UOL Notícias Internacional
 

14/09/2004

Entenda por que algo nunca visto parece familiar

The New York Times
Benedict Carey

Em Nova York
Ao assistir os eventos do verão se desenrolando --protestos contra a guerra, um escândalo na contagem dos pontos das Olimpíadas, várias ameaças de terrorismo-- certas pessoas podem sentir que tudo isso é bastante familiar, e que já presenciaram todos esses fatos.

Mas os psicólogos dizem que geralmente são os detalhes mais mundanos da vida --o estalar de um radiador, o jogo de sombras em uma toalha de mesa-- que desencadeiam aquela súbita e às vezes impressionante sensação de familiaridade.

"A maneira como as xícaras de café estavam alinhadas sobre a mesa", diz Gretchen Purcell, 24, uma consultora de negócios da região de Washington, D.C., que experimentou a sensação de maneira tão intensa em uma conferência no mês passado que chegou a dar sonoras gargalhadas. "A cena toda era tão familiar que achei que sabia o que as pessoas iriam dizer antes que elas abrissem a boca. Era como um filme que eu já tivesse visto".

Essa experiência é denominada deja vu (o termo em francês para "já visto"). É aquele tipo de sensação fugidia e íntima que se revela mais rapidamente para os romancistas do que para os pesquisadores. Até o início dos anos 90, os cientistas sociais que conduziam pesquisas com populações colocavam as perguntas sobre essa sensação no mesmo nicho reservado àquelas relativas a poltergeists e contatos com os mortos.

Mas nos últimos dez anos, pesquisas sobre a memória abriram uma janela promissora para a abordagem do fenômeno, fornecendo possíveis explicações sobre a sensação e novas formas de criá-la e analisá-la quantitativamente.

"Trata-se de algo que foi ignorado, ou considerado muito assustador ou bizarro para ser abordado por vários cientistas", explica Alan Brown, psicólogo da Universidade Southern Methodist, em Dallas, que relata a história desse campo de estudos no seu novo livro, "The Deja Vu Experience: Essays in Cognitive Psychology" ("A Experiência do Deja Vu: Ensaios em Psicologia Cognitiva"). "Mas é algo real, e ao trazer esse fenômeno para o laboratório podemos pelo menos começar a entendê-lo".

Em pesquisas, cerca de dois terços dos adultos ouvidos disseram ter passado por pelo menos uma experiência de deja vu, e a sensação estranha parece ocorrer com mais freqüência nas pessoas dotadas de imaginações vivas e freqüentemente estimuladas.

Por exemplo, pessoas que viajam muito têm maior probabilidade de relatar tais experiências que os indivíduos de hábitos caseiros, e aqueles que possuem formação universitária ou que fizeram cursos de pós-graduação relatam ter-se deparado com o fenômeno com maior freqüência, talvez por terem descoberto a sua doce estranheza nas descrições literárias de Proust e de Tolstoi --ou apresentam maior propensão a alugar o filme "Groundhog Day" ("Feitiço do Tempo").

A incidência do deja vu parece ser maior na primeira fase da vida adulta e declinar à medida que o indivíduo se aproxima da idade de aposentadoria, quando, sugere Brown, muita gente passa a viver rotinas diárias que são realmente familiares.

Há um século, quando as teorias de Freud dominavam o campo da psiquiatria, os analistas apresentavam o deja vu como evidência do conflito inconsciente: o ego se defendendo contra sensações eróticas perturbadoras voltadas para uma figura materna, ou outros desejos ocultos.

E durante décadas os médicos relataram que a sensação de deja vu precedia ocasionalmente as convulsões que afligem indivíduos epiléticos. De acordo com certos médicos, circuitos superativos no lobo temporal, capazes de provocar convulsões, poderiam estimular inapropriadamente as regiões do cérebro envolvidas com o processo de detecção da familiaridade.

Mas Brown e outros pesquisadores argumentam que não é necessário invocar conflitos ocultos ou condições inusuais do cérebro para explicar vários casos de deja vu. Para eles, bastariam as funções normais e saudáveis do cérebro.

Um dos fatos observados é que o deja vu parece ser mais comum quando as pessoas estão exaustas ou estressadas, condições conhecidas por prejudicar a memória de curto e longo prazo (e isso pode acompanhar também o "jamais vu", a experiência oposta que consiste em se deparar com palavras e objetos familiares e não se lembrar deles).

Debbie O'Leary, 40, escritora em Bloomington, Indiana, diz que alguns anos atrás teve a sensação de deja vu quando estava doente em casa, como se a sua vida tivesse-se transformado um disco arranhado, com as mesmas falas se repetindo.

"Foi literalmente como se o meu cérebro estivesse gaguejando, como se a mesma fita continuasse repetindo os mesmos pensamentos e as mesmas emoções; como se o tempo tivesse parado", conta ela. "Creio que os responsáveis foram a fadiga e a febre".

Os psicólogos também sabem há muito tempo que as pessoas registram impressões e imagens bem antes de terem consciência do que viram. O cérebro envia sinais visuais por meio de pelo menos dois circuitos, que se movem da retina até o córtex visual, pelo cérebro, segundo rotas diferentes.

É um sistema primorosamente calibrado, mas a experiência corriqueira sugere que ele pode gerar equívocos de várias formas. O exemplo clássico, apresentado por Edward Bradford Titchener, o fundador desse campo, é quando uma pessoa está prestes a atravessar uma rua movimentada, olha para os dois lados e a seguir se distrai com uma frase na vitrine de uma loja: "A pessoa pensa ter acabado de atravessar aquela rua; o seu sistema nervoso dividiu uma única experiência em duas partes, e a última parece ser uma repetição da anterior".

Em um dos primeiros experimentos a produzir essa familiaridade inconsciente, Larry Jacoby e Kevin Whitehouse, psicólogos da Universidade Washington, em Saint Louis, fizeram com que 30 estudantes memorizassem uma lista de palavras, como se estivessem se preparando para um teste.

Pouco depois, os pesquisadores pediram aos estudantes que se sentassem em frente a uma tela de computador e observassem uma série de palavras que surgiam, uma por vez, e que apontassem aquelas que faziam a sua primeira aparição.

Tudo o que os pesquisadores precisaram para fazer com que as palavras não familiares aparentassem subitamente já terem sido vistas foi lampejá-las subliminarmente na tela por uns poucos milissegundos.

Os cérebros dos estudantes registravam as palavras subconscientemente, e eles manifestaram grande propensão de dizer que tais vocábulos surgiram na primeira lista.

"O fato marcante foi que, quando diminuímos a velocidade da exibição, de forma que eles realmente tivessem consciência das palavras mostradas na forma de lampejos e pudessem lê-las, o índice de palavras erroneamente identificadas despencou", diz Jacoby.

Mas jogos com palavras estão bem distantes das experiências integrais de deja vu. Porém, segundo os psicólogos que estudam a memória, a questão é que os indivíduos absorvem uma enorme gama de informações sem se darem conta disso, ou percebem esses dados sem saberem de onde vêm.

É inteiramente possível que um indivíduo leia um livro de Anne Rice e, anos depois, após ter-se esquecido do livro, ao fazer uma primeira visita a Nova Orleans, tenha a impressão de estar se deparando com a visão de uma vida anterior.

Ou assistir a uma das cenas de bar no filme "L.A. Confidential" ("Los Angeles - Cidade Proibida") e, mais tarde, ao entrar pela primeira vez no Formosa Cafe, experimentar essa sensação de tirar o fôlego.

Segundo Kathleen McDermott, colega de Jacoby na Universidade Washington que também estuda a memória, a sensação de familiaridade pode ser derivada de uma variedade de fontes, algumas reais, outras não.

"Sabe-se que, mesmo se imaginarmos agora algo que pode não ter ocorrido no passado, tal pensamento pode criar uma sensação de familiaridade se acontecer de fato mais tarde", diz ela.

"Não é necessária a presença de informação externa objetiva para a criação dessas situações; podemos fazer isso internamente, por nós mesmos".

Brown e Elizabeth Marsh, psicóloga da Universidade Duke, estão levando esse princípio um passo adiante, tentando criar no laboratório uma sensação que esteja mais próxima daquele tipo de familiaridade não explicada que as pessoas experimentam na vida --aquela sensação de se chegar a um lugar pela primeira vez e descobrir que ele emana uma familiaridade surrealista.

Em uma série contínua de experimentos, eles fizeram com que estudantes universitários examinassem uma série de fotografias, uma por vez, tentando localizar uma pequena cruz preta ou branca. As fotografias incluíam cenas típicas do campus da Universidade Duke, como a capela, e os edifícios de tijolos vermelhos da Universidade Southern Methodist, assim como dezenas de paisagens diversas.

Uma semana depois, os estudantes retornaram para examinar novamente as fotos do campus, assim como um conjunto diferente de fundos visuais que não foram vistos no primeiro experimento. Os pesquisadores perguntaram aos estudantes se eles já haviam estado nos locais mostrados nas fotos.

A expectativa era de que, enquanto os estudantes se concentrassem na procura das cruzes, a visualização inicial das fotografias ficaria inconscientemente gravada nas suas memórias, deixando impressões que mais tarde pareceriam familiares.

E no primeiro teste com 81 estudantes essa expectativa se confirmou. Estudantes da universidade Duke que jamais estiveram em Dallas disseram ter estado no campus exibido nas fotos tiradas na Southern Methodist; e vários alunos da Southern Methodist acreditaram conhecer o campus mostrado nas fotos batidas na Duke, apesar de jamais tê-lo visitado.

"O efeito não chegou a ser dramático, mas foi significante e confiável", explica Marsh. "E temos que levar em conta que os alunos só viram as fotos por cerca de um segundo".

Agora os pesquisadores estão repetindo o experimento, com um intervalo de três semanas entre o momento em que os estudantes vêem as fotografias pela primeira vez e aquele em que tornam a observá-las. De acordo com Brown, esse e outros trabalhos com a memória não descartam explicações mais literárias e românticas para o deja vu.

"O mais provável é que terminemos por descobrir que o deja vu ocorre por uma série de razões, talvez diferentes para cada pessoa, ou em situações diferentes", diz ele. "Estamos apenas no início das pesquisas para chegarmos gradualmente a um entendimento do fenômeno".

Várias pessoas que fizeram contato por e-mail com Brown disseram já ter passado pela experiência de deja vu, várias vezes em um único ano. Uma delas, Suketu Naik, 26, estudante universitário em Utah, registrou as suas impressões em um diário.

Em um determinado trecho, Naik diz que foi à festa de aniversário de um amigo em um restaurante: "Tudo, as conversas, a posição das pessoas, das mesas e dos pratos, estava extraordinariamente 'no lugar'. Foi o mais notável de todos os eventos. Muito intenso. Durou por muito tempo. O que é estranho --geralmente a intensidade e o tempo são recíprocos. Eu era capaz de prever cada evento futuro nesse intervalo de tempo com enorme precisão. Me senti extraordinariamente esquisito após essa experiência. Fiquei sentado por um minuto para retornar à realidade".

Mas a evolução do entendimento da memória sugere que ele nunca na verdade deixou a realidade. Psicólogos americanos investigam a curiosa sensação de "deja vu" Danilo Fonseca

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