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15/09/2004

Ivan faz os moradores fugirem de Nova Orleans

The New York Times
Felicity Barringer*

Em Nova Orleans
Todas as estradas que saem desta cidade abaixo do nível do mar praticamente pararam durante grande parte desta terça-feira (14/09), enquanto seus moradores obedeciam as ordens de evacuação. Eles deixaram as vizinhanças do Rio Mississippi e do Lago Pontchartrain para se juntarem a milhares de pessoas do trecho de 480 quilômetros da Costa do Golfo, na tentativa de fugir do furacão Ivan e ventos de 225 km/h.

Gloria Hogan, uma assistente de enfermagem aposentada de 72 anos, estava se preparando para se juntar ao êxodo, dirigindo na noite de terça-feira com seu marido, Moses, que usa cadeira de rodas, e três outros parentes.

"Eu estou com medo", disse Hodan. "Eu moro em uma área baixa. A maioria dos meus vizinhos já partiu. Eu estou com medo da intensidade desta tempestade."

A tempestade, que o Centro Nacional de Furacões chama de "extremamente perigosa", é um furacão da categoria 4, se movendo no sentido norte-noroeste nas águas quentes do Golfo do México e provocando uma forte tempestade à sua frente. Ela também é forte, com ventos com força de furacão se estendendo em um raio de 160 quilômetros do seu olho.

A tempestade já matou 68 pessoas em seu lento percurso por Granada, Jamaica, Ilhas Cayman e Cuba, e deve chegar no continente no início desta quinta-feira, em algum ponto entre Grand Isle, Louisiana, e Apalachicola, Flórida.

Se ele se desviar para oeste, na direção da boca do Mississippi, Nova Orleans, situada rio abaixo da grande indústria petroquímica da Louisiana, poderá enfrentar algo entre uma inundação de nível baixo, normal, como as que atormentam a cidade na temporada de chuvas, e uma inundação catastrófica pela tempestade no Lago Pontchartrain, uma que poderia cobrir casas de um ou dois andares, disseram especialistas da Universidade Estadual da Louisiana (LSU) na tarde desta terça-feira.

Preparativos urgentes para a tempestade ocorreram na Flórida, já atingida por furacão, Louisiana e no próprio Golfo, onde trabalhadores foram evacuados das plataformas de petróleo no mar. A produção de petróleo no Golfo foi suspensa em cerca de um milhão de barris por dia, estimou o governo federal. O Porto de Nova Orleans, uma grande porta para aço, algodão e cargas em contêineres, foi fechado às 13h.

À noite, o Aeroporto Louis Armstrong da cidade foi fechado, e o prefeito, C. Ray Nagin, passou a dar entrevistas em rádio pedindo para que os moradores partissem. Seus apelos foram repetidos pelo governador do Mississippi, Haley Barbour.

"Eu imploro para as pessoas da costa: não enfrentem esta tempestade", disse Barbour.

Nova Orleans está ensanduichada entre o extremo mais baixo do Rio Mississippi e o Lago Pontchartrain.

Marc Levitan, diretor do Centro de Furacões do Instituto de Pesquisa de Recursos Hídricos da LSU, disse: "O curso que ele está seguindo no momento tem Nova Orleans em sua mira. Se ele não se desviar, isto potencialmente despejará muita água na bacia".

Na noite de terça-feira, os pesquisadores do Centro Nacional de Furacões previram que a tempestade entrará no continente perto da divisa dos Estados de Alabama e Mississippi. Mas dado o tamanho da tempestade, ela terá um impacto muito além daquele ponto, especialmente considerando que esta parte do país tem exibido rápido crescimento populacional, habitacional e empresarial --particularmente cassinos-- ao longo das duas últimas décadas.

As marés nas áreas ao longo do trecho ameaçado da Costa do Golfo já estavam 30 centímetros acima do normal, previram meteorologistas, acrescentando a possibilidade do furacão Ivan poder causar inundações e erosões costeiras substanciais.

Mesmo se o olho da tempestade permanecer ao leste da Louisiana, os ventos de furacão que se estendem por cerca de 160 quilômetros em todas as direções poderão ameaçar Nova Orleans e o Lago Pontchartrain, disse Max Mayfield, diretor do Centro Nacional de Furacões em Miami. O giro anti-horário do furacão poderá provocar fortes rajadas norte-sul pelo lago raso, e isto poderá gerar "ondas tremendas", capazes de superar barragens, disse ele.

Antes de voltar ao mar aberto, o furacão Ivan atingiu as províncias do oeste de Cuba na madrugada de terça-feira, com ondas e ventos que deixaram várias comunidades inundadas e arrastaram outras para o mar.

As autoridades cubanas disseram que ainda estão avaliando os estragos. Um visita a algumas das áreas atingidas pela tempestade indicou que milhares de pessoas perderam suas casas. Mas a maioria das pessoas encontrou abrigo seguro muito antes do Ivan atingir a região.

Boca de Galafre, uma vila na costa sudoeste de Cuba, praticamente desapareceu quando seus moradores voltaram na terça-feira. Os ventos ainda eram fortes e o oceano quebrava sobre as fundações de concreto onde as casas costumavam se encontrar.

Ao longo do trajeto potencial do furacão, os rituais de corte e amarração de lenha, procura por gasolina e indecisão sobre partir ou ficar, tão familiares para os moradores da costa da Flórida nesta temporada, foram repetidos pelos Estados de Alabama, Mississippi e leste da Louisiana na terça-feira.

Nas margens do Lago Pontchartrain, Shannon LeBuff ficou sentado em sua caminhonete Toyota vermelha, repetindo um ritual de sua juventude, quando ele e amigos vinham aqui durante as tempestades com latas de cerveja para assistir as ondas subirem.

"Eu adoro ficar aqui durante tempestades de vento", disse ele, olhando para a crista das ondas. Ele disse que ainda não decidiu se ficará ou partirá, mas acrescentou: "Eu realmente não acho que será tão sério".

A poucas centenas de metros de distância, Tony Pelicano, sua esposa Linda e a irmã dela, Dee Bergeron, tiravam fotos da crista das ondas. "Nós estamos esperando para ver se conseguimos evitar parte do trânsito partindo mais tarde", disse Pelicano.

Morador de Nova Orleans por toda a sua vida, ele apontou para o asfalto no qual estava e disse: "Havia água suficiente para eles chegarem aqui no furacão Georges", em 1998.

Ivor Van Heerden, um especialista em tempestades do centro da LSU, disse na terça-feira que o imenso lago, cujas águas são mantidas afastadas da cidade por uma rede de barragens, não afetará a cidade seriamente desde que o furacão permaneça no trajeto previsto.

"Se ele permanecer ao leste de Nova Orleans, então Nova Orleans deverá ficar bem", disse ele. "Se ele vier diretamente para Nova Orleans ou para o oeste de Nova Orleans, então definitivamente teremos problemas."

Em 1965, uma tempestade causada pelo furacão Betsy provocou inundações de até 2 metros de profundidade nas ruas da cidade.

Mas algumas poucas coisas pareciam não ter sido afetadas. Na Louisiana, o gabinete do secretário de Estado não interrompeu seus planos para as eleições de sábado, e nas estações de rádio de Nova Orleans, propaganda política se alternava com as constantes dicas de evacuação.

O presidente Bush pediu na terça-feira ao Congresso por mais US$ 3,1 bilhões em gastos de emergência para pagar pelos esforços de recuperação do furacão na Flórida e outros Estados, mas o dinheiro não será aprovado tão rapidamente pelo Congresso como ocorreu com os US$ 2 bilhões aprovados em um único dia, na semana passada.

Os líderes da Câmara e do Senado disseram que esperam enviar o projeto de gastos para o presidente até o fim do mês, mas estão manobrando para driblar pedidos de legisladores, que querem adicionar ajuda para as plantações perdidas devido ao tempo em outras partes do país.

Grande parte do dinheiro --US$ 2 bilhões-- irá para a Agência Federal de Administração de Emergências, mas outras agências federais receberão uma parte; a Cruz Vermelha americana receberá US$ 70 milhões.

*Colaboraram Thomas Crampton, de Gulf Shores, Alabama; James Dao, de Pensacola, Flórida; Andrew C. Revkin, de Tallahassee, Flórida; Carl Hulse, de Washington; a Ginger Thompson, de Cuba. Governo destinará US$ 3,1 bi para recuperar as áreas atingidas George El Khouri Andolfato

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