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15/09/2004

Filme sobre Hitler mostra um ditador humanizado

The New York Times
Mark Landler

Em Frankfurt
O lançamento de um grande filme sobre Hitler é, por definição, um evento notável na Alemanha. A curiosidade ainda é maior se retrata um dos maiores monstros da história como um ser humano, dado a momentos de ternura assim como dos familiares paroxismos de raiva.

Segundo um crítico, Hitler deixou de ser tabu e hoje é o malvado clássico do cinema, parte de uma galeria internacional de bandidos, que inclui personagens como Nero e Jack o Estripador.

"Der Untergang" (A Queda), o novo filme, explora os últimos 12 dias de Hitler em um abrigo subterrâneo, debaixo da chancelaria destruída de Berlim. O que mais impressiona no longa metragem, entretanto, é seu lugar comum: um drama direto, convencional, sobre os dias de agonia do Terceiro Reich. Isso não é pouco para um país que procurou, na vida e na arte, entender de onde vieram os nazistas.

O fato de Hitler ter-se tornado assunto aceitável para um filme de entretenimento mostra até aonde os alemães chegaram em enterrar seus fantasmas. Até agora, filmes sobre o Fuehrer eram documentários ou sátiras.

"Para o público alemão de hoje, aquela imagem do senhor com bigode de escovinha não mais impõe medo", escreveu Harald Martenstein em Der Tagesspiegel. "Não há nela maior ameaça do que para franceses ou irlandeses, independentemente do que o homem na tela diz ou faz."

Não é assim tão simples, é claro, em um país onde até hoje analistas políticos estão ansiosos observando as eleições estaduais na Saxônia e Brandenburgo, neste domingo (19/09), porque partidos de extrema direita fazem avanços substanciais nas assembléias locais.

A Alemanha ainda proíbe o partido nazista, o uso de suásticas, a publicação do livro "Minha Luta", de Hitler, e outras relíquias do Nacional-Socialismo. Os diretores alemães precisam ser cautelosos ao procurarem definir os limites do que é aceitável na dramatização daqueles dias.

"Der Untergang" atraiu enorme cobertura pela imprensa alemã, inclusive a história de capa de "Der Spiegel" e ensaios em todos principais jornais. Grande parte dos comentários girou em torno da descrição do filme de Hitler de 56 anos, interpretado com verossimilhança espantosa pelo respeitado ator suíço Bruno Ganz.

Depois de décadas em que Hitler foi retratado com um louco demoníaco, Ganz oferece uma imagem de carne e osso --uma espécie de entrada pelos fundos do abrigo, na qual o Fuehrer destrói seus generais que caíram em descrédito, idolatra seus secretários leais até o fim e sorri para os filhos de Joseph Goebbels, enquanto cantam canções folclóricas.

Alguns críticos expressaram escrúpulos sobre a sabedoria de retratar Hitler em termos tão simpáticos. Outros observaram que o Hitler do filme é quase uma figura heróica, que se recusa a fugir ou capitular diante do avanço do exército soviético, mesmo quando é traído por antigos acólitos, um após o outro.

"Está errado ficar debatendo se temos permissão para mostrar Hitler como um ser humano. É óbvio que era um ser humano. É preciso deixar isso claro para as pessoas, pois é aí que mora o perigo", disse Bernd Eichinger, escritor e produtor do filme.

Eichinger disse que há 20 anos queria fazer um filme sobre o nazismo, mas tinha se atrapalhado com a enormidade do tema. Ele foi inspirado pela publicação, em 2002, de um livro sobre a queda do Terceiro Reich, por Joachim Fest, autor que escreveu extensamente sobre os nazistas. Eichinger também usou as memórias de Traudl Junge, um dos secretários de Hitler que ficaram com ele até seu suicídio e gravou seu último desejo e testamento.

Eichinger gastou US$ 16 milhões (em torno de R$ 48 milhões) na produção --"o maior orçamento desde 'O Barco - Inferno no Mar'", disse ele do filme de 1981 em que fez um retrato simpático da tripulação de um submarino alemão. O dinheiro fica aparente nas cenas de Berlim devastada, que foram filmadas em São Petersburgo.

"Se você tem um trauma como este, você precisa de uma geração para ganhar alguma perspectiva sobre ele", disse Eichinger, explicando a longa gestação do filme. "Minha geração agora está na mesma idade que Hitler tinha em 1945".

Ainda assim, há uma frustração palpável entre os críticos. Para eles, com todo tempo e dinheiro utilizados, além de toda a divulgação, "Der Untergang" não mostrou nada de novo para explicar o homem. Jens Jessen, editor da revista "Die Zeit", que escreveu sobre o filme, disse que questionava quanto os alemães aprenderiam vendo o filme, especialmente os jovens.

"Mostrar Hitler em situações íntimas não nos ajuda a entendê-lo melhor", disse Jessen. "Ele continua monstruoso e incompreensível. O filme é uma experiência, mas qual é o objetivo?"

Goebbels, o próximo

Para alguns alemães o nazismo continua sendo um assunto a ser explorado com o objetivo de ensinar uma lição ou, no mínimo, oferecer uma nova visão. O ambiente de carnaval de morte dentro do abrigo de Hitler beira a cultura pop --serve para filmes de "Indiana Jones", mas de alguma forma não é adequado para a sociedade alemã de hoje.

"Para mim, como historiador, o assunto de Hitler está encerrado. Todos seus aspectos foram mostrados", disse Lutz Hachmeister, professor de estudos da mídia da Universidade de Dortmund e documentarista.

Isso não significa, disse ele, que o Terceiro Reich não deva ser explorado em filmes e outros veículos. Hachmeister está terminando um documentário sobre Goebbels, o sinistro homem da propaganda a quem ele descreve como o primeiro político a era da mídia. Em 2002, a televisão alemã transmitiu uma comédia bastante carregada, "Goebbels e Geduldig", que mostrou o assessor de Hitler e um judeu em um campo de concentração que parecia seu gêmeo.

Goebbels tem uma relevância para os tempos modernos que Hitler não tem, disse Hachmeister. No entanto, a distância histórica finalmente fez com que os dois se tornassem temas de cultura popular.

"Quando as pessoas falam sobre propaganda", disse ele, "elas sempre apontam para Goebbels. É claro que o governo que temos hoje é o menos consciente da propaganda do que qualquer governo que eu possa imaginar." "Ele era um ser humano e é aí que mora o perigo", afirma roteirista Deborah Weinberg

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