UOL Notícias Internacional
 

11/09/2004

Mentira de Bush oculta bomba-relógio econômica

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
É a desonestidade, estúpido. A questão que realmente importa nessa história da Guarda Nacional não é o que George W. Bush fez há três décadas, e sim o seu hábito de mentir sistematicamente: as suas afirmações de que cumpriu com as suas obrigações, quando é óbvio que não o fez, e as repetidas alegações da Casa Branca de que divulgou todos os documentos relevantes sobre o fato, quando isso não aconteceu.

É o mesmo padrão de desonestidade, desta vez envolvendo questões pessoais que a população é facilmente capaz de entender, que muitos de nós observamos há muito tempo em Bush nas questões políticas, do aquecimento global à guerra no Iraque. E quando o assunto é o orçamento, que é onde eu entro, os analistas sérios atualmente já assumem antecipadamente que o governo é desonesto.

As coisas nem sempre foram dessa forma. Três anos atrás, aqueles de nós que acusaram o governo de adulterar os registros do orçamento foram por sua vez acusados, tanto pelos moderados quanto pelos indivíduos leais a Bush, de serem "escandalosos". Atualmente a coalizão dos escandalosos se ampliou e inclui todos os especialistas independentes em orçamento.

Por exemplo, em fevereiro deste ano o Centro de Orçamento e Políticas
Prioritárias acusou o governo Bush de jogar com as previsões sobre o orçamento. A organização ressaltou que a previsão de déficit divulgada pelo governo ficou bem acima daquela feita por analistas independentes, e sugeriu que tal exagero foi uma manobra proposital.

"O exagero do déficit de 2004 poderia permitir que o presidente anunciasse um 'progresso' significativo quanto ao problema ao final de outubro --pouco antes do dia da eleição--, quando o Departamento do Tesouro anuncia os números finais", advertiu o centro.

Será que essa foi uma acusação injustificada feita por uma organização liberal? Não, isso é um consenso entre os especialistas. Dois meses atrás, Stanley Collender, um respeitado analista apartidário, alertou: "Em algum momento no decorrer das próximas semanas, o Departamento de Administração e Orçamento divulgará a revisão do orçamento de meio-termo do governo e tentará convencer a todos de que o déficit federal está caindo. Não acreditem nisso".

E ele prosseguiu, fazendo coro com a análise do centro. Segundo Collender, o procedimento padrão do governo é inicialmente divulgar uma previsão de déficit exageradamente elevada, que é "politicamente motivada ou simplesmente mal feita". A seguir, quando surgem os números reais, menores que a previsão, as autoridades declaram que o déficit está em queda, ainda que ele seja maior do que o do ano anterior.

A Goldman Sachs diz o mesmo. No mês passado, um dos seus analistas escreveu que "o Departamento de Gerenciamento e Orçamento aperfeiçoou a arte de fazer promessas modestas e de apresentar um resultado acima do esperado em termos de previsões de curto prazo do déficit do orçamento. Isso dá a impressão de que o déficit está se reduzindo, quando, na verdade, ele aumenta drasticamente".

Em outras palavras, vários analistas respeitados acham que o governo Bush falsifica rotineiramente até mesmo as previsões de curto prazo do orçamento com fins políticos. E a falsificação nas previsões de longo prazo é ainda pior.

O governo alega possuir um plano para reduzir o déficit pela metade nos próximos cinco anos. Mas até mesmo Bruce Bartlett, um antigo defensor das reduções de impostos, afirma que "as projeções que mostram a queda dos déficits assumem que as reduções de impostos promovidas por Bush vão expirar com o fim do seu mandato".

Mas Bush quer fazer com que tais reduções se tornem permanentes. Ou seja, o governo possui um "plano" para reduzir o déficit que depende do Congresso não aprovar o seu próprio projeto de lei. Soando definitivamente escandaloso, Bartlett diz que "quem quer que acredite ser capaz de dar um jeito na nossa bagunça fiscal sem aumentar os impostos está negando a realidade".

Porém, longe de retroceder no seu plano de reduzir os impostos, Bush está propondo empurrar o orçamento ainda mais rumo ao vermelho com os programas de privatização que prometem trocar nada por coisa alguma.

Conforme escreveu Allan Sloan, da "Newsweek", "O presidente não nos forneceu exatamente um excesso de informações sobre o pagamento de tudo isso. É uma grande jogada de marketing: mostre ao público os pontos positivos, mas não o preço. É algo como ir até o supermercado, pegar as mercadorias e levá-las para casa sem passar pelo caixa. A conta? Ela chegará mais tarde".

Aqueles que lêem a minha coluna há muito tempo decerto se lembrarão do que eu disse, escandalosamente, sobre as propostas de Bush durante a campanha de 2000. Mais uma vez, ele disputa as eleições alegando que dois menos um é igual a quatro.

Assim, qual é o verdadeiro plano? Algumas pessoas conhecidas por não serem escandalosas acham que Bush vai simplesmente se recusar a encarar a realidade até que esta o atropele: Paul Volcker, ex-diretor do Federal Reserve, diz que existe uma probabilidade de 75% de que haja uma crise financeira nos próximos cinco anos.

Ninguém sabe ao certo o que Bush realmente faria quanto aos impostos e aos gastos em um segundo mandato. O que sabemos é que quanto a isso e a tudo mais ele não dirá a verdade. Déficit dos EUA vai provocar grave crise financeira, diz especialista Danilo Fonseca

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