UOL Notícias Internacional
 

10/09/2004

Republicanos usam medo para encobrir mentiras

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYT

Em Washinton
George W. Bush e Dick Cheney sempre usaram o pai do presidente como uma espécie de oposto de uma estrela-guia. Em 1992, Bush Pai cortejou os eleitores com a mensagem: "Eu me importo". Assim, nesta semana, Cheney galanteou o eleitor com a mensagem: "Vocês morrem".

A beleza terrível da simplicidade desse recado cresce dentro de nós. Um sinal da contenção sombria, machista e paranóica do vice-presidente é o fato de ele não chegar de fato à sua emocionalmente satisfatória conclusão: "Vote em nós ou o mataremos".

Sem a presença de Zell Miller nos arredores para suplantá-lo no terreno da loucura, e liberado após uma convenção que tentou humanizá-lo com netas, cavalos e piadas caseiras, Cheney está de volta como o "amedrontador-em-chefe".

Finalmente ele deixou simplesmente escapar aquilo que a equipe de Bush tem procurado dizer de forma mais sutil há meses: um voto em John Kerry é um voto para os terroristas. Cheney afirmou em Des Moines, capital de Iowa, com uma voz calma de barítono.

"Porque se fizermos a escolha errada, então o perigo é que sejamos novamente atingidos. Que sejamos atingidos de uma forma que será devastadora do ponto de vista dos Estados Unidos, e que voltemos ao estágio mental anterior ao 11 de setembro, se você quiser colocar dessa forma. Que achemos que esses ataques terroristas não sejam ações criminosas e que não estejamos realmente em guerra".

Esses caras parecem ter raciocinado que, se tais táticas amedrontadoras funcionaram para a obtenção de apoio à guerra no Iraque, talvez elas possam dar resultado na tarefa de erodir a adesão a John Kerry. Eles vincularam Saddam ao terrorismo, atemorizaram os democratas (incluindo Kerry, que nunca foi capaz de atacar efetivamente o casus belli de Bush) e enganaram o país, fazendo com que seguíssemos as suas invencionices bélicas. Assim, por que não vincular Kerry ao terrorismo e assustar os eleitores, fazendo com que estes se agarrem à atual equipe que está na Casa Branca?

É algo como aquele conto de fadas no qual víboras e sapos saltam da boca de uma garotinha travessa vítima de uma praga quanto ela tenta falar. Toda vez que Cheney abre a boca, pulam dela animais daninhos.

O vice-presidente e o presidente sequer mencionaram Osama durante a convenção devido ao fato inconveniente de ele ainda estar à solta, tramando novas ações. Mas eles difamaram Kerry, afirmando que o candidato democrata é muito fraco para lutar contra Osama, e o trataram como uma ameaça ainda maior que o extremista saudita.

Cheney insinuou que John Kerry não seria capaz de nos proteger de um ataque como o 11 de setembro, ignorando alegremente o fato de ele e Bush não nos terem protegido do 11 de setembro real. Pensem só no uso que certos durões republicanos teriam feito de uma fita que mostrasse um presidente democrata vacilante dando uma declaração trêmula que soasse como o depoimento de um refém, e voando aleatoriamente de uma base aérea a outra, enquanto o vice-presidente ordenava que aviões comerciais fossem abatidos.

Cheney fala ameaçadoramente sobre um retorno "ao estado mental anterior ao 11 de setembro", quando, na verdade, o estado mental da equipe de Bush antes do 11 de setembro estava atolado na Guerra Fria e procurava ressuscitar o programa Guerra nas Estrelas --que não funciona e, ainda que funcionasse, é inútil contra táticas terroristas.

A equipe de Bush minimizava a ameaça terrorista porque Bill Clinton e Sandy Berger disseram aos seus sucessores que Osama era uma prioridade, e os seguidores de Bush desprezavam tudo que tivesse a ver com o ex-presidente. Bush ignorou relatórios de inteligência com títulos como "Bin Laden Determinado a Atacar Dentro dos Estados Unidos" porque havia resíduos políticos da administração anterior a serem varridos e reduções de impostos insustentáveis a serem implementadas.

Depois que os especialistas declararam que as alegações exageradas do governo sobre as armas de destruição em massa e os vínculos de Saddam com o 11 de setembro não passavam de mentiras, a Casa Branca caiu na defensiva --especialmente o homem escondido em um bunker desconhecido, que tinha oscilado de forma maníaca entre previsões extremamente pessimistas quanto às armas nucleares de Saddam, e outras, exageradamente otimistas, relativas a iraquianos agradecidos nos recebendo com flores e chocolates.

Durante certo tempo, parecia que os norte-americanos estavam percebendo que foram ludibriados pela gangue de Bush. Mas na convenção, Bush, o impiedoso fanfarrão, voltou temerariamente a se gabar da sua doutrina preventiva, formulando conexões imaginárias entre o 11 de setembro e Saddam, e chamando todos os nossos inimigos de terroristas.

Por que o mesmo grupo que conseguiu pintar um membro malandro da Guarda Nacional como um comandante heróico --e um herói de guerra como um criminoso de guerra-- se preocuparia em refutar ou desmentir as críticas?

Neste momento em que as mortes de homens e mulheres norte-americanos que combatem no Iraque ultrapassam a marca dos mil, e em que os insurgentes controlam partes da região central do Iraque, a Casa Branca adota a mesma tática, velha e desacreditada, assumindo que é capaz de cansar --e amedrontar-- a todos até novembro. Vic-presidente Dick Cheney cospe sapos em ameaças inflamadas Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h49

    0,50
    3,163
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h52

    0,59
    65.486,37
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host