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12/09/2004

Major Curió diz que só contará em "memórias" verdade sobre o Araguaia

The New York Times
Larry Rohter

Em Curionópolis, Pará
Em Brasília, onde conta com poderosos patronos agradecidos pelos favores prestados a eles ao longo dos anos, Sebastião Rodrigues de Moura é conhecido por muitos nomes. Vice-rei da Floresta. Rei do Pará. Nos corredores do Congresso, há até mesmo aqueles que o chamam de Kurtz da Amazônia, uma referência ao protagonista de "O Coração das Trevas", de Joseph Conrad.

"Exagero", disse Moura --freqüentemente chamado de major Curió, segundo uma espécie particularmente agressiva de pássaro local-- com um aceno de indiferença de sua mão. Mas ninguém mais na Amazônia reina sobre um trecho do território batizado em sua homenagem e que, como os críticos da capital alegam, tem permissão de comandar seu próprio feudo.

Por quase 35 anos, Moura, atualmente uma figura avoenga com cabelo tingido de loiro, tem sido o homem que outros aqui no Pará, um Estado no leste da Amazônia, tem medo de cruzar o caminho. Guerrilheiros trotskistas, mineiros avarentos, padres estrangeiros intrometidos, camponeses taciturnos, políticos evasivos, fazendeiros ambiciosos --todos os que se meteram com o major Curió perderam, contribuindo para a lenda de sua ferocidade e implacabilidade.

Alguns, de fato, não sobreviveram para contar sua história, e outros simplesmente não estão dispostos a falar. Desde o fim do governo militar no Brasil em 1985, grupos de direitos humanos têm exigido que Moura seja julgado pela morte de mais 60 guerrilheiros de esquerda, alguns dos quais foram decapitados, e a tortura de dezenas de trabalhadores rurais no início dos anos 70, mas foram frustrados em todas as tentativas.

"Eu não posso negar que me envolvi em combate para impedir a implantação no coração da Amazônia de uma área a serviço do comunismo", disse ele sobre seu papel na maior operação de contra-insurreição da história brasileira, a guerra do Araguaia. "Foi uma guerra. Nós os enfrentamos na selva com armas em punho, e executamos a missão que nos foi ordenada pelas forças armadas."

Investigadores do governo que procuram pelo destino daqueles que morreram ou foram torturados na guerra de guerrilha recentemente contataram Moura e o convidaram a depor. Ele recusou, dizendo que o fará apenas se receber uma ordem de seu oficial de comando. Mas, quando questionado sobre se obedeceria tal comando, ele respondeu: "Provavelmente não".

"Eu sei que não tenho o direito de levar comigo para o túmulo a verdade do que vivi", disse ele. "Mas só contarei a verdade em minhas memórias."

A história de Moura, como ele conta, teve início em dezembro de 1934 em São Sebastião do Paraíso, uma pequena cidade comercial no interior do Estado de Minas Gerais. "Minhas origens são simples", disse ele.

Seu pai era um barbeiro e sua mãe tinha uma pensão para estudantes, para os quais também cozinhava.

Sua infância foi comum até que a Segunda Guerra Mundial terminou, e um primo que voltou do combate junto à Força Expedicionária Brasileira, que se uniu à causa dos Aliados na Itália, foi carregado pelas ruas de sua cidade como herói. "Foi aí que decidi o que queria ser", disse ele.

Alistado como cadete na academia militar nacional, ele decidiu complementar seu pequeno salário se tornando boxeador, "que pagava por uma luta por semana o mesmo que eu ganhava por mês". Seus colegas de classe, impressionados por sua pugnacidade no ringue, lhe deram o apelido que passou a usar desde então, major Curió, segundo um pequeno pássaro negro com peito vermelho, comum no Brasil.

"O curió é um pássaro agressivo, assim as pessoas no Nordeste os colocam juntos em gaiolas para que briguem, geralmente até a morte", explicou Moura. "Um curió é tão briguento que enfrenta até mesmo sua própria imagem no espelho."

Quando o Exército tomou o poder no Brasil em 1964, ele foi transferido para o trabalho de inteligência e contra-insurreição e designado para o que vagamente chama de "repressão dos movimentos de guerrilha urbana" nas grandes cidades do Brasil.

Ele também tinha se formado na primeira turma de treinamento de combate em floresta, de forma que assim que o Partido Comunista do Brasil abriu uma frente de guerrilha ao longo do Rio Araguaia, aqui no leste da Amazônia, ele foi convocado. Ele se apresentou como uma agrônomo chamado Carlos Alberto Lucchini, mas sua verdadeira missão era encontrar e matar os rebeldes que estavam conquistando o apoio dos camponeses locais.

Devido à perícia que adquiriu posteriormente, o governo militar se voltou a ele novamente para restaurar a ordem quando começou a corrida do ouro aqui, em 1980. Serra Pelada logo se tornou a maior mina aberta de ouro no mundo, famosa por pepitas de até 60 quilos e por imagens de garimpeiros trabalhando em condições violentas, sub-humanas.

Em Serra Pelada, atualmente um distrito de Curionópolis, Moura governou com mão de ferro. Ele proibiu álcool, jogo e mulheres, forçou os garimpeiros a entregar suas armas quando deixavam a mina de ouro e tornou o hasteamento da bandeira brasileira uma cerimônia obrigatória toda a manhã.

"Eu tinha pleno poder e podia fazer o que decidisse fazer", disse ele, um tanto pensativamente. "Ninguém podia interferir comigo, nem os habitantes, nem o legislativo e nem os tribunais."

Mas os 116 mil garimpeiros presentes em Serra Pelada estavam dispostos a tolerar as imposições porque Moura também lutou em benefício deles. Ele expulsou avaliadores que ofereciam valores bem abaixo do preço de mercado pelo ouro e trouxe uma rede de supermercado do Estado e um banco para o local, de forma que os garimpeiros passaram a não precisar mais pagar preços exorbitantes pelos suprimentos ou se endividarem junto aos intermediários.

Tal papel eventualmente levou à política. Moura serviu no Congresso brasileiro por um tempo, mas no final dos anos 80, quando o governo criou uma nova jurisdição e a chamou de Curionópolis, ele retomou seu papel como senhor de fato da região, à qual ele acrescentou o título oficial de prefeito há quatro anos.

Em sua mesa aqui, Moura exibe uma placa apoiando um movimento para separar todo o sudeste da Amazônia, que é rico em ouro, platina, minério de ferro, cobre, bauxita, madeiras tropicais e energia hidrelétrica, e transformá-la no Estado de Carajás. Ele freqüentemente é mencionado como provável primeiro governador de tal Estado, mas minimiza suas aspirações.

"Eu não tenho tal ambição, mas, se o Estado for criado, meus camaradas poderiam me levar a assumir tal obrigação", disse ele. "Na política você nunca pode dizer 'eu não beberei desta água'."

Enquanto isso, Moura está buscando outro mandato como prefeito aqui no domínio que leva seu nome, nas eleições de outubro. Seu principal adversário está concorrendo com o slogan que pede uma "Curionópolis sem medo", mas Moura disse que a pesquisa mais recente lhe dá mais de 60% das intenções de voto.

Pelos caprichos da política brasileira, o partido ao qual Moura pertence passou desde 2003 a fazer parte da coalizão de governo liderada pelos Partido dos Trabalhadores de esquerda. "Eu capturei José Genoino em abril de 1972", disse Moura, referindo-se ao ex-guerrilheiro que atualmente é o influente presidente do partido do governo.

Olhando para trás, ele agora aceita a idéia de que os jovens guerrilheiros idealistas que enfrentou tantos anos atrás "eram movidos pelos mesmos objetivos, o mesmo espírito social do Exército, apesar de nossos caminhos terem sido diferentes", disse ele. "Mas eles foram em uma direção, e meu caminho seguiu por outra." Independente do nome, ainda defendendo seu pedaço na Amazônia George El Khouri Andolfato

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