"Claro que eu o teria visto", disse Mintz nesta terça-feira (7/9). "A Guarda por lá é uma unidade pequena, e ninguém poderia entrar ou sair do grupo sem ser notado. O espaço era pequeno demais". Havia apenas de 25 a 30 pilotos por lá, e Bush --filho de um embaixador da ONU que já havia namorado a filha do presidente, Patricia Nixon-- teria sido uma presença particularmente memorável.

Eu me mantive afastado até agora dos detalhes sobre a evasão militar de Bush no Vietnam porque parecia haver questões mais importantes. Mas se os partidários de Bush atacam John Kerry pela conduta do Democrata, depois que ele se tornou voluntário para uma das missões mais perigosas no Vietnam, acho que é bem justo investigar o comportamento de Bush naquela época.

Não é um comportamento bonito de se lembrar. Bush foi dispensado do serviço ativo, e talvez escapado de ir ao Vietnam, somente depois que o presidente da Câmara de Representantes do Texas interveio em seu favor, devido à influencia familiar.

Bush se alistou em maio de 1968 (!!) para um serviço de seis anos, o que poderia justificar o investimento de U$ 1 milhão de dólares (pelo câmbio atual, equivalente R$ 3 milhões) feito em seu treinamento como piloto.

Mas depois de apenas dois anos no serviço, Bush subitamente parou de voar; não apareceu para o exame médico e pediu para ser transferido para o Estado de Alabama. E ele nunca mais pilotou um avião militar.

Bush insiste que depois de se mudar para o Alabama em 1972 cumpriu seu serviço na base de Dannelly da Guarda Nacional Aérea em Montgomery, no Alabama --embora ele diga que não se lembra exatamente do que fez por lá.

O único oficial de lá que se lembra de Bush foi produzido e apresentado pela Casa Branca --ele se lembra nitidamente de Bush, só que de épocas em que o próprio Bush reconhece que não estava por lá.

Em comparação, Mintz é uma testemunha e tanto. Descreve-se como "um militar muito forte", serviu de 1959 a 1984. Piloto comercial, agora ele é pró-Democrata, mas foi Republicano na maior parte da vida, e não é dos que odeiam Bush. Quando eu perguntei a ele se achava que a controvérsia sobre a Guarda Nacional Aérea levanta dúvidas sobre a credibilidade de Bush, Mintz respondeu apenas: "Isso cabe ao povo americano decidir".

Em sua primeira entrevista para uma organização de notícias de alcance nacional, Mintz recorda porque ficou tão guardada em sua memória a ausência do jovem Bush: "Rapazes solteiros eram meio raros. Por isso quem aparecia nessa condição eu logo procurava para dar umas voltas". E por que tocar nesse assunto agora? "Depois de muita auto-análise, senti que é minha obrigação a de aparecer para fazer a coisa certa".

Outra testemunha particularmente confiável é Leonard Walls, coronel aposentado da Força Aérea, que então trabalhava em tempo integral como instrutor de pilotos na base de Dannelly. "Eu ficava lá praticamente todos os dias", diz Walls, acrescentando: "Eu nunca o vi por lá, e olha que estive na base de julho de 1972 a julho de 1974". Walls, que se descreve como apolítico, ainda diz: "Se ele tivesse estado por lá mais de uma vez, eu o teria visto".

O simples fato de que há muitos documentos perdidos, e muitas recordações perdidas, me sugere intensamente que Bush pulou fora de suas obrigações militares. Não é justo dizer que Bush desertou. Minha intuição é de que ele, como outros da época, negligenciou seus deveres com a Guarda Nacional, fez o serviço mínimo necessário para evitar encrencas, para finalmente ser dispensado pelos comandantes, que o consideravam uma fonte de dores de cabeça, mas que também achavam que não valia a pena se aborrecerem ao puni-lo.

Há outra testemunha. "Os registros militares clara e convincentemente provam que ele não cumpriu as obrigações com as quais se comprometera ao se alistar na Guarda Nacional Aérea", escreve Gerald Lechliter. Ele é um coronel do Exército aposentado, e fez o exame mais meticuloso que já vi sobre a folha corrida de Bush. (Estou encaminhando a análise de 32 páginas para a Web; o link está no topo do site www.nytimes.com/kristofresponds).

Lechliter acrescenta que Bush recebeu pagamentos fraudulentos ou não-autorizados que violaram regras da Guarda Nacional, de acordo com documentos liberados pela própria Casa Branca.

Será que isso desqualifica Bush para ser comandante-em-chefe? Não. Mas isso deveria desqualificar a organização da campanha de Bush, quando denigre a folha militar de John Kerry, um adversário que ainda ostenta na coxa cicatrizes de explosivos do Vietnam. Presidente não tem moral para atacar o passado militar de Kerry

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