UOL Notícias Internacional
 

15/09/2004

Juventude engajada pode definir as eleições

The New York Times
Timothy Egan

Em Portland, Oregon
Quatro anos atrás, a eleição presidencial não era sequer um "ruído de fundo" para Marie Reyes. Ela tinha outras preocupações maiores --tudo menos aquele sistema de previdência social do qual Al Gore e George W. Bush não paravam de falar.

"Não havia nada naquela eleição que eu achasse estar sequer remotamente relacionado à minha vida", diz Reyes, 22.

Mas agora, mesmo com as aulas na faculdade, um bebê para cuidar e um emprego de meio expediente, ela passa quase 20 horas por semana em Albuquerque, no Novo México, a sua terra natal, tentando fazer com que outros jovens se registrem para votar (o voto nos EUA não é obrigatório).

O que fez com que a atitude de Reyes se modificasse não foram só as questões que têm sido discutidas --o terrorismo, a guerra no Iraque e as mensalidades crescentes da faculdade, diz ela--, mas uma aritmética simples.

"O que me fez decidir foi o mesmo que convence outras pessoas quando eu as informo sobre o fato: a eleição no Novo México foi decidida por 366 votos --e isso é a quantidade de pessoas que espero registrar, porque acho que para mim é fácil convencer 300 eleitores", diz ela.

Reyes faz parte do exército munido de pranchetas que neste ano perambula por shopping centers, praças públicas, shows musicais, feiras de condado e escolas em busca daquilo que os administradores das campanhas consideram os alvos eleitorais mais maleáveis: os eleitores jovens e não registrados.

Após uma participação ínfima dos eleitores jovens em 2000, as pesquisas mostram neste ano que o interesse na eleição por parte dos jovens atingiu o seu nível mais alto desde que os cidadãos entre 18 e 20 anos passaram a ter direito de votar em 1972.

Pesquisas conduzidas na primavera e no verão pelo Instituto de Política Harvard, pelo Centro de Pesquisas Pew e pela MTV revelaram que os jovens dizem que pretendem comparecer às urnas em quantidades que devem eclipsar a participação registrada há quatro anos.

O nicho dos potenciais eleitores jovens é substancial --cerca de 40 milhões de norte-americanos, ou um em cada cinco eleitores elegíveis, têm idades entre 18 e 29 anos, segundo o Centro de Informação e Pesquisa sobre Aprendizado e Engajamento Cívico (Circle na sigla em inglês), um grupo de pesquisas sem fins lucrativos que se concentra no voto dos jovens.

"Esse grupo é maior que aquele dos eleitores de 50 a 65 anos", informa Carrie Donavan, diretora do Circle, cuja sede fica na Escola de Políticas Públicas da Universidade de Maryland e que é financiado pelos Fundos de Caridade Pew e pela Carnegie Corporation de Nova York. "Parece que grande parte desse fenômeno foi influenciada pela agitação eleitoral deste ano".

Auxiliados por grupos externos que investem milhões de dólares em programas de registro de eleitores jovens, os democratas dizem que os eleitores novos e jovens estão abrindo caminho para votar. Mas os republicanos também conduzem os seus próprios esforços para registrar eleitores por meio de jovens militantes universitários, e dizem que o voto jovem está ao seu alcance.

O contingente de eleitores jovens, que se dividiu exatamente ao meio entre Gore e Bush em 2000, é também notoriamente instável, e pode mudar de pontos de vista rapidamente, segundo aqueles que estudam as características dessa fração do eleitorado.

Parte do motivo para tal aumento dos registros não é apenas o novo humor dos jovens, mas os esforços determinados de grupos partidários ou não para conquistar esse eleitor. No Estado de Oregon, onde a última disputa presidencial foi decidida por 6.765 votos, houve um combate acirrado por alvos potenciais.

"Se vejo outra pessoa com uma prancheta, corro para pegar o melhor ângulo", diz Alden Goodman, 19, de Portland. "Já segui gente nos vagões do metrô e em ônibus, e quando eles finalmente se registram, é porque eu consegui explicar-lhes a importância do voto".

Como um dos vários jovens eleitores que dizem ter obtido informações sobre a campanha no irreverente programa "Indecision 2004", Jeff Leek, 22, aluno de estatística na Universidade de Washington, garante que neste ano a política é um grande tópico de discussão entre os seus amigos.

"Há menos cinismo, menos daquela sensação de que a eleição não tem importância", diz Leek, natural de Idaho. Ele diz apoiar o senador John Kerry. A aritmética certamente é motivadora, e provavelmente terá um papel importante nos Estados onde a eleição é disputada e grande quantidade de novos eleitores está se registrando.

Em Wisconsin, por exemplo, onde a eleição de 2000 foi decidida por 5.708 votos, mais de 74 mil novos eleitores, a maioria jovem, foram acrescentados às listas de registro pelo Projeto Novos Eleitores, um grupo não partidário que está investindo quase US$ 10 milhões para registrar novos eleitores em seis Estados relativamente pequenos, nos quais o resultado foi apertado na última eleição.

O projeto foi custeado primariamente pelo Fundo de Caridade Pew. A legião de indivíduos com pranchetas tem recolhido números de telefones celulares e endereços eletrônicos para uma campanha maciça de acompanhamento do eleitor.

É claro que outros comitês de campanha tentaram anteriormente atrair os esquivos eleitores jovens para o exercício da cidadania, apenas para se desapontarem no dia da eleição.

Durante 30 anos tem havido um acentuado declínio na participação dos jovens --com apenas uma exceção, em 1992. Na última eleição presidencial os eleitores entre 18 e 24 anos tiveram uma participação particularmente baixa-- apenas 37% do total votou, comparado a 64% para aqueles com mais de 25 anos.

Mas, neste ano, as táticas para atrair os eleitores jovens mudaram, enquanto que o nível de engajamento político aumenta, refletindo a preocupação dos filhos e filhas dos "baby boomers" (pessoas nascidas durante um surto de crescimento demográfico nos EUA, entre 1946 e 1964) que chegam à idade de votar.

"Nós os chamamos de 'DotNets', devido à sua paixão evidente pela tecnologia, e trata-se de um grande grupo", diz Scott Keeter, diretor de pesquisas do Centro de Pesquisas Pew.

Segundo Keeter, quando é ampliado para incluir pessoas ainda muito jovens para votar, o grupo DotNet possui 50 milhões de indivíduos entre 15 e 26 anos --sendo 25% maior do que a geração que o precedeu.

Neste ano, o primeiro a abordar esse grupo foi o ex-governador de Vermont, Howard Dean. Ele tinha um exército de voluntários para enviar mensagens e organizar blogs na Internet. A participação dos jovens aumentou acentuadamente nas primárias de Iowa, mas Dean ainda assim perdeu os votos dos jovens para Kerry.

À medida que a campanha de Dean fazia água, os jovens também foram sumindo, e o entusiasmo inicial não se materializou em uma maior participação dessa fatia do eleitorado durante o restante da temporada das primárias.

Após terem procurado apelar para o eleitorado jovem com astros do rock e mensagens de telefone gravadas por celebridades, os cabos eleitorais à caça do voto da juventude dizem que tiveram sucesso com uma estratégia antiga, as equipes de rua, embora ainda tentem atrair os jovens na Web, em bares e em lojas de conveniência.

A Rock the Vote, a grande organização sem fins lucrativos para o registro de eleitores jovens, que foi criticada como ineficaz, apesar dos seus 14 anos de campanhas muito bem financiadas, está distribuindo um milhão de fichas de inscrição de eleitores, em inglês e espanhol, em quiosques de 5.000 lojas de conveniência.

Os fregueses das lojas Seven Eleven conseguem cupons de descontos para a compra de refrigerantes e formulários de registro eleitoral no mesmo local --"um grande gole e um pedaço de democracia", conforme é denominada a estratégia pela Rock the Vote.

O presidente da organização, Jehmu Greene, diz que mais de meio milhão de pessoas também baixaram formulários de inscrição no site do grupo.

E um outro grupo deu um passo além. Os criadores do Hot or Not, um popular site da Internet no qual as pessoas exibem fotos de si que recebem pontos de acordo com seu grau de atratividade, estão promovendo um sorteio que pagará US$ 100 mil dólares ao eleitor sorteado após as eleições, e outros US$ 100 mil ao voluntário que ajudou o ganhador a se registrar.

A companhia diz ser apartidária. Embora os fundadores da empresa tenham o cuidado de frisar que não darão prêmios a ninguém para registrar-se para a eleição --isso seria uma violação da legislação federal--, eles dizem querer encorajar um grande comparecimento às urnas.

A julgar por algumas campanhas de marketing a eles dirigidas, os jovens eleitores podem parecer ingênuos, dando a impressão de não acompanharem os principais eventos políticos do país. Mas entrevistas e pesquisas eleitorais demonstram que o problema é que os eleitores jovens se sentem alienados do debate político nacional.

"Os comitês dos candidatos costumavam se dar por vencidos e admitir que não sabiam como conquistar esses votos, de forma que as questões da agenda eram quase sempre direcionadas pelos grupos confiáveis de interesses", explica Keeter, do Centro Pew.

Mas o que mudou não foi tanto o fato de as campanhas terem começado a falar sobre as preocupações dos eleitores jovens, e sim as questões remeterem a coisas com as quais esse grupo se preocupa.

A educação --especialmente o preço crescente das mensalidades das universidades-- é invariavelmente identificada como uma das questões principais, seguida pela guerra e pelo terrorismo.

"Tenho amigos e parentes lutando no Iraque, e tentando freqüentar a universidade --essas coisas me fazem pensar seriamente sobre o meu futuro", diz Reyes.

Preferência partidária

Os eleitores jovens correram a apoiar o presidente Ronald Reagan. Em 1992 eles penderam para o Partido Democrata. Em 1996, o presidente Clinton venceu Bob Dole entre o eleitorado jovem por uma diferença de quase 20 pontos percentuais. Pesquisas de boca de urna em 2000 mostraram que em 2000 o eleitorado jovem se dividiu igualmente entre Bush e Al Gore.

Os republicanos estão investindo cerca de US$ 10 milhões em grupos partidários nas universidades, com o objetivo de promover os registros e o comparecimento às urnas. Até o momento, eles conquistaram 30 mil voluntários nos campi, segundo Alison Aikel, porta-voz do Comitê Nacional Republicano Universitário. "Os jovens precisam de um motivo para votar, e nos últimos quatro anos, o presidente Bush lhes deu um motivo", diz Aikel.

Os democratas estão confiando mais em grupos externos, como o Americans Coming Together, uma das 527 organizações que surgiram e que se definem como independentes das iniciativas do partido.

Eles estão atuando especialmente nos Estados onde o resultado eleitoral é imprevisível e pagando propagandistas para registrar e acompanhar os eleitores jovens, garantindo que estes dêem as caras no dia da eleição, em um esforço para ajudar Kerry.

Usando computadores de mão e textos enviados por celular, o grupo que apóia os democratas diz que fará contato pessoal com 17 milhões de eleitores no dia da eleição, se concentrando nos jovens e nas mulheres.

"Os dois principais partidos estão nervosos quanto a esse grupo", diz Ivan Frishberg, porta-voz do Projeto Novos Eleitores. "E dá para entender por que. Eles são o maior grupo de eleitores potenciais não explorado, e são facilmente influenciados". Novos eleitores demonstram mais interesse pela política dos EUA Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,38
    3,156
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h22

    0,41
    65.277,38
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host