UOL Notícias Internacional
 

12/09/2004

Paparazzi ainda perseguem astros do cinema

The New York Times
Mireya Navarro

Em Los Angeles
Para a estréia da nova comédia "Mr. 3000", no El Capitan Theater na última quarta-feira, Angela Bassett chegou de limusine meia hora atrasada e passou pelos fotógrafos que a haviam encurralado no Hollywood Boulevard.

"Angelaaaaaaaa!", os homens e as mulheres atrás das câmeras gritavam excitados, enquanto a atriz sorria rigidamente, posando de frente e de lado. "Aqui, por favor!", um fotógrafo gritou em cima de uma banqueta. "Olhe para cá, Angela!", suplicou outro, perdido no enxame. "Um grande sorriso!" "Por cima do ombro, Angela!" "Mostre a pulseira, Angela!"

O bando barulhento lembrava cenas do filme "Paparazzi", a nova produção de Mel Gibson que começa e termina com fotos na passarela vermelha. Mas o filme enfureceu alguns verdadeiros paparazzi e fotógrafos de celebridades, segundo os quais ele reforça imagens negativas e antiquadas.

No filme, os paparazzi incomodam crianças, reviram lixo, plantam câmeras de vídeo em residências e querem comer a alma de suas presas. O principal vilão provoca um acidente de carro que deixa o filho do herói em coma - a vingança por ter sido repreendido por tirar fotos da partida de futebol do menino. Então o herói astro do cinema parte para uma chacina enlouquecida no estilo Charles Bronson.

Exceto pelos assassinatos, há alguns paralelos com a vida real. Por causa da incansável perseguição dos paparazzi, o ator Justin Timberlake conseguiu uma ordem judicial que restringe um fotógrafo que ele acusa de persegui-lo, e Gwyneth Paltrow disse que teme pela segurança de sua filha pequena, porque os paparazzi a perseguem por Londres.

Os paparazzi são conhecidos por transformar em informantes os vizinhos, empregados e até sócios de estrelas, por meio de bons pagamentos. Por esses motivos, o filme "Paparazzi" talvez seja a fantasia de vingança dos astros de Hollywood.

Mas os fotógrafos e editores de imagens que captam celebridades dizem que muitos paparazzi da vida real ficaram mais contidos nos últimos anos, obrigados a acatar restrições legais e a se adaptar a um mercado que prefere mostrar as estrelas em situações cotidianas - fazendo compras, abastecendo o carro, comendo batatas fritas - a fotos escandalosas.

"O valor escândalo é menos importante do que relacionamentos, situações engraçadas e coloridas", disse Brittain Stone, editora de fotografia da revista "US Weekly".

Eles também dizem que "Paparazzi" não faz distinção entre os fotógrafos do tipo ameaçador, que tentam apanhar as estrelas desprevenidas, e os "especialistas em eventos", como os que estavam na estréia de "Mr. 3000", que obtêm credenciais e ficam na fila de maneira mais ou menos educada nas festas de lançamento.

"Nós vamos aos eventos para os quais somos convidados", disse Scott Downey, um antigo fotógrafo de celebridades que é dono da agência Celebrity Photo em Beverly Hills. "Não ficamos espreitando nos arbustos."

Mesmo alguns verdadeiros paparazzi - aqueles cujas imagens negativas datam da briga pública de Jackie O com Ron Galella, e do acidente fatal de lady Di, a princesa de Gales, em 1997, durante uma perseguição de carro em Paris - dizem que o filme é terrivelmente injusto. Eles afirmam que os processos jurídicos e as leis de privacidade - como a que foi aprovada na Califórnia proibindo a filmagem ou gravação de pessoas em situações em que elas têm uma expectativa razoável de privacidade, como suas casas - limitaram parcialmente o comportamento mais agressivo.

Embora ainda exista um apetite por fotos embaraçosas ou infelizes em algumas revistas de tablóides, as imagens mais valorizadas hoje, segundo os editores e paparazzi, são as que mostram Julia grávida de gêmeos, a filhinha de Gwyneth ou o último namorado de Britney. A demanda foi reforçada pela explosão de revistas de celebridades como "US Weekly" e "In Touch", que gostam de tirar os famosos de seus pedestais, mas não do modo malicioso tradicionalmente associado aos tablóides de supermercado.

Infidelidade, drogas e prisões ainda são bem-vindas, mas talvez não provoquem a competição frenética que surge sobre, por exemplo, o último casamento de J.Lo.

Stone disse que não usaria na "Us Weekly" fotos que pareçam "maliciosas ou predadoras demais" e invasivas.

Apanhar celebridades desprevenidas, enquanto despejam cinzas de cigarros de seu terraço em Malibu ou expõem a celulite na praia, é definitivamente onde está o dinheiro - de US$ 200 a US$ 100 mil por foto, dependendo da exclusividade e do valor noticioso, disse Stone.

A competição é acirrada. Ben Evanstead, um fotógrafo de 25 anos da agência de fotos Bauer-Griffin, em Los Angeles, disse que há mais de cem paparazzi na cidade, comparados com apenas cerca de 25 quando ele começou, seis anos atrás.

Evanstead começou a fotografar celebridades enquanto estudava ciência política na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e quando se formou decidiu que espreitar sets de filmagem ou a praia era mais divertido que a faculdade de direito.

Ele gosta de captar as estrelas fazendo compras em supermercados ou levando os filhos à escola. Evanstead disse que achou o filme "parecido com uma revista de quadrinhos" e que não valia a pena se aborrecer por isso. Ele falou enquanto dirigia para um local de filmagem para tentar flagrar Jennifer Aniston. "Ela sempre faz sucesso", disse. "É uma das sete ou dez super, super quentes. Estão tentando pegá-la grávida há cinco anos."

Realmente, embora a mudança de gosto tenha se inclinado mais para fotos simples, a caçada continua basicamente a mesma, disse Frank Griffin, um antigo paparazzo que é um dos donos da Bauer-Griffin. Griffin, 54, conhecido por tirar fotos de cima de sua motocicleta, disse que define limites para não infringir a lei ("Nunca fui processado ou passei um dia na cadeia", ele disse) ou praticar atos anti-éticos como encenar uma foto.

E remexer no lixo das pessoas? "Exatamente como os repórteres", ele disse. Perseguições de carro? "Infelizmente isso acontece, e termina em lágrimas. Geralmente são os paparazzi que se chocam uns com os outros."

Segundo alguns paparazzi, um filme mais adequado sobre eles seria uma comédia no estilo dos policiais Keystone Cops. Veja um grande casamento de celebridades. "Todo mundo quer a mesma coisa, mas todos tentamos de maneiras diferentes", disse Chris Doherty, presidente da Insight News & Features, uma agência de fotos de Nova York que gerencia paparazzi e fotógrafos de eventos. "Algumas pessoas tentam entrar de penetra. Outras têm helicópteros e tentam tirar fotos de cima. Outras estão trepadas em árvores. Você pega uma equipe francesa, uma equipe italiana e uma inglesa e todas têm seus personagens inacreditáveis."

Mas alguns editores de Hollywood notaram que ainda existe uma raça de paparazzi que se comporta como um bando de hienas. Stan Rosenfield, cujos clientes incluem George Clooney, Will Smith e Robert de Niro, disse que alguns fotógrafos ainda buscam "a foto premiada" praticando invasões, perseguições ou causando confrontos. Ele disse que Clooney, um grande crítico dos paparazzi e de algumas publicações que eles abastecem, caiu numa armadilha. Certa vez, disse Rosenfield, um homem se aproximou de Clooney no aeroporto de Los Angeles e insultou sua secretária em linguagem vulgar. Quando o ator foi atrás do homem, furioso, um fotógrafo saiu do nada e tirou a foto.

"Não estamos falando sobre a inconveniência de ser famoso", ele disse, falando por telefone do Festival Internacional de Cinema de Veneza. "Estamos falando de um pequeno grupo de pessoas que usam meios muito perigosos para obter fotos."

Ele disse que seus clientes às vezes tentam evitar alimentar o frenesi divulgando fotos de si mesmos e dando entrevistas exclusivas para algumas publicações. Mas é o máximo que podem fazer, porque se paga muito bem pelas fotos mais invasivas, ele disse.

Outro empresário que trabalha com celebridades de primeira linha concorda. "Eles ainda lutam pela exclusividade, para conseguir a primeira foto no hospital ou no caixão", disse, falando sob a condição de anonimato porque não quer que seus comentários pessoais sejam associados a seus clientes.

Os fotógrafos que seguem as regras se ressentem da má fama que os paparazzi deram a todos os fotógrafos de celebridades.

"Não é só o público, são também as celebridades - elas chamam todos nós de paparazzi", disse Effie Naddel, um fotógrafo free-lance de Hollywood que estava indo buscar credenciais para o Prêmio Emmy na semana passada. "Celebridades como Bruce Willis, Toby McGuire e Leo DiCaprio - eu não diria que são paranóicos, mas tiveram experiências ruins com paparazzi e não querem se expor. Mesmo quando eles vão a uma estréia, o que é bom para eles, fogem de você porque pensam que é um paparazzi."

"Não posso dizer que odeio os paparazzi, mas não gosto deles", disse Naddel. "Eles estão destruindo nossa reputação."

A desconsideração é mútua. "Não sei qual é a especialidade do que eles fazem", disse o jovem paparazzo Evanstead. "É como pescar em um barril."

Downey, o dono da agência Celebrity Photo, especializada em eventos, admitiu que os paparazzi-caubóis zombam dele e de seus colegas. "Esses caras riem de nós", ele disse. "Dizem que ganham dez vezes mais."

E filmes como "Paparazzi" continuam deixando essa diferença cada vez mais imprecisa. Algumas agências de fotos de celebridades conhecidas, como a WireImage, se recusam a dar entrevistas, dizendo que não querem ser associadas aos paparazzi. Alguns paparazzi não retornaram ligações ou não quiseram falar. "Não estou interessado em comentar o filme ou o que as pessoas acharam do filme", disse Phil Ramey, um famoso paparazzo de Los Angeles, antes de desligar abruptamente o telefone.

A maioria dos fotógrafos disse que não é movida pela animosidade contra as celebridades, mas por um mercado em que o público e os próprios astros querem fotos.

"O mundo real não é branco e preto", disse Doherty da INF. "Muitas vezes a celebridade fica feliz por ter sua foto tirada." Griffin, que se tornou uma espécie de celebridade e foi apresentado no ano passado no documentário "Hollywood Hunt Club", disse: "São eles que criam a fera, e quando ela se transforma em monstro tentam prendê-la e não conseguem". Ele disse que o filme "Paparazzi", que não viu, "é quase uma incitação à anarquia", ao retratar o herói vigilante.

Mas não sinta pena dos pobres paparazzi. Eles ainda têm suas câmeras e sua pele grossa. Quando perguntado se tinha alguma fantasia de vingança, Griffin disse: "A melhor vingança é o dia seguinte, quando a foto é publicada". Estrelas de Hollywood se queixam do assédio dos fotógrafos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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