UOL Notícias Internacional
 

11/09/2004

Campanha de Kerry racha e expõe indefinição

The New York Times
David M. Halbfinger, de Nova York e

Richard W. Stevenson, de Chillicothe, Ohio
Nesta sexta-feira (10/09), enquanto o presidente Bush realizava um de seus mais fortes ataques aos comentários do senador John Kerry sobre o Iraque, os conselheiros de Kerry diziam que concordaram que precisam intensificar sua campanha, contestando a fidedignidade e a capacidade de liderança do presidente.

Acompanhado do senador Zell Miller, o democrata da Geórgia que traiu seu partido e realizou uma forte crítica a Kerry durante a convenção republicana na semana passada, Bush viajou de ônibus por áreas altamente disputadas de dois Estados indefinidos, Virgínia Ocidental e Ohio, questionando a firmeza de seu rival em confrontar o Iraque e, conseqüentemente, o terrorismo.

Um dia antes do terceiro aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro, Bush aumentou seus esforços para retratar Kerry como tendo vacilado na segurança nacional, mais recentemente ao declarar que a guerra desviou dinheiro que poderia ser mais bem gasto em outras áreas, após dizer anteriormente que os Estados Unidos deviam gastar o que fosse necessário para assegurar o sucesso no Iraque.

"Quando se trata do Iraque, meu oponente tem mais posições diferentes do que todos os seus colegas do Senado juntos", disse Bush em um comício em Huntington, Virgínia Ocidental.

Fazendo campanha durante todo o dia em Missouri e na Pensilvânia, Kerry também esteve na ofensiva, acusando Bush de "tentar assustar os americanos" ao concentrar sua campanha no terrorismo e ridicularizando a recusa dos republicanos em renovar a proibição de armas de assalto que expira nesta segunda-feira.

Os conselheiros de Kerry reconheceram que os ataques de Bush têm sido eficazes. Mas divisões surgiram na campanha e no partido sobre como melhor atacar Bush --e quão longe devem ir.

Como primeiro passo, a campanha de Kerry colocou nesta semana o Comitê Nacional Democrata atrás de Bush em torno de seu histórico militar, começando a acusá-lo de mentiroso e "filho do privilégio", que usou contatos para fugir do combate na juventude e que não tem contato com os americanos comuns.

Diretores disseram que estes ataques estão sendo feitos pelo partido e não pela campanha para assegurar uma certa distância de Kerry, que é descrito por muitos deles como relutante em contestar pessoalmente o caráter do presidente.

Mas a questão mais difícil, disseram os diretores, é como a campanha de Kerry --mesmo se este não participar diretamente-- deve atacar. Alguns dos amigos mais íntimos de Kerry e antigos articuladores políticos de Boston, que agora se estabeleceram no quartel-general democrata em Washington, estão pressionando por mais, dizendo que a campanha e o candidato devem partir para a ofensiva, para restaurar o próprio caráter de Kerry como ativo político e responsabilizar Bush pelos ataques contra o senador.

Estes amigos e ex-assessores, liderados por David Thorne --que foi colega de classe em Yale, ex-oficial da Marinha e cunhado de Kerry-- estão pressionando para que o próprio candidato responda ao que consideram ataques para assassinar o caráter promovidos por pessoas como o vice-presidente Dick Cheney e membros dos Veteranos de Swift Boat pela Verdade, com uma declaração dramática e poderosa própria que afaste as dúvidas dos eleitores sobre seu serviço na Guerra do Vietnã.

Mas os diretores de campanha, incluindo tanto antigos consultores como Bob Shrum e recém-chegados como Joe Lockhart e outros veteranos do governo Clinton, têm rejeitado tal postura, dizendo que poderia ser desastrosa e capaz de afastar muitos eleitores indecisos, que veriam tal abordagem como golpe baixo. Eles disseram que é melhor Kerry se concentrar em questões onde ele supera Bush, como emprego e saúde.

Mas uma preocupação chave, disseram vários diretores de campanha, é que as pesquisas já mostram um aumento recente dos índices de rejeição a Kerry, tornando este um momento excepcionalmente perigoso para ele realizar ataques pessoais contra Bush, já que os eleitores geralmente reagem com desaprovação quando candidatos agem desta forma.

"Seu caráter foi arranhado", disse um alto diretor da campanha, falando sob a condição de anonimato. "E a campanha fracassou em defender o sujeito. Nós estamos em um posição difícil. Parte do trabalho contra George Bush deve vir de outras partes."

Um exemplo do cabo de guerra entre o antigo círculo de conselheiros de Kerry e sua atual liderança de campanha sobre se e como contra-atacar Bush pessoalmente, ocorreu em 1º de setembro, quando o senador discursou em um encontro da Legião Americana em Nashville, Tennessee, durante a convenção republicana.

Alguns de seus amigos mais antigos disseram que esperavam que Kerry faria um discurso apaixonado dizendo, entre outras coisas, que as zombarias republicanas às suas medalhas Coração Púrpura eram um insulto a todos os veteranos. O discurso foi parcialmente redigido pelo ex-senador Bob Kerry, ele mesmo condecorado com o Coração Púrpura no Vietnã, disseram conselheiros de campanha.

Mas o plano foi descartado pelos diretores de campanha, que argumentaram que Kerry se tornaria alvo fácil de um selvagem contra-ataque no último dia da convenção republicana. Em vez disso, Kerry se ateve às críticas à política de Bush para o Iraque e questões dos veteranos.

Na base do debate sobre como responder está a grande preocupação dos democratas de que Kerry fracassou em responder adequadamente a outro ataque ao seu caráter, anterior à convenção republicana e ao ataque dos Veteranos de Swift Boat.

Muitos democratas acham que a linha de ataque que a campanha de Bush tem usado desde fevereiro contra Kerry --de que ele é indeciso e muda fácil de opinião-- é simplesmente um ataque pessoal a Kerry e tem tido sucesso em fazer alguns eleitores o verem como fraco, vacilante e um político ambicioso com poucas crenças próprias.

Por sua vez, a campanha de Kerry tem tentado ocasionalmente atacar as características pessoais de Bush --o chamando de "teimoso", "enganador" e "fora de contato" em diferentes ocasiões ao longo dos últimos meses-- mas sem se fixar a nenhuma de forma consistente.

Tad Davine , um importante estrategista de Kerry e parceiro de Shrum, disse que a campanha evitou até agora concentrar especificamente seu ataque a Bush pessoalmente, mas que isto está mudando por motivos estratégicos. "A fase em que estamos agora é uma fase diferente da campanha", disse ele. "Haverá uma definição em torno de Bush voltada para sua motivação."

De fato, o próprio Kerry tem dado passos na direção da questão do caráter. Horas depois da convenção republicana, ele atacou Bush e Cheney por terem fugido do serviço militar no Vietnã; na quinta-feira, ele citou a história do Bom Samaritano, dizendo que Bush "passou sem dar atenção" às pessoas que necessitavam; e na sexta-feira, disse que as prioridades de Bush colocam interesses especiais à frente das pessoas comuns.

Mas por ora, a estratégia de Kerry ainda está bifurcada: o candidato e sua campanha estão atacando as políticas de Bush, dizendo que suas "decisões erradas" e "julgamento errado" levaram ao fracasso nas áreas de emprego, saúde e Iraque. Enquanto isso, o Comitê Nacional Democrata está empregando substitutos como o senador Tom Harkin para chamar Bush de mentiroso, escondido sob seu auto-retrato de conservador compassivo --com um lamento da classe trabalhadora da época do Vietnã, "Fortunate Son", do Creedence Clearwater Revival, tocando no fundo.

"Este é um filho do privilégio, um filho afortunado", disse Howard Wolfson, um estrategista recém-instalado no quartel-general do partido, "que teve as cordas puxadas a seu favor, que usou seus contatos para evitar o serviço". E que este tem sido um tema durante toda a sua vida, e é um dos motivos para ele ser incapaz de entender as preocupações dos americanos de classe média de hoje."

Enquanto os amigos de longa data de Kerry de Boston expressam privativamente sua frustração por não terem conseguido fazer com que Kerry se defendesse melhor, um alto assessor de Kerry disse indiretamente que a campanha ainda planeja responder aos ataques contra o senador de forma dramática.

"Vocês ainda não ouviram nossa palavra final sobre o assunto", disse o assessor.

Bush e Zell

Enquanto isso, a campanha de Bush continua a atacar Kerry de forma agressiva. Em três eventos de campanha republicanos na sexta-feira, Miller apresentou Bush e lhe deu um forte endosso. Mas diferente de seu discurso derrisório na convenção republicana, ele apenas insinuou sua opinião negativa sobre Kerry por meio de uma comparação com o presidente.

"Há apenas um homem em quem confio para manter minha família segura da intenção terrorista de destruir a América", disse Miller em Chillicothe, Ohio. "Um homem para tomar as decisões difíceis quando a pressão é forte. Um homem com determinação para se decidir e então manter firmemente sua decisão. Um homem que se manterá na ofensiva, sem nunca ceder, vacilar ou tremer. Tal homem é George W. Bush."

Um porta-voz da campanha de Kerry, Phil Singer, disse que Bush "cruzou totalmente a linha" ao declarar que Kerry deixaria os Estados Unidos expostos à ameaça de Saddam Hussein.

Ele comparou a declaração de Bush à declaração feita nesta semana por Cheney. O vice-presidente disse, em uma aparição de campanha na terça-feira, que a "escolha errada" em novembro poderia deixar os Estados Unidos mais propensos a serem "atacados de novo" pelos terroristas.

Enquanto faziam campanha por condados em ambos os Estados em que Bush venceu por margens estreitas em 2000, Miller ajudou o presidente a fazer um apelo explícito aos democratas para colocarem hábito ou lealdade partidária de lado e votar pela chapa republicana em novembro.

"Eu quero aproveitar esta oportunidade para dizer a todos os meus amigos democratas, onde quer que estejam", disse Miller, "todos vocês que, como eu, nunca pensaram em votar em um republicano poucos anos atrás, todos vocês que podem estar um pouco hesitantes em expressarem isto à mesa de jantar, ou manifestarem em reuniões de sindicato --digam a todos eles que George W. Bush é um republicano que os democratas podem orgulhosamente apoiar".

A viagem de ônibus da sexta-feira levou Bush do extremo inferior do Vale do Rio Ohio, incluindo regiões nas quais Bill Clinton venceu em 1992 e 1996, mas onde Bush venceu em 2000 para conquistar a vitória tanto em Ohio quanto na Virgínia Ocidental.

Em uma concessão aos valores socialmente conservadores e à cultura de caça da região, Bush introduziu em seu discurso uma linha sobre oposição ao controle de armas, poucos dias antes da expiração da proibição da venda de alguns tipos de armas de assalto. A Casa Branca disse que Bush é a favor da prorrogação da proibição, mas o presidente não fez nada para reverter a oposição à prorrogação por parte dos líderes republicanos no Congresso.

Em Portsmouth, Ohio, Bush disse que é contra a imposição do serviço militar obrigatório, dizendo que as forças armadas compostas exclusivamente de voluntários têm funcionado bem.

Mas apesar da ênfase de Bush em segurança nacional e valores, as questões mais importantes para muitos eleitores na região dos Apalaches é a economia. Ele falou sobre seu compromisso com o carvão como fonte de energia, uma questão crítica nesta região de minas de carvão.

E em uma área atingida duramente pela concorrência estrangeira e perda de empregos para países como a China, Bush disse que a solução é aplicar regras de comércio justas e tornar as empresas americanas mais competitivas, reduzindo a regulamentação, impondo limites às indenizações em processos e assegurando uma melhor oferta de energia ao permitir maior exploração doméstica de petróleo e gás. Democratas admitem que o senador atravessa seu pior momento George El Khouri Andolfato

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